
Pobre Natalie (Alicia Sanz). Ela perdeu o marido há pouco tempo, e ainda sofre com o período de luto. Além disso, é desprezada pela própria família, como se descobre na cena inicial. Chegando ao nono mês de gravidez, esta corretora imobiliária em crise financeira aceita a tarefa ingrata de vender uma mansão onde os proprietários foram assassinados. No local, nenhum comprador aparece. Subitamente, as luzes do imóvel se apagam. A porta emperra. O elevador quebra. O carro quebra. Ela não consegue se comunicar com ninguém para pedir ajuda (estamos numa época pré-celulares). Um homem estranho começa a persegui-la.
O cenário é cuidadosamente pensado para aumentar as dificuldades (e, consequentemente, a tensão), garantindo que a mulher seja perseguida durante 90 minutos. Caso o invasor o desejasse, ele poderia facilmente atacar a sua vítima, que se encontra sozinha numa casa isolada. Ela inclusive abre a porta para ele. No entanto, a figura silenciosa prefere o terrorismo, batendo à porta e correndo em seguida (tal qual uma criança), ou abrindo torneiras e ligando caixinhas de música e vitrolas à distância (sabe-se lá como). Ele possui força e poderes sobrenaturais, conforme se atestará no terço final. Mesmo assim, brinca com sua presa e posterga o ataque pelo prazer de fazê-lo. O filme o acompanha nesta diversão.
Push: No Limite do Medo parte da premissa da fragilidade feminina. Essa mulher pode ser admirada, contanto que sofra muitíssimo antes.
Assim, Push: No Limite do Medo (ignore-se o subtítulo genérico) parte da premissa da fragilidade feminina. Natalie possui todos os revezes possíveis: o sofrimento psíquico, a baixa autoestima, além da gravidez avançada, típico sinônimo de fraqueza nas narrativas comandadas por homens — que assinam, neste caso, a direção, roteiro, direção de fotografia, edição e direção de arte. Como se não bastasse a agressão gratuita e repentina do adversário (“Eu vou arrancar este bebê da sua barriga com uma faca!”, ele dispara), ela precisa lidar com o trabalho de parto, iniciado, convenientemente, durante o ataque. Experimente você se livrar de um homem grande, agressivo, enquanto tem contrações e dá à luz a um bebê. Para os diretores David Charbonier e Justin Douglas Powell, esta ideia soa deliciosa.
Entretanto, para provar a força feminina e o instinto guerreiro de uma mãe em defesa de sua prole, basta torturá-la durante a integralidade da trama. A heroína é humilhada, perseguida, agredida. Ela espreme a barriga de 9 meses numa viga metálica, cai da janela do segundo andar, pisa em cacos de vidro, rompe barras de ferro com as mãos, além de outros empecilhos no caminho. Caso resista à lógica do escape room, será considerada impressionante e digna de felicidade — até o próximo ataque, na sequência, tal qual ocorre a todas as final girls. Essa mulher pode ser admirada, contanto que sofra muitíssimo antes. Pode finalizar o processo do luto e acreditar em si mesma, à condição de vencer um brutamontes na luta corporal. A batalha não parece muito justa.
Em defesa de Push, pelo menos o roteiro não a trata como indefesa ou chorosa, a exemplo de tantas produções semelhantes. Diante do perigo, a protagonista se arma e parte para o ataque. Ela possui estratégias de fuga inteligentes, e nunca se desespera, nem grita. Trata-se de uma personagem racional e ponderada — característica normalmente reservada aos homens, em oposição às figuras femininas emotivas, dominadas pelos hormônios. Alicia Sanz também a interpreta com sobriedade, evitando idealizações: Natalie não seria a melhor mãe do mundo, nem a pior. Não possui qualquer habilidade excepcional de combate. Encarna uma mulher comum, no sentido mais universal do termo.
É uma pena que a personagem digna de interesse se depare com todos os clichês possíveis dos subgêneros da invasão domiciliar, das mansões mal-assombradas e da psicopatia. Os efeitos sonoros altíssimos proporcionam sustos baratos e descontextualizados — o voo de corvos pela janela surge com a potência de foguetes rasgando o céu. Sempre há um vulto no fundo do corredor, lâmpadas piscando repentinamente, além da arma no chão, que a mulher combatente quase consegue alcançar. O morto há de se levantar e continuar a perseguição, por mais evidentemente morto que estivesse. Mesmo a semiótica se mostra precária: a mãe gentil porta um vestido branco, de pureza e bondade, enquanto o vilão representa uma figura preta na escuridão. Em pleno 2026, o terror ainda estima ser necessário recorrer a truques tão baratos para gerar medo?
Os diretores trazem algumas iniciativas valiosas, é claro. Inicialmente, Natalie percorre o casarão num plano-sequência que detalha ao espectador a geografia do local, insinuando que o conhecimento dos incontáveis cômodos e salões será relevante a seguir. (Mas não é o caso). A direção de fotografia de Daniel Katz evita ao máximo revelar o rosto do agressor, sugerindo que o espectador poderia descobrir algo acerca de sua motivação pela simples aparência (Isso tampouco acontece). Em especial, na segunda metade da jornada, o ponto de vista subitamente muda, passando a acompanhar o adversário anônimo. Paira a impressão de que Natalie se tornará a perseguidora de seu perseguidor. (Nova pista falsa).


Em outras palavras, havia elementos cinematográficos suficientes para brincar com a perspectiva, o ponto de vista, a alternância de poder neste pretenso jogo de gato e rato num casarão vazio. Ora, Push prefere se ater aos imaginários inverossímeis da feminilidade: a corretora ainda sofre com enjoos aos 9 meses de gravidez; ela tem contrações junto ao rompimento da bolsa; e nunca precisa expelir a placenta. O corpo feminino é estranho, grotesco e imprevisível, de acordo com este olhar masculino pouco interessado, de fato, nos conflitos psíquicos de uma mulher em tal situação. O problema do projeto ainda consiste em se filiar, essencialmente, ao olhar do perseguidor masculino, deleitando-se em abusar reiteradas vezes do corpo de sua vítima. Nós, espectadores, somos convidados a desfrutar do mesmo show.
PS: É uma pena que o filme tenha sido apresentado à imprensa nas piores condições possíveis. Os distribuidores tiveram a ideia lúdica de apresentar o filme no Castelinho da Rua Apa, em São Paulo, aproveitando o imaginário dos assassinatos cometidos no local. Entretanto, a sala ao ar livre não estava nada preparada para uma boa projeção. (Projeções ao ar livre podem ser excelentes em termos técnicos, conforme atestam a Mosta de Gostoso e o FestAruanda). Ora, o filme foi exibido num projetor simples, muito distante da qualidade do DCP. Com tanta luz ao redor, a tela claríssima dificultava enxergar as cenas majoritariamente escuras da trama. Em consequência, o trabalho de fotografia, de direção de arte e mesmo de atuação se perdia no borrão cinzento da tela. As buzinas e demais ruídos da avenida prejudicavam o som, sem falar num pobre cão preso logo abaixo da tela, ganindo e pedindo para sair. Obviamente, a prioridade deveria ser a melhor qualidade de som e imagem ao público, valorizando o trabalho dos criadores e também a disponibilidade do espectador. O filme não pode se tornar secundário em relação à experiência de um local atípico.




