Pequenos Guerreiros (2021)

A estética do sonho

título original (ano)
Pequenos Guerreiros (2021)
país
Brasil
gênero
Drama, Aventura, Infantil
duração
74 minutos
direção
Bárbara Cariry
elenco
Georgina Castro, Bruno Goya, Juan Calado, Lara Ferreira, Daniel Almeida, Valter Silva, Elaine Buzato, Mestre Aldenir, Mestra Izabel
visto em
Cinemas

Neste filme, o chamado à aventura ocorre desde a cena inicial. O pai anuncia à família uma promessa feita ao pai falecido, e todos decidem que é preciso cumpri-la imediatamente. O carro dará conta da viagem? Tem que dar. No dia seguinte, fecham a casa, juntam dois sobrinhos e partem estrada afora. O roteiro nunca se preocupa em contextualizar este pedido: qual era a relação de Cosme (Bruno Goya) com o pai? Já cumpriram outras promessas antes? O que acreditam que poderia acontecer ao núcleo familiar, caso não saciassem as vontades do morto? Pouco importa. Aqui, o conflito serve de pontapé para lançar os personagens na viagem.

Pequenos Guerreiros se constrói dentro dos subgêneros mais propensos à história de formação: o road movie, no qual se descobre as dificuldades do percurso, mas também a necessidade de persistir e se reinventar diante de obstáculos; o coming of age story, quando crianças são confrontadas pela primeira vez às configurações da vida adulta e amadurecem após esta revelação; e o buddy movie, quando amigos e pessoas gentis surgem abruptamente na vida dos protagonistas (é claro que o carro quebra, como de praxe nos filmes de estrada) para ajudar, compartilhar suas experiências de vida e valorizar a bondade de estranhos.

O roteiro se mostra bastante otimista. Nenhum percalço dura por muito tempo: peças de carro são reparadas rapidamente; crianças perdidas se reencontram logo; parentes distantes estão em casa, esperando pelos viajantes. Não há problemas de dinheiro, brigas entre os familiares, ou ainda ameaças de qualquer tipo. A cineasta Bárbara Cariry elimina o fetiche da miséria, e também a tensão de um Brasil possivelmente perigoso. Em contrapartida, oferece uma comunhão de sorrisos, festas e acontecimentos mágicos pelo sertão do Ceará. Há apenas vantagens em se jogar rumo ao desconhecido.

Logo, os fatos são filtrados pela perspectiva infantil, que torna a realidade colorida, lúdica, plena de maravilhamentos. A noite se tinge de um azulado profundo, como numa fantasia espacial. As roupas dos meninos, em cores pastéis, aludem a diversos elementos do folclore que se materializam adiante. A felicidade de um carro funcionando, que desperta gritos e abraços, também se posiciona alguns graus acima do realismo. Em chave semelhante, o casal de artistas que convenientemente ajuda a família sempre que necessário aproxima o longa-metragem da fábula. 

Os fatos são filtrados pela perspectiva infantil, que torna a realidade mais colorida, lúdica, plena de maravilhamentos.

Pequenos Guerreiros remete à evocação de uma boa lembrança, como se o pequeno Benedito (Juan Calado), numa fase mais madura, se recordasse da viagem deliciosa efetuada com os primos e os pais até a Festa do Pau da Bandeira, décadas atrás. A memória afetiva permite distorções, exageros daquilo que soou delicioso, em paralelo à ocultação de eventuais problemas. No avesso da objetividade fatual, enxergamos uma história contada pelo prisma de terceiros, mais preocupada com sensações do que dados e locais. O generoso ponto de vista alterna entre pai, mãe e crianças, demonstrando que o encantamento não se perde com a entrada na vida adulta.

O discurso recusa a adesão à malícia contemporânea, à velocidade dos filmes atuais, repletos de referências digitais, virtuais, além de insinuações de duplo sentido. Os significados, neste caso, estão placidamente presos aos seus referentes, numa trama próxima do atemporal. Cariry acredita na pureza de um cinema infantil de virtudes e valores, estimando que o público ainda possa aderir às tramas de ritmo dilatado, contemplador. Longe do saudosismo e da melancolia, o projeto apela a concepção do cinema infantil que rompe com os vícios da pós-modernidade. Ao invés de correr atrás da criança do século XXI, convida os pequenos de hoje a descobrirem uma concepção do olhar desenvolvida ao longo do século XX.

Um dos aspectos mais recompensadores da experiência provém da maneira como a autora relaciona diferentes formas de crença, enquanto sinônimos de afetos. Os meninos Benedito, Matheuzinho (Daniel Almeida) e Bruna (Lara Ferreira) acreditam em extraterrestres, em dinossauros, mas também em criaturas das lendas locais, na astronomia e na magia do cinema. Entregam-se à crença sem a ingenuidade pueril, apenas uma entrega saudável e curiosa às diferenças. Trata-se de uma infância interessada, inquisidora, capaz de se preocupar com os demais. Cariry deposita fé na nova geração que está por vir.

Estes regimes de crença se expandem à relação com o espectador. Os personagens modificam o meio ao redor (as crianças magicamente ligam um projetor de cinema, e provocam a queda de energia num museu), enquanto são modificados por ele. Respeita-se o desejo de ficção de cada um, esteja ele relacionado à fé cristã, à crença em figuras da mitologia cearense, ou à crença no potencial das imagens. Cada um deposita sua forma de escapismo e fantasia na estrutura que lhe convém, e todas elas se entrelaçam numa forma única e orgânica de enxergar o mundo. Raramente uma procissão religiosa se encontra com a evolução dos dinossauros, com as estrelas e com um cinema abandonado. O filme jamais hierarquiza estas formas de experimentar o real.

Em determinados momentos, a idealização da aventura aproxima Pequenos Guerreiros de uma trajetória turística pelas maravilhas do interior do Ceará, quando a montagem insere flashes das belas paisagens encontradas pelo caminho. Felizmente, a romantização nunca se intensifica, nem afeta o humanismo central no projeto. O cinema brasileiro oferece, pela segunda vez no ano após Marte Um, a imagem de um garotinho negro observando as estrelas e se encantando com o universo infinito de possibilidades. Apesar de um contexto socioeconômico desfavorável, o ponto de vista acredita na capacidade de reinvenção, deixada sempre para um futuro próximo, sugerido no final em aberto.

Ao final, o drama comprova a capacidade impecável de produção e controle do discurso. O filme nunca busca ser mais do que aquilo que lhe cabe no orçamento e na duração. Ele conta com um elenco competente — destaque para Georgina Castro — em atuações simples e sem afetação, revelando festas populares da maneira possível (um drone sobrevoando a multidão), valorizando a estrada e os encontros com sobriedade. Enquanto as crianças sonham, os adultos por trás das câmeras controlam o dispositivo com um profissionalismo ímpar: nenhuma cena soa improvisada, acelerada, finalizada às pressas “porque não deu para fazer de outro jeito”. 

As ambições dos criadores estão perfeitamente ajustadas aos meios disponíveis, algo que talvez decorra da vantagem de ter uma produtora experiente na cadeira de cineasta. De qualquer modo, esta família de cinema (Rosemberg Cariry co-assina o roteiro com Bárbara, enquanto Petrus Cariry assina a fotografia) homenageia outra família, sem transformar o périplo minúsculo deste núcleo fictício numa viagem espetacular. Existe maturidade suficiente para tornar o filme pequeno, íntimo e discreto. Ele sabe de onde partir, e o ponto que pode alcançar. O cinema brasileiro poderia se beneficiar de mais experiências com tamanho grau de sensatez — é possível criar sonhos que caibam no real.

Pequenos Guerreiros (2021)
7
Nota 7/10

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