O mergulho em diversas sessões de curtas-metragens durante o 24º Curta-SE — Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe permite enxergar alguns padrões entre os filmes selecionados — para o bem e para o mal. Positivamente, percebe-se a disposição em retratar a diversidade, a voz de grupos marginalizados ou desprivilegiados. Obviamente, pensa-se num interesse tanto dos criadores quanto dos curadores, que escolheram tais títulos, e agruparam estes projetos de modo a ressaltar temáticas e abordagens em comum.
Em contrapartida, alguns pontos começam a soar o alerta quanto à produção contemporânea. Trata-se de preocupações que surgem não somente diante deste painel em especial, mas daquele visto em festivais recentes, como Olhar de Cinema, Gramado e Brasília — e confirmados nas projeções sergipanas. Pode-se pensar em certa crise da representação: um forte receio de não se fazer compreender, levando à crença na necessidade de apostar em ferramentas cada vez mais didáticas, para assegurar a boa assimilação da mensagem junto ao espectador.
A percepção de que a geração atual possui dificuldade de interpretar textos, imagens e símbolos não se atém ao cinema, mas se aplica, igualmente, a ele. Vê-se cada vez mais filmes, multiplicados por telas e plataformas, porém, entende-se menos das propostas levantadas, das questões sugeridas, das metáforas elaboradas. Vivemos tempos de comunicação precarizada, quando se estima que representar tal tema equivalha a defendê-lo, e que nenhum debate poderia florescer de pormenores sutis, balanceados, contextualizados.

Para ser escutado, em tempos de redes sociais e Internet, é preciso ser claro, direto, e falar alto (ou gritar), de modo a captar a atenção do interlocutor em poucos segundos — senão, ele correrá para a discussão seguinte. A noção de que existe um discurso veiculado por cada pessoa que filma vai além do gesto cinematográfico — em tempos de selfies, cada um pode pegar uma câmera e literalmente dizer o que quiser em frente ao dispositivo. Valemos pelo que criamos, e pela imagem que fazemos de nós mesmos. Somos o autor e a obra, o criador e a criatura.
Assim, um traço marcante nos curtas-metragens vistos no Curta-SE diz respeito ao didatismo. A seleção está repleta de obras cuja importância do tema se transmite numa maneira bas-tan-te cla-ra de afirmar o posicionamento junto ao público. Parte-se do pressuposto que o espectador ignore por completo os temas abordados, e que seja incapaz de assimilar nuances. Para não sofrer nenhum tipo de represália, o autor adota então um tom professoral para instruir seu pobre público, tão ignorante, tão carente de informações.
A narração em off domina os curtas-metragens selecionados (neste festival, e nos outros eventos brasileiros). A exemplo de qualquer ferramenta estética, ele não possui valor em si — pode ser bem utilizado ou mal utilizado; em referência direta ao teor das imagens, ou descrevendo algo que a captação não registra. Pode completá-la, elevá-la, se chocar com a imagem, ou meramente descrevê-la. Alguns dos melhores filmes da história do cinema são movidos por perturbadoras narrações em off (Sem Sol, Magnólia). O mesmo vale para alguns dos mais viciados e formulaicos vídeos institucionais.

Neste caso, a narração serve aos autores para apresentarem os protagonistas, esclarecerem seus objetivos, e dizerem exatamente o que pensam a respeito dos temas evocados. Os filmes literalmente verbalizam suas intenções. Tempo de Sorrir, de Jonas Amarante, critica os resquícios da colonização, a despolitização do turismo, o racismo, o extermínio de povos indígenas. Entretanto, tudo isso é efetuado através de uma voz-guia, que coloca na boca do narrador precisamente o que o cineasta gostaria de nos dizer a respeito da sociedade contemporânea. Memoria Colectiva, de Cristina Colmenares, apresenta a brutalidade das forças armadas peruanas contra os povos originários, além do peso restante das ditaduras e tiranias. Ele também o faz com clareza cristalina, descrevendo via narração a maldade dos inimigos e a posição de vítima das mulheres locais (o maniqueísmo é amigo da didática introdutória).
Janeiro, de Boca Migotto, e Medo Monstro, de Andrew Gledson e Eduardo Padrão, evocam os perigos do bolsonarismo. O primeiro imagina um senhor raivoso e grosseiro, que questiona a existência da pandemia de coronavírus, enquanto nega a eficácia das vacinas. Imediatamente, quando liga a rádio, escuta notícias a respeito dos acampamentos bolsonaristas em Brasília, que levariam à tentativa de golpe de Estado. Após mencionar o gesto de “matar o pai”, o roteiro se conclui com um letreiro bem-humorado, explicando se tratar de um termo freudiano e, portanto, simbólico: “Não sugerimos que os filhos assassinem seus pais. É bom avisar”.
Já o segundo retrata a ascensão de Bolsonaro pela perspectiva de uma garotinha, com medo de uma criatura capaz de transformar as escolas em quartéis, e fechar centros culturais. Como se a simbologia não fosse suficientemente clara, seu inimigo na escola faz arminha com a mão, e o número dos votos na eleição presidencial reflete exatamente a contagem para cada candidato, em 2018. Ao final, ela descobre a importância de re-sis-tir (a palavra é apresentada em destaque). Teria sido mais complexo abordar nuances nesta monstruosidade, ou tentar compreender os motivos pelos quais a maioria da população brasileira elegeu democraticamente um candidato contrário à democracia.

Entretanto, a conversão do outro em um monstro escuro, de dentes afiados, reforça a narrativa sedutora do “eu contra nós”. (O maniqueísmo retorna). Apenas a animação utiliza a narração em off, ao contrário do drama gaúcho dirigido por Boca Migotto. Em contrapartida, o didatismo os aproxima. Cinema Sem Teto, de Denise Szabo, também narra pau-sa-da-men-te o desaparecimento dos cinemas de rua, lamentando tal fenômeno. Ana Parideira explica, em voz off, a importância da autonomia das mulheres sobre seus corpos. Coletivamente, estas obras estimam que a relevância do tema legitima tal mecanismo. O conteúdo se coloca acima da forma.
Enquanto isso, os documentários se mostram, em sua maioria, explicativos e descritivos. Fala-se de temas importantes no formato consagrado das cabeças falantes, ou talking heads. Os Quatro Exílios de Herbert Daniel, Aracaju: Uma Viagem no Tempo, Sergipe Way: Do Barro ao Mangue e Donas da Cultura Popular: Madá apostam no valor central de contarem seus temas, conversarem a respeito de suas preocupações. Avisam, denunciam, pontuam, alertam. Querem educar, e esperam ser bem compreendidos em seus discursos. (Neste sentido, a exibição de documentários mais poéticos, como Dança aos Orixás, ou de vertente experimental, caso de Do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, provocam certo alívio).
Talvez reste pouco ao espectador elaborar, em termos de reflexão. Afinal, os filmes refletem por nós, pensam seu tema sozinhos, e nos oferecem a síntese da dialética alheia. Explicam qual argumento adotar, e qual repudiar; que comportamento deve ser validado, e qual, dispensado. Apoiar a cultura — as salas de cinema, as culturas de povos originários, a democracia — é algo bom, enquanto atacar estes grupos, destruir aparatos culturais e exterminar povos seria algo ruim. Alguém há de discordar?

O problema desta abordagem reside na sua conversão progressiva a uma figura de retórica — um valor moral. Por meio da simplificação brutal do debate, reduzimos as temáticas ao bem e ao mal, ao correto e ao errado. Ora, por que tantos brasileiros votaram, e ainda votariam, em Bolsonaro? Por que Aracaju mudou tanto com os anos, e por que as salas de cinema fecharam, e ainda fecham? Por que se conhece pouco do samba de côco e do ballroom no Brasil? Como isso poderia mudar?
Falta elaborar esteticamente os problemas anunciados — em outras palavras, representá-los, ao invés de contá-los. A raiva frente às injustiças e a admiração da bela cultura do nosso povo precisa estar presente nas formas, nos sons, na montagem, ao invés da fala de especialistas, da narração de cineastas, e de personagens fictícios que, convenientemente, representam ilustrações cristalizadas do outro, do adversário. Enfrentamos um período de infantilização da linguagem, de redução de sua complexidade. Somem os filmes ambíguos, em dúvida, apontando contradições nas falas dos entrevistados, ou ponderando aspectos contraditórios em seus temas.
Resta a constatação dos fatos, a afirmação do óbvio, a tentativa de sensibilizar o espectador (presumido inerte, adormecido) por meio do excesso de trilha sonora comovente, de drones que supostamente encantam com vistas aéreas, dos letreiros finais pontuando exatamente aquilo que os curtas-metragens já vinham trabalhando até então. Somos tratados, através desta forma de cinema retórico, enquanto espectadores menos capazes, e menos inteligentes. Por isso, os criadores se sentem na obrigação de rebaixar o nível da conversa, e simplificar sua reflexão, para nos alcançar no andar de baixo. Isso é preocupante.



