
Há poucas imagens de Herbert Daniel em Os Quatro Exílios de Herbert Daniel. O diretor Daniel Favaretto reserva para o final uma importante fala de seu personagem, durante uma entrevista, em material de arquivo. Antes disso, prefere escutar amigos e familiares, enquanto descrevem o sociólogo e ativista. Em oposição a um documentário de pesquisa e investigação, revelando fontes e imagens raras, o cineasta prefere uma evocação — espécie de homenagem ao protagonista, enquanto militante e vítima do HIV/AIDS no Brasil.
Por isso, o formato abraça o talking head convencional, dependendo quase exclusivamente das falas de terceiros, que evocam as qualidades (a “inteligência absolutamente especial”) e descrevem as ações do colega face à ditadura militar. A separação em quatro formas de exílio soa excessiva para uma narrativa tão sucinta — e, de fato, cada segmento se torna apressado, pouco desenvolvido. Em contrapartida, demonstra a ambição dos criadores em abarcar o máximo possível do personagem, apesar do curto formato à disposição.
Pelo menos, o resultado ostenta um tratamento estético muito polido: a direção de fotografia apresenta uma luz equilibrada e homogênea entre as falas, dispensando a obrigatoriedade de testemunhos diretos à câmera. Às vezes, os personagens conversam entre si, ou são captados numa visão lateral, o que dilui o aspecto rígido dos testemunhos. O tratamento do som das falas também se prova bastante competente. Não fosse a insistência de uma trilha sonora onipresente, o tratamento sonoro se provaria ainda melhor. (Aliás, o medo do silêncio, e a recusa da contemplação, se mostram desafios profundos à linguagem do cinema em tempos de Internet).
A obra também se legitima pelo acesso a grandes nomes da arte e da política (Lucélia Santos, Fernando Gabeira), reforçando o valor de Herbert Daniel, além do recurso à peça de teatro onde a trajetória dele se redesenha nos palcos. É possível que a menção à homoafetividade do personagem seja acanhada demais — a maioria dos entrevistados recorre a eufemismos e desvios para não usar termos diretos como “gay” e afins. Ressalvas à parte, o curta-metragem reforça a relevância de figuras de liderança assumidamente gays. Trata-se de uma lacuna evidente na representação histórica de indivíduos LGBTQIA+, com foco em seu papel político e social. O filme constitui, desta maneira, um belo primeiro passo em direção a enfrentamentos ainda mais assertivos do tema.




