
É difícil analisar um filme como A New Dawn. Para o público ocidental de pouca familiaridade com códigos japoneses, e cuja formação audiovisual veio do cinema americano e europeu, a animação soa profundamente hermética. Isso porque existe uma forma totalmente distinta de apresentar personagens, introduzir conflitos, construir uma cena ou explorar as noções de espaço e de tempo. Deste lado do globo, nosso olhar é tão treinado para certa configuração narrativa (mesmo experimental, ou fragmentada) que o projeto escrito e dirigido por Yoshitoshi Shinomiya proporciona uma considerável perturbação nos sentidos.
A priori, de acordo com a sinopse oficial, o longa-metragem parte de uma fábrica de fogos de artifício prestes a fechar as portas. O prédio deve ser demolido, visando a passagem de uma estrada pelo terreno. Neste empreendimento, havia anteriormente um verdadeiro artista dos fogos, movido por um projeto jamais concretizado de atingir o Shuhari — um fenômeno natural que conectaria o efeito dos dispositivos explosivos ao universo. Assim, num salto de quatro anos, adolescentes tornados jovens adultos precisam materializar o sonho do sujeito desaparecido, recriando a ilusão de um festival de fogos de artifício.
Assiste-se à narrativa como quem escuta uma mensagem de áudio em velocidade 1,5x — parece que compreendemos o discurso em linhas gerais, ainda que as partes internas se embaralhem.
Se esta descrição parece um tanto confusa, ela nem chega perto da dinâmica instaurada pela própria obra. De fato, os elementos fatuais estão presentes (a fábrica, o mapa da máquina secreta, fogos e festivais de fogos). Entretanto, eles parecem se atropelar via montagem, ao invés de se encaminharem a uma ação consequente. Aqui, as cenas se iniciam em pleno desenvolvimento da ação, antes de uma explicação de quem são os personagens em cena, de onde vêm e o que pretendem. Ao mesmo tempo, as sequências se encerram antes de chegarem a um propósito claro, como se fossem encerradas prematuramente pela montagem. Enquanto tentamos decifrar o sentido do que estamos enxergando, as imagens desaparecem.
A duração extremamente sucinta (apenas 76 minutos) deixa a impressão de que os acontecimentos foram acelerados, ou passagens fundamentais foram suprimidas. Resta uma pressa injustificável para colocar os protagonistas em movimento. Antes mesmo de se compreender o grau de relacionamento entre o trio central, eles são vistos saltando no telhado, rolando do alto da casa, impedindo a chegada de visitantes da fábrica, ou dizendo alguma frase inapropriada no trabalho. Os planos bolados pelos três são descobertos pelo espectador em pleno andamento, dificultando consideravelmente a tarefa de simplesmente determinar quem faz o quê, quando, e com quais objetivos. Movem-se, agitam-se, falam alto, correm com a urgência de um thriller de ação. Mas para onde vão estas figuras frenéticas?
Eventualmente, A New Dawn estrutura alguns pensamentos abruptos de ordem existencial. “Tudo chega a um fim. A questão é quando terminar”, conjecturam, embora lutem contra o fechamento da empresa. “Mesmo sem laços de sangue, nós sempre seremos família”, dispara outro. Ora, nós jamais havíamos pressentido que esta questão constituísse um dilema particular para nenhum dos personagens envolvidos, posto que a psicologia está ausente. A sugestão de romance e de honrar ao pai também aparecem, esporadicamente, para desaparecerem a seguir. Assiste-se à narrativa como quem escuta uma mensagem de áudio em velocidade 1,5x — parece que compreendemos o discurso em linhas gerais, ainda que as partes internas se embaralhem.
Para contribuir à confusão, por volta do centro da jornada, Shinomiya troca a animação 2D e tradicional pelo stop motion, incluindo maquetes caseiras e uma mão humana interferindo nos objetos. Isso provoca uma intensa ruptura na experiência, ainda que, um minuto depois, a linguagem seja abandonada sem deixar traços no restante do filme. Por que o autor escolheu a intromissão momentânea deste estilo tão demarcado? O que motiva o autor a empregar alguns cenários fotorrealistas esporádicos em meio ao cenário fabular, ou a repetir cenas idênticas (a dança-transe da garota)? Mistério. Uma parte do incômodo ao espectador decorre da sensação de aleatoriedade das propostas estéticas e narrativas. Algo nesta narrativa pop, entrecortada e dividida em capítulos (que tampouco contribuem à coesão da história) aparenta se orquestrar em detrimento do espectador.


A determinado momento, o Shuhari enfim se concretiza. Talvez todo o quiproquó de fábricas, mapas e festivais servisse de pretexto para a viabilização da fantasia antecipada desde os minutos iniciais. Uma vez que o espetáculo de gigantescos fogos de artifício se concretiza, a fissura no espaço-tempo e a conexão com as galáxias promovem um belo espetáculo visual, ainda que puramente retórico — o desbunde pelo desbunde. Afinal, como compreender este fenômeno: a dança das luzes instaura uma ruptura definitiva na ordem das coisas, ou constitui mera ilusão? A aparência de uma bomba atômica deve ser temida, ou comemorada enquanto ressignificação lúdica e multicolorida da explosão? Sobretudo, o ocorrido possui consequências profundas para o resto do mundo, ou nenhuma consequência?
A lista de perguntas poderia continuar indefinidamente. A New Dawn não deve ser tomado por um destes projetos-enigmas, ocultando informações preciosas que pretende elucidar ao espectador no final — isto não é uma traquinagem à la M. Night Shyamalan ou Ryan Johnson. Nunca somos convidados a pressupor os próximos passos, nem a lançar hipóteses. A sensação diante do filme japonês é aquela de encontrar, por acaso, o projeto secreto de um físico nuclear (pressupondo que nossos conhecimentos no tópico sejam nulos). Folheamos as páginas, ficamos impressionados com os gráficos e com a aparência de complexidade daquele emaranhado todo. No entanto, não foi construído para nós, e não nos diz respeito. Fechamos o diário, deixamos o objeto onde o encontramos, e seguimos nossas vidas como se nada tivesse acontecido.




