
“Tem alguma coisa errada”. Os personagens observam com frequência o horizonte e repetem: “Tem alguma coisa errada”. De fato, muita coisa está fora do lugar no universo proposto pelo diretor e roteirista Davi Pretto — teria sido mais difícil apontar o que aparenta correto e normal aos olhos destes cidadãos. Afinal, nesta distopia, os seres humanos são acometidos por uma estranha síndrome de causa desconhecida, que provoca a perda de memória. Cabe às novas ferramentas de inteligência artificial fabricar imagens para preencher as mentes vazias. Enquanto isso, o dinheiro se esgotou, restituindo um sistema de trocas informais, e a polícia rouba galões de água dos moradores. O mundo dos ricos e o mundo dos pobres é sumariamente separado.
Além disso, o personagem constitui um Estrangeiro, no sentido camusiano, ou kafkiano do termo — no desconhecimento do próprio nome, será batizado de K. Sabemos, pelo sotaque, que se trata de um indivíduo nordestino vivendo no sul do país (o ator Zé Maria Pescador vem do Rio Grande do Norte, em oposição à maioria sulista e sudestina do elenco). Sem passado, nem futuro, tenta compreender um presente estranho, no qual flashes de imagens velocíssimas substituem o conhecimento, e sugestões de lembranças via luz avermelhada buscam compensar a falta de vivências assimiladas. Estamos no reino do simulacro, porém num instante pós-indignação: não parece existir contra o quê, ou contra quem, lutar. Como zumbis, as pessoas se arrastam por cotidianos enfadonhos.
Futuro Futuro traduz em imagens e sons os receios de nosso mundo precarizado, experimentando as formas (estéticas e narrativas) de um sofrimento coletivo.
Na chave inversa destes dias modorrentos, de luzes esbranquiçadas e tipicamente naturalista, o diretor imagina uma riqueza plastificada, robótica. Nos condomínios de luxo, imagens de inteligência artificial sugerem apartamentos imensos, cercados por áreas de lazer lisas, limpas e inócuas. Estes fragmentos vermelho-sangue, criados por inteligência artificial, ostentam cachorros digitais e seres humanos com rostos estranhamente deformados pela pixelização (e ainda mais perturbadores devido à distância do enquadramento, que nunca se fecha em close-ups). Se o presente é caos, o futuro consiste numa monstruosidade sedutora. Não demoramos a perceber, junto do atônito K, que o mundo está acabando. Morreremos todos — porém, alguns de nós poderão festejar antes do apocalipse.
A narrativa sustenta um tom misterioso, do início ao fim. Pretto acredita na capacidade do espectador em decifrar algumas metáforas, ou apenas se perder em outras — vide o símbolo do polvo, das comidas jogadas por drones, dos dispositivos implementados nos seres robóticos do bairro nobre (Clara Choveaux e Higor Campagnaro). Felizmente, o longa-metragem jamais perde tempo se explicando. Confia em nossa bagagem pessoal de distopias, fantasias e ficções científicas, além da disposição a nos projetar nesta visão dúbia de uma desolação alternativa. Aqui, o sexo será ou afetuoso e triste (caso de K), ou performático e frio (caso do casal burguês). Nenhum dos mundos representa a felicidade, nem a solução aos problemas. O maniqueísmo desaparece, assim como a perspectiva de heroísmo.
Apesar do título, Futuro Futuro proporciona uma jornada niilista. Caso fosse executado em Hollywood, traria um protagonista desvendando o segredo de uma corporação perversa, cujas ações seriam denunciadas e destruídas, até o restauro da ordem. Ora, este longa-metragem concebe a desolação de um universo despolitizado, onde os personagens nem sequer tentam fugir ao destino selado. Para um filme repleto de dispositivos piscantes e paisagens inalcançáveis, surpreende a ausência voluntária de pathos, ou ainda da euforia provocada por tais dispositivos. Já descrevemos a tecnologia enquanto espetacular, catastrófica, transformadora. Imaginamos em nossas ficções uma geração de robôs, além de guerras contra hologramas. Agora, no entanto, os dispositivos científicos somente acalentam uma dor inevitável. Tornam-se, em última instância, inúteis — vide a traquitana rejeitada pela professora Joana (Carlota Joaquina), e ridicularizada por Antonieta (Clara Choveaux).
Atenção: possíveis spoilers a seguir.
É tentador enxergar no projeto uma representação bastante literal das últimas catástrofes e pandemias que nos assolaram. O filme se inicia com menção direta às enchentes no Rio Grande do Sul que, inclusive, paralisaram e ameaçaram a concretização da obra. Adiante, corpos humanos boiam numa inundação digital. A segregação das pessoas em seus bairros, alimentando-se de produtos escassos e controlados, enquanto se privam de contato físico real, remete à experiência da Covid-19. A sensação de impotência face a uma pandemia global poderia facilmente remeter a esta leitura do fim do mundo, enquanto a polarização intensa — aqui, há casebres e apartamentos de luxo, nada entre os dois — dialoga com nossos embates políticos.


No entanto, o discurso vai além. Pretto materializa ideias e conceitos que a maioria dos filmes meramente sugeriria. Ele concebe seu apocalipse avermelhado, tão extravagante quanto indiferente. Explicita na velocidade dos slides da escola a maneira acelerada como consumimos “conteúdo” em nossos celulares e redes sociais. Filma o sexo, a morte, a sede. Para além de alusões, trata-se de um desejo de traduzir em imagens e sons os receios de nosso mundo precarizado, experimentando as formas (estéticas e narrativas) de um sofrimento coletivo. Diante de traquitanas científicas reduzidas a gadgets, o elemento de verdadeiro impacto reside na representação da paranoia, da depressão, do abandono. Em diversos instantes, o percurso se aproxima mais do terror existencial do que de um uma fantasia alarmante.
Talvez nem todas as escolhas se justifiquem a contento, e algumas saídas narrativas possam soar crípticas demais — restando a cada espectador determinar os símbolos pertinentes, e aqueles confusos ou demasiadamente explícitos. Entretanto, Futuro Futuro abraça um cinema de risco, que tritura gêneros numa única proposta, repensando as geografias humanas e naturais pela perspectiva de uma configuração tipicamente brasileira. Este é possivelmente nosso primeiro grande filme a incorporar a Inteligência Artificial enquanto ilusão, de maneira crítica, no instante em que grandes festivais abraçam a produção em IA de maneira irrefletida e celebratória. O discurso nunca grita os perigos, nem denuncia culpados. Entretanto, dá alguns passos atrás para enxergar nosso mundo atual com o estranhamento de um K, decifrando o cenário desolador pela primeira vez. Em oposição a uma obra imersiva, prefere um cinema de gênero distanciado, provocador e instigante.




