
O protagonista deste drama se encontra num período de instabilidade pessoal e profissional. Por um lado, o Presidente (Toni Servillo) é o homem mais poderoso da Itália, cercado de responsabilidades e direitos bastante amplos, conforme atestam os letreiros iniciais, relembrando a constituição do país. Por outro lado, ele se encontra nos meses finais do mandato, e não tentará a reeleição. Está, oficialmente, se aposentando da vida política. Foi conhecido como um líder bastante correto, em termos jurídicos, mas também de pouca coragem ou iniciativa. Em outras palavras, um burocrata inflexível, nada inspirador, apelidado pelos colaboradores de Concreto Armado.
Portanto, ele poderia escolher uma retirada discreta, como se espera de um indivíduo de personalidade tão morna. Ou, em contrapartida, tem a possibilidade de tomar as decisões mais radicais de seu mandato, provando sua capacidade de marcar os espíritos da época. Um caso, em particular, representa tais contradições: o projeto de lei a respeito da eutanásia. Nem a favor, nem contra, este presidente centrista prefere a opção que lhe soar menos danosa. Sua filha, também jurista e conselheira, pressiona pela aprovação. O Papa, grande amigo, obviamente o desaconselha, empregando toda a retórica azeitada e ardilosa de um experiente religioso. Qualquer decisão irritará algum lado, e o homem introvertido não parece disposto a irritar ninguém.
A paixão de Sorrentino pela forma se equilibra de maneira satisfatória com o conteúdo. É muito interessante que o diretor escolha um lado intimista da política.
É muito interessante que o diretor e roteirista Paolo Sorrentino escolha um lado intimista da política. O povo está ausente, assim como a mídia, as reuniões de gabinete e os discursos. A decisão a respeito de temas tão controversos cabe unicamente à consciência do político solitário, perambulando em seu palácio imenso. Ocasionalmente, um conselheiro ou secretário vem visitá-lo. No entanto, ele jamais vai de encontro a eventos oficiais — no máximo, uma apresentação artística onde não precisa se pronunciar. O cineasta imagina este contexto quase fabular, no qual as decisões políticas dizem respeito unicamente à moral do indivíduo eleito, ao invés de um complexo jogo de forças.
Por isso, cerca-o de uma infinidade de símbolos, capazes de pressioná-lo por uma decisão. É conveniente até demais que o sujeito batalhando com o tema da eutanásia precise determinar se um cavalo ferido será abatido ou não. Adiante, ele é cobrado para conceder um indulto ao sujeito que tirou a vida da própria esposa doente e, agora, em greve de fome, está “se deixando morrer”. Estes temas o perseguem, como se, na falta de iniciativa dele, os problemas invadissem a rotina doméstica. A questão do perdão, ou da graça, indicada no título, tornam-se centrais. Ele perdoaria a segunda requente de indulto — uma mulher que matou o marido agressor, e não se arrepende do gesto? Perdoaria o melhor amigo, um político ambicioso que planeja substitui-lo no cargo?
Entretanto, o maior perdão diz respeito à esposa falecida. Quarenta anos atrás, sua amada o traiu, sem revelar com quem. O presidente nunca se esqueceu deste caso, tornando-se paranoico em busca do algoz invisível. Como seguir adiante, se questiona o afeto da pessoa que mais amou no mundo? O personagem divide-se portanto entre uma tendência racional-liberal (perdoar as minorias, manifestar empatia por aquele que sofre) e outra, punitivista e conservadora (a vingança simbólica contra mulheres assassinas ou infiéis). A simbologia empregada para o conflito entre modernidade e tradição reside na música. O indivíduo calmo, acostumado às composições clássicas, se depara com as canções pop criadas pelo filho, além do rap produzido por jovens artistas italianos, e da música eletrônica que o acompanha na trilha sonora.
De certo modo, A Graça transparece um roteiro fechado, sólido, eficaz. Aqui, todas as pontas se amarram, todos os conflitos são resolvidos, e cada símbolo se ressignifica ao longo do percurso — a amizade com o couraceiro, a reportagem à revista de moda, o questionamento “De quem são os nossos dias?”, o astronauta flutuando em sua cápsula espacial. Temas musicais retornam, questionamentos acerca da liberdade de pessoas idosas se completam no final. Sorrentino não abre uma única gaveta que não esteja disposto a fechar até o término da narrativa. Este roteiro racional, calculado e preciso pode ser tão digno de admiração quanto de estranhamento, devido à recusa em deixar qualquer aspereza ou acaso contaminar o ambiente hermeticamente isolado.
Este procedimento sintetiza, de certo modo, o cinema do italiano na sua totalidade. Sorrentino já se dedicou a iniciativas mais vaidosas, marcadas por uma fotografia estetizante, voltada às pessoas belas em locais belos. Isso lhe valeu a pecha de artista publicitário, mais preocupado com a plasticidade dos enquadramentos impecáveis, e com a luz sempre perfeita, do que com o humanismo de suas tramas. Parte desse ímpeto pelo controle ainda está presente nesta obra, conforme se atesta na longuíssima caminhada do presidente de Portugal sob a chuva, em câmera lenta, ou nas conversas do protagonista sobre uma ponte, filmada à distância, em simetria milimetricamente calculada.
Entretanto, estas são exceções dentro de uma obra um pouco mais despojada (para os padrões do autor, é claro), permitindo certo respiro, e notável carinho pelos personagens. O presidente o interessa, desta vez, mais como ser humano movido por dúvidas e contradições do que um corpo destinado a rechear enquadramentos deslumbrantes. Toni Servillo encarna muitíssimo bem este homem, evitando qualquer gesto excessivo ou expressão redundante. O trabalho contido e repleto de nuances casa com este longa-metragem menos ostensivo — ou seja, menos preocupado em agradar e, por isso mesmo, muito mais comovente. Pela primeira vez, tamanha paixão pela forma se equilibra de maneira satisfatória com o conteúdo.


Isso resulta numa jornada silenciosa em seus movimentos internos — não há grandes reviravoltas, pontos de impacto ou de choque ao espectador. Os dilemas serão os mesmos, da primeira à última cena: a solidão do sujeito poderoso, mas que aparenta não ter poder nenhum; admirado e ridicularizado em igual medida; dotado de dinheiro, palácio e assistentes, embora sem amizades reais. Encontra, igualmente, uma saída satisfatória a um embate nada evidente, criado por si próprio. Enquanto o homem deprime em sua jaula luxuosa, a música eletrônica vem para perturbá-lo, impulsioná-lo ao movimento. Aqui, forma e conteúdo representam muito bem as contradições internas deste sujeito, e também a solidão dos poderosos, afastados dos demais cidadãos por seu patamar distinto, e incapazes de confiar em quem quer que seja.
A presidência se torna um local tão triste que acompanhamos, com certo alívio, o processo de afastamento e aposentadoria do homem que deseja, unicamente, voltar para sua casa, pedir uma pizza, e cheirar as roupas da mulher, ainda dispostas pelos cômodos. Em meio ao tumultuado cenário geopolítico contemporâneo, repleto de fervores ideológicos, guerras, chantagens e manipulações, esta visão crepuscular dos governos pode ser vista como sonhadora, inocente. Talvez, em contrapartida, constitua um alento na crença de que a política ainda possa representar um duelo de ideias, de pontos de vista, de crenças, em nome de um bem maior. Não há respostas para o impasse do herói. Mesmo assim, Sorrentino sabe formular as perguntas corretas.




