Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha (2026)

O nosso amor a gente inventa

título original (ANO)
Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha (2026)
país
Brasil
gênero
Comédia, Drama, Fantasia
duração
92 minutos
direção
Janaína Marques
elenco
Verônica Cavalcanti, Luciana Souza, Fabíola Líper, Christiane de Lavor, Ridson Reis
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

As cenas iniciais não facilitam a tarefa ao espectador. Rosa (Verônica Cavalcanti) acorda sozinha, num local desértico. Como foi parar ali? Isso seria um delírio, um sonho? Uma lembrança? Em seguida, ela inicia uma jornada ao lado de Dalva (Luciana Souza). Quem são as duas? Amigas? Parceiras de crime, posto que a última planeja um assalto para a fuga da dupla? Do que escapam, afinal? Quando se insinua que são mãe e filha, o que justificaria a idade parecida das duas atrizes: sonho, liberdade poética da criação? A filha se projetaria junto à mãe do passado? Inúmeras possibilidades se desenham diante dos nossos olhos.

Aos poucos, a narrativa se esclarece, porém, apenas o suficiente para ainda deixar leituras em aberto. Elas representam, portanto, mãe e filha, embarcando numa travessia imaginária. Quando solicitada a pensar numa lembrança feliz, durante um exame médico, Rosa concebe uma memória fictícia: a escapada junto à mãe com quem não conviveu. Devido à prisão de Dalva, a menina cresceu distante desta figura materna, com quem agora inventa uma rota absurda. Isso explica, inclusive, as liberdades lúdicas e fortuitas da trama — caso do carrinho de hot dog em deslocamento, da dupla vestindo roupa de oncinha ao som de uma música evocando a Tigresa, e do disparo acidental da arma. A trama se desenrola como num brainstorming de infinitas possibilidades.

As duas mulheres fogem da cidade rumo à natureza; da realidade à fantasia; da solidão ao acolhimento; do patriarcado ao matriarcado. Partem rumo a si mesmas.

Para o espectador brasileiro, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha proporciona a oportunidade de presenciar duas grandes atrizes em papéis bem diferentes daqueles aos quais estão acostumadas — ambas preservando seus sotaques distintos. Luciana Souza tem sido associada no cinema nacional às mães sofredoras, papel que sempre desempenhou com ternura e dedicação. Aqui, encarna a mulher extravagante e desbocada. O amor materno continua intacto, ainda que se misture a uma vitalidade e espontaneidade muito bem-vindos por parte da atriz. Já Verônica Cavalcanti, uma das intérpretes mais versáteis em atividade, emprega sua profunda expressividade no olhar a esta mulher-menina, esta esposa-adolescente. Há um misto de seriedade e despojamento neste corpo que se desloca — a atriz não precisa forçar um único sentimento de sua personagem.

Então, a dupla mergulha em alguns registros comuns ao cinema clássico: o buddy movie feminino; as duplas compostas por uma figura extrovertida e outra introvertida; o road movie no qual o carro enfrenta seus problemas na estrada. Duas mulheres que não se conhecem de fato, apesar de serem mãe e filha, aproximam-se quando estão em idade de serem amigas próximas. Assim, Thelma e Louise brasileiras se lançam nesta trajetória sem rumo preciso. Evocam a necessidade de chegar à casa de Consuelo, por motivos inexplicados até a conclusão. No entanto, o endereço serve como desculpa para se colocarem em movimento, deixando para trás uma vida inconveniente.

A inconveniência, no caso, está associada sobretudo aos homens. Estas figuras, restritas a meros encontros passageiros, ou vozes ameaçadoras ao telefone, precisam ser deixadas para trás. O roteiro insinua um breve romance de passagem com o rapaz da pousada, apenas para deixá-lo onde estava. Nesta aventura feminina e queer, as duas personagens encontram afeto e prazer unicamente com outras mulheres: Rosa, com uma caminhoneira descoberta na estrada, e Dalva, com sua esposa da prisão. Elas se entendem num nível que jamais acreditavam possível com homens. Deste modo, fogem da cidade rumo à natureza; da realidade à fantasia; da solidão ao acolhimento; do patriarcado ao matriarcado. Partem rumo a si mesmas.

As subversões concretizadas pela cineasta Janaína Marques se revelam mais gentis do que propriamente afrontosas ao sistema. Nota-se um prazer em agir de maneira infantil, irrefletida, revirando o carro do qual precisam, ou furtando o veículo de quem as ajudou. Esteticamente, as composições permanecem serenas, contemplativas, afeitas ao silêncio. Pode-se falar em um caos calmo: para as duas protagonistas, trata-se de uma deliciosa escapada, embora o mundo ao redor nem mesmo saiba o que se passa no interior de ambas. O universo preserva seu funcionamento, posto que as transformações serão unicamente de ordem interna. Não se espera, então, uma montagem fragmentada em excesso, experimentações com textura de imagem ou qualquer elemento perturbador aos sentidos.

O máximo de estranhamento decorre de brincadeiras pueris, caso da cena de trás para frente, com a bebida voltando à garrafa, e as falas retornando do último ao primeiro segundo do registro sonoro. Ou então, na sequência do foguete, que justifica o título. Cada espectador traçará seu limite de onde a traquinagem se torna apenas frívola, ao invés de enriquecedora à narrativa. No entanto, Marques e sua extensa equipe de roteiristas (Xenia Rivery, Pablo Arellano, Taís Monteiro, Pedro Cândido) preferem injetar numa existência adulta esvaziada e morosa um pouco da liberdade da infância. Não se encontra violência, sexo, drogas, nem mesmo a necessidade de chocar. Algo bastante comportado se instaura nesta viagem pretensamente rebelde — resta saber se plenamente calculado pelos criadores, ou talvez diminuído pelo intuito de tornar a obra acessível e universal.

Aos poucos, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha fornece indícios claros até demais de como gostaria de ser lido. Ao ligarem o rádio do carro, as personagens escutam descrições a respeito da natureza dos fantasmas. Parece que, neste momento, a autora estima necessário afunilar as interpretações. Ela termina por oferecer uma experiência leve, um feel good movie na estrada, como poucas vezes se encontra no cinema brasileiro. O recurso à magia jamais denuncia desigualdades nem reivindica reparações, apenas fornece uma espécie de alívio psíquico à mulher estafada, e angustiada pelos resultados médicos. Trata-se de uma obra arejada, fluida, orgânica — e não é nada fácil construir uma arquitetura da simplicidade.

Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha (2026)
7
Nota 7/10

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