
Num vilarejo da Turquia, a crise se anuncia no horizonte. O povo Hazeran começa a escutar boatos de que os Bazeri planejam retomar o controle da região. Segundo os documentos, as terras pertenceriam a estes últimos, no entanto, os protagonistas insistem que gerações de ocupação, e litros de sangue derramados neste local, lhes conferem direito de permanecer ali. Afirma-se, então, que pode haver uma briga. As primeiras ameaças são lançadas. A polícia interfere. O sheik não consegue conter a indignação.
Parte do sentimento de raiva em relação ao outro decorre de rumores. Diz-se que, entre os inimigos, já mataram uma criança na comunidade logo ao lado. Corre a informação de que estupram mulheres, e até os cadáveres das mulheres. Alguém ouviu dizer que fazem orgias, forçando as moradoras a práticas obscenas impensáveis… Cria-se, dia após dia, um senso de desumanização. O outro é impuro, selvagem, perigoso, nocivo. O simples contato com ele implicaria na perda de nossos valores, e de tudo o que consideramos sagrado. Por isso, precisa ser exterminado em nome do bem de todos. “Não deixem um único Bazeri vivo!”, dispara uma das lideranças masculinas.
Salvation consiste num estudo a respeito da origem das guerras. O que leva um grupo a odiar o próximo e se voltar contra ele? A resposta não é simples, nem imediata. Por isso, o cuidadoso roteiro do cineasta Emin Alper trabalha a escalada das ações e do sentimento de rivalidade. Destaca o conflito de terras, mas não apenas isso. Coloca a religião em papel de importância, ainda que não possa ser considerada a única responsável. Estuda, em particular, a criação da imagem da diferença enquanto algo perigosíssimo. Tudo o que não é igual a mim me ameaça e, para minha própria sobrevivência, deve ser eliminado. Para acabar de vez com as guerras na região, os clãs iniciam uma última guerra, na perspectiva contraditória de implementar uma chacina em nome da paz.
É incômodo observar o surgimento de um genocídio pela ótica dos genocidas. O diretor faz desta experiência uma forma de catarse coletiva.
É fundamental ao longa-metragem que a maioria destas violências jamais seja filmada, seja para não espetacularizar o conflito, seja para deixar claro que o problema central reside em certo imaginário coletivo. O texto, bastante verborrágico, condensa uma série de encontros a dois, em grupo ou no local de reza, onde são compartilhados fatos, ideias e especulações — e quem consegue perceber a diferença entre eles? As mulheres conversam entre si, os homens cochicham pelas vielas, os sheiks e seus aliados lançam novas hipóteses durante a noite. Os Bezari devem estar chegando. Podem nos atacar a qualquer instante. Podem levar nossas mulheres e roubar nossas casas. O medo e a paranoia crescentes constituem o principal motivo para a organização de uma vingança.
Alper utiliza um arsenal estético pesado para converter este xadrez num suspense de altíssima tensão. Além da trilha sonora de suspense, filma o vilarejo montanhoso como um labirinto a céu aberto. São frequentes as andanças e fugas por corredores, entre paredes idênticas de pedras, além dos vultos atravessando as escadarias que dão acesso às casas. O cineasta empresta do cinema de terror a imagem de fantasmas, sombras e pessoas voadoras que atacam durante a noite. Descobrimos que muitos destes instantes correspondem a pesadelos dos homens poderosos, no entanto, diversas cenas se provam acontecimentos fatuais. Conforme a narrativa se desenvolve, a linha entre o real e o ilusório se desfaz.
Estas perseguições são elaboradas com profundo senso de rigor, além de notável prazer na elaboração dos planos. O autor turco sempre foi um esteta, e utiliza a paisagem singular a seu favor. Ele e os diretores de fotografia Ahmet Sesigürgil e Barış Aygen sabem exatamente quando recorrer aos planos próximos, e quando deixar estas pessoas minúsculas em meio às planícies infinitas. Valorizam tanto a geografia quanto as expressões do elenco, em composições marcadas por excepcional trabalho de iluminação, movimentos de câmera e desenho sonoro. O esmero é tão grande que beira o excessivo — diversos planos em contraluz soam posados, caso dos Hazeran admirando os adversários do alto de uma colina, ou da reunião noturna de habitantes, cada um parado em partes exatas do plano, de modo a não cobrir o rosto do outro. Há um senso de pose, uma busca perpétua pela elegância, que talvez deponha contra o aspecto mais sujo e bruto de uma guerra.
Mesmo assim, Salvation consegue, de maneira bastante eficaz, desenhar um complexo jogo de golpes e contragolpes pelo domínio da região. O texto inclui o duelo fratricida motivado por diferentes interesses (a conciliação versus o ímpeto belicista), a mulher com trânsito raro entre os grupos inimigos, o agricultor cujo assassinato desperta a onda de retaliações, e mesmo a criança-oráculo que, durante a madrugada, transmite ensinamentos vindos de uma origem sobrenatural — ou seria tudo um sonho? O filme prepara o espectador para um conflito anunciado desde a primeira cena (com os cadáveres arrastados para a caçamba do carro), e que se materializa num clímax cruel.


É interessante que o olhar fique junto àqueles que cometem os crimes atrozes, e com os quais passamos os últimos 90 minutos. Ao invés de uma dinâmica simplória de algozes e vítimas, somos levados primeiro a simpatizar com este povoado, até entender suas contradições, sua escalada rumo à radicalização, e a decisão de partir para um ato cruel. Testemunhamos a desumanização progressiva, compreendendo os motivos e as sofisticadas ferramentas de retórica que permitem sua implementação. Isso nunca significa desculpar os heróis por seus gestos, somente analisar quais argumentos os levam a tamanha barbárie.
Afinal, os líderes de guerras mundo afora não são apenas pessoas ruins, numa redução infantil de sua complexidade, mas sujeitos conduzidos à dada prática. Não por acaso, a conexão com conflitos armados contemporâneos é evidente — Alper insiste em colocar, entre as vítimas, peças de vestuário que lembram os lenços palestinos. A escalada dos conflitos Israel-Palestina serve como óbvia referência a esta alegoria acerca do crescimento do ódio. Mas outros embates seriam igualmente pertinentes, caso de Rússia-Ucrânia, e inúmeros conflitos civis em países africanos. É incômodo — e bastante potente — observar o surgimento de um genocídio pela ótica dos genocidas. No entanto, o diretor faz desta experiência uma forma de catarse coletiva, um expurgo aos nossos tempos de falta de empatia pelo próximo.




