Dança aos Orixás — Com Negrizu e Gabi Guedes (2025)

O cinema como ritual

título original (ano)
Dança aos Orixás — Com Negrizu e Gabi Guedes (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
15 minutos
direção
Gustavo McNair
elenco
Negrizu Santos, Gabi Guedes
visto em
24º Curta-SE (2025)

Inicialmente, as imagens deste curta-metragem despertam familiaridade: já não vimos estes cenários e personagens antes? Logo, os letreiros revelam se tratar de um projeto anexo ao longa-metragem Moa, Raiz Afro Mãe (2022), de Gustavo McNair. O documentário a respeito de Moa do Katendê já proporcionava o encontro entre o músico Gabi Guedes e o dançarino Negrizu Santos. Em contrapartida, somente pequenos trechos desta captação foram utilizados dentro do amplo panorama a respeito da cultura brasileira de matriz africana. Agora, novos materiais daquela época são editados e alçados ao posto de obra autônoma, ainda sob direção de McNair.

Logo, a direção contenta-se em oferecer, a ambos, espaço e tempo para apresentarem aquilo que fazem de melhor. Isso pode parecer pouco, mas, certamente, não é: muitos filmes teriam a tendência a interferir, embelezar ou explicar o que ocorre na reunião entre os dois artistas. Já o cineasta, por sua vez, estima que a arte deles fala por si própria, e dispensa maiores contextualizações. Assim, oferece ao olhar do espectador a gestualidade e sonoridade específicas da dança oferecida aos orixás, tanto num grande galpão vazio, quanto na natureza ao redor. 

Em meio a uma seleção de filmes particularmente didáticos, no 24º Curta-SE, tamanha confiança no poder das imagens e sons resultou muito bem-vinda. Isso porque os espaços são cuidadosamente pensados: mesmo no galpão, as portas estão parcialmente abertas, permitindo contemplar o verde da natureza ao fundo. A luz sobre o corpo do dançarino reduz o corpo a uma silhueta, reforçando a geometria e a precisão dos movimentos. Mesmo no trecho inicial, quando conversa com Negrizu durante uma caminhada pela mata, o diretor valoriza a vertente do documentário espontâneo, aberto ao dinamismo, e avesso ao caráter posado, rígido, de tantas iniciativas semelhantes.

É certo que, às vezes, o filme carece de mais luz sobre o músico, obscurecido pelo trecho do enquadramento onde se encontra. Ao menos, a direção assume tais deficiências, revelando ao espectador os refletores e ajustando a iluminação no interior do próprio enquadramento. Pode-se argumentar, em paralelo, que o documentário perde o frescor, ou a capacidade de surpresa, por derivar de um longa-metragem que apostava nos mesmos personagens e cenários. De fato, para quem assistiu a Moa, Raiz Afro Mãe, talvez o curta não tenha nada propriamente novo a oferecer. Serve como uma saideira daquela encontro, ou o “chorinho” do belo coquetel oferecido alguns anos atrás.

Mesmo assim, Dança aos Orixás cabe muito bem no formato do curta-metragem, e jamais pretende ser mais do que o registro deste dia passado junto à dupla. McNair possui consciência do escopo de sua produção e do alcance deste projeto, enquanto a edição revela surpreendente precisão nos cortes e no agenciamento da dinâmica de cena. Trata-se de um acabamento mais sofisticado do que aparentaria a princípio, devido a tamanha liberdade das coreografias e composições. Talvez, ao invés de uma faixa anexa, este filme como possa ser lido como uma tentativa de prolongar o gesto de representar com carinho, atenção e beleza a cultura de origem africana, e suas manifestações artísticas. Neste sentido, temos diante dos olhos um work in progress com aspiração à eternidade.

Dança aos Orixás — Com Negrizu e Gabi Guedes (2025)
7
Nota 7/10

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