My Ray of Sunshine (2024)

A imagem da distância

título original (ano)
My Ray of Sunshine (2024)
país
Brasil, Portugal
linguagem
Experimental
duração
7 minutos
direção
Laís Andrade
visto em
24º Curta-SE (2025)

Uma tela retangular, extremamente estreita — ainda mais do que a proporção habitual do Cinemascope. A imagem se divide em duas metades, com registros distintos. Entre o mar e a praia, uma mãe e uma filha se buscam nas metades que deveriam se completar, porém, raramente coincidem. Elas estão relacionadas, aludindo ao conteúdo da parte ao lado, mas enfrentam dificuldade para formar um horizonte único. Associam-se de maneira livre, metafórica: o céu e o mar, a adulta e a criança, uma margem e outra do Atlântico.

“Eu não sei quanto mamãe vai voltar”. A frase é proferida com carinho pela mãe que se esforça em transmitir ternura à distância. A filha jamais responde: trata-se de uma carta-telefonema, espécie de lamento. Ela se explica à garotinha, adaptando sua fala à compreensão possível ao imaginário infantil, e também entoa uma cantiga de ninar. Assim, os dois elos se unem. Próximo da instalação e da videoarte, o dispositivo escolhido pela cineasta Laís Andrade busca representar, ao mesmo tempo, a distância e a proximidade, a conexão e a ruptura. 

O díptico serve muito bem a atribuir estranhamento à poesia tão convencional das ondas, do mar, da paisagem. Afinal, estamos pouco habituados a acompanhar uma narrativa fragmentada em dois estímulos simultâneos e paralelos (ou as multitelas e os telefones celulares teriam nos tornado mais hábeis nesta conjugação dos sentidos?). Logo, a beleza não decorre unicamente dos cenários e do elenco, mas da fricção entre imagens e sons. Afinal, neste caso, a montagem ocorre no interior de cada plano, permitindo ao espectador assistir justamente à costura entre as partes. Admiramos aquilo que tantos criadores tentam ocultar.

Neste percurso, reflete-se acerca do histórico de escravidão — logo, as duas telas apresentam fotografias de pessoas escravizadas, e de empregadas em casas de senhores, em oposição às vivências contemporâneas. A opção pela língua africana, em detrimento do português ou do inglês, também favorece a ideia de poder observar o outro, a diferença, a cultura original, sem adaptá-la para facilitar o acesso do espectador. A diretora espera que o espectador efetue um esforço próprio para se projetar neste contexto, ao invés de ir em direção a ele, para educá-lo. Assim, compreende que a política precisa impregnar as formas, acima de tudo. Andrade parte do pressuposto que uma ferida histórica, e uma antinaturalidade, exigem a estética do estranhamento. A poesia da violência também pode ser, por sua vez, violenta.

My Ray of Sunshine (2024)
8
Nota 8/10

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