Ano após ano, a Mostra de Cinema de Gostoso, em São Miguel do Gostoso (RN), quebra recordes de frequentação do público local, e de diversas localidades vizinhas, que se deslocam até a praia de Maceió para assistir aos filmes brasileiros e desfrutar da infraestrutura turística da cidade.
Muito mudou desde as primeiras edições, quando os espectadores ainda se acostumavam com a experiência inédita da gigantesca tela ao ar livre, na praia. Em 2025, mais de sete mil pessoas frequentaram uma única noite do evento, para prestigiar o cinema nacional.
Os diretores da Mostra de Cinema de Gostoso (e membros da curadoria) Eugênio Puppo e Matheus Sundfeld conversaram com o Meio Amargo a respeito das novidades desta edição, e dos planos de expansão para o ano seguinte:

Acredito que a grande novidade desta edição tenha sido a primeira Mostra Potiguar. Fiquei impressionado com o número de 87 filmes inscritos.
Eugênio Puppo: Uma coisa muito importante para o estado foi a PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura). Isso mudou completamente o panorama local, porque investiu e incentivou diversos projetos de curtas e de longas-metragens. No próximo ano, já vamos ter nove longas-metragens do Rio Grande do Norte — e um deles veio da nossa turma de formação.
Antes, todo ano a gente ficava caçando filmes locais, porque pensava: “Qual é o sentido de fazer uma mostra no Rio Grande do Norte sem filmes do Rio Grande do Norte?”. Mas não tinham longas. Há uns três, quatro anos, as pessoas nos perguntavam sobre isso, porque parecia que a gente não tinha interesse. Mas agora, sim, se tornou possível criar uma mostra potiguar com consistência. Até há pouco, era muito difícil escolher quatro filmes entre os quinze que se escreviam. Ao mesmo tempo, nesses 12 anos, foi feito um trabalho incrível. Ninguém falava da produção de Rio Grande do Norte, nem falavam tanto sobre São Miguel do Gostoso, mas o festival colocou uma lupa na região. Ela trouxe jornalistas, críticos e realizadores para assistirem aos filmes, e mostrou também a força do nosso projeto de formação. Já temos 35 filmes realizados neste processo. É uma loucura.
Então, a partir do momento que a mostra começa a ser uma janela de exibição interessante, e que a gente se preocupa com um bom nível da projeção, se preocupa em ter uma sala de imersiva, confortável, num num lugar paradisíaco, as pessoas começam a conhecer o cinema potiguar, e aos poucos ele vai se tornando mais relevante. Esse ano fez sentido fazer para a gente escolher um conjunto de filmes consistentes, com questões importantes. Foi incrível ver aqueles estudantes universitários emocionados, falando: “Meu sonho era estar aqui”. Aquilo mexeu muito com a gente.
No próximo ano, já vamos ter nove longas-metragens do Rio Grande do Norte — e um deles veio da nossa turma de formação.
Além disso, a mostra potiguar continha ficções, documentários e animações, tanto de nível profissional quanto de estudantes iniciantes. Uma variedade impressionante.
Eugênio Puppo: Há anos a gente dialoga com a Universidade Federal de Rio Grande do Norte e a UnP, que é privada. Já fomos palestrar nas turmas de audiovisual ou produção cultural algumas vezes, sempre em diálogo com os professores principais. Faz oito ou nove anos que a gente recebe este grupo, que vem crescendo — serão mais de oitenta pessoas em 2026. Isso tem influenciado muito no resultado, porque as pessoas tão assistindo aos filmes na tela grande.
Às vezes, o nosso olhar vai de encontro à precariedade dos brasileiros, algo que o Matheus sempre diz, e eu acho ótimo. Mas o que nos interessa são as questões de linguagem — mesmo que a ousadia traga alguns erros. Então, esse trabalho em conjunto com as turmas de audiovisual das universidades responde por essa variedade, e deixa a gente bem surpreso.
Matheus Sundfeld: Isso reflete nessa diversidade de formatos e gêneros. O Nó do Diabo é um filme aqui do coletivo Nós do Audiovisual, e corresponde à ideia do coletivo de trabalhar com filmes fantásticos e lendas da cidade. Afinal, O Nó do Diabo é um cordel. Além disso, chegam de Natal muitos documentários que trabalham com fotografias, como é o caso do Inquietas, que está na Mostra Panorama. Então interessa para a gente esta distribuição dos filmes potiguares para além da Mostra Potiguar, que é a novidade desse ano. Mas, desde as outras edições, a gente sempre colocou filmes do Rio Grande do Norte na Mostra Competitiva e na Mostra Panorama, fazendo que estes filmes preenchessem toda a programação.
É realmente muito interessante notar essa diversidade de assuntos e de gêneros, porque o curso de audiovisual da UFRN começou quando a gente tava fazendo a terceira ou quarta Mostra de Gostoso. Era um curso recente. Mas, agora, já gera frutos. Este ano, por exemplo, nós exibimos um filme feito por alunos do primeiro semestre, chamado Carnavaleska, que tem um trabalho estético impressionante com fotografias.
Ao mesmo tempo que a mostra exibe produções contemporâneas, de cineastas bem jovens, ela nos apresenta Cinema, Aspirinas e Urubus em versão restaurada, vinte anos depois do lançamento. Como veem a importância de incorporar filmes preservados na programação?
Eugênio Puppo: Nós já tínhamos fechado para esse ano uma parceria com a Cinemateca Brasileira, no intuito de restaurar filmes e exibi-los aqui. Mas fechamos essa parceria há poucos meses, e ficou apertado para aplicar nesta edição. Então reprogramamos para o ano que vem a ideia de ter filmes restaurados que vão passar pela primeira vez em Gostoso.
Eu gosto muito de trabalhar com material de arquivo, por já ter feito restauro e trabalhado na Cinemateca Brasileira. Enfim, a vida sempre girou em torno de arquivos, de restauração. Eu sou um dos maiores depositantes de mídia física da Cinemateca Brasileira, com cópias, filmes restaurados, digitalizados, remasterizados e cópias em película. Desde 2001, eu faço mostras, como o Cinema Marginal e a Boca do Lixo, e para isso, comprei e confeccionei cópias, sempre em parceria com os laboratórios. Então eu já tinha a intenção de fazer uma sessão de clássicos. Mas teria que pensar bem, escolher a dedo.
Agora, este desejo está dando certo. Abrir com Cinema, Aspirinas e Urubus, do Marcelo é bem significativo, porque esse filme foi muito importante para mim há 20 anos. Eu estava na estreia em Cannes, quando exibiram pela primeira vez, e o filme me marcou muito.
Depois de meses de curadoria, a gente se deparou com quatro longas-metragens dirigidos por mulheres. Mas não foi algo muito racional. A curadoria sempre tem esse papel de diversificar, o que também vale no sentido de regionalização.
A mostra competitiva esse ano foi particularmente jovem e feminina. Dos cinco longas-metragens escolhidos, quatro eram dirigidos por mulheres. Como chegaram a esta seleção?
Eugênio Puppo: Essa foi uma escolha muito natural. Depois de todos esses meses de curadoria, a gente se deparou na reta final com quatro longas-metragens dirigidos por mulheres. Mas não foi algo muito racional. Isso foi difícil no ano passado, quando a gente teve dois filmes de mulheres, e ponto — não tinham muitas inscrições de diretoras. A curadoria sempre tem esse papel de diversificar, o que também vale no sentido de regionalização. É uma grande preocupação nossa. Queremos ter mais filmes do Nordeste, até por estarmos aqui no Rio Grande do Norte, mas é melhor quando isso acontece organicamente. Esse ano, tinham muitos filmes ótimos dirigidos por mulheres, e percebemos isso no final.

As novas seções apontam para um crescimento do evento. Pretendem continuar expandindo e incluindo atividades na Mostra?
Matheus Sundfeld: Essa sempre foi uma uma intenção nossa. A cada ano a gente tenta agregar mais, e pensar em uma programação ampliada. A gente tem essa limitação física por serem duas salas de cinema, mas tentamos esse ano encaixar algumas sessões entre a sala ao ar livre, à noite, e a Mostra Panorama, na sala Petrobras, à tarde. Este foi o caso dos clássico restaurados do cinema brasileiro. Pensamos muito sobre o horário para a Mostra Potiguar, e entendemos que precisaria ser na sala de cinema ao ar livre, para que o público já descobrisse esses filmes no palco principal da Mostra. É um quebra-cabeça que precisamos resolver: como colocar a programação, como fazer as sessões na praia quando tem dois longas na mostra competitiva? Isso sem falar nos seminários e atividades paralelas.
Eugênio Puppo: Ano que vem, a gente pretende retomar a mostra infantil, talvez pela manhã. Então trazemos as crianças das escolas, não só de São Miguel de Gostoso, mas também de Touros e outras cidades vizinhas. Assim, conseguimos ampliar a ideia da formação de público, porque a gente percebeu que durante anos que a gente fez essa Mostra Infantil, estes jovens ainda estão por aqui, interessados. Eles veem os filmes e vem procurar a gente. Um deles me disse: “O primeiro filme que eu vi na minha vida foi lá a Mostra Infantil que vocês fizeram”. Que coisa linda, né?
Se a gente tiver dinheiro, eu adoraria ter uma segunda sala geodésica para passar filmes mais experimentais. Eu também propus pro pessoal fazer uma sessão pôr de sol. A gente poderia montar uma tela, não muito grande, e passar um filme silencioso com música ao vivo. Seriam filmes curtos às 5:30 da tarde, quando o céu está todo tingido pelo sol que acabou de descer. Então o público ficaria ali com umas cervejinha, sentado nas almofadas.
Nunca vimos tanto público aqui assim. Foram 4,5 mil pessoas na sessão de O Agente Secreto. Virou quase um show de rock.
Em termos de público, a mostra também tem crescido, sobretudo na sessão lotadíssima de O Agente Secreto.
Eugênio Puppo: A gente mal acreditava, nunca vimos tanto público aqui assim. Foram 4,5 mil pessoas na sessão de O Agente Secreto. E ao longo do sábado, entre as mostras Panorama, Potiguar, Competitiva e Sessão Especial do Clube, passaram por volta de 7 mil pessoas. Todos os dias foram lotados, sobretudo para O Agente Secreto. Virou quase um show de rock, sabe? Vai ser preciso estudar muito isso desde o começo do ano, porque a gente ficando cada vez mais apertado.

Fico feliz de saber que todo esse público prestigia o cinema brasileiro independente. As sessões lotam para ver Cais, para ver Aqui Não Entra Luz. Não é preciso ter comédias em moldes televisivos para reunir tanta gente assim.
Eugênio Puppo: Até nos mandaram projetos da Globo Filmes, por exemplo, mas nada se encaixou no nosso perfil. Eu também não estou preocupado em ter nenhuma celebridade, se o filme não for bom.
Matheus Sundfeld: A gente sempre selecionou, principalmente para a sala ao ar livre, filmes que estabelecem um diálogo com o público, mas que não sejam necessariamente comédias, ou projetos totalmente comerciais. Então foi se desenhando um perfil para a Mostra. São sempre esses filmes independentes, brasileiros, com pesquisa de linguagem. Um filme como Aqui Não Entra Luz é super acessível.
Eugênio Puppo: Nossa, a gente recebeu tanta mensagem, inclusive dos alunos dos cursos, agradecendo demais por esse filme. As pessoas diziam: “Minha mãe é empregada doméstica, mas eu nunca tinha pensado dessa forma. Nunca tinha visto dessa maneira”. É lindo quando você toca as pessoas. O cinema tem esse poder, e por isso a gente pensa tanto nos filmes selecionados.
Mesmo quando a gente programa Cais e O Agente Secreto no mesmo dia, já tem uma proposta totalmente diferente. E talvez aquelas pessoas atraídas pelo Agente Secreto nunca tivessem visto Cais, que é mais poético. Então se promove um encontro, capaz de despertar essas pessoas para outro tipo de cinematografia.



