
“Mas de resto deixe-me dizer-lhe que sou
o agrimensor que o conde mandou chamar.
Meus ajudantes chegam amanhã na carruagem
com os aparelhos”. (O Castelo, Franz Kafka).
Sérgio (Sérgio Coragem) ainda não conhece a África. Contratado para avaliar o impacto ambiental do projeto de uma estrada na Guiné-Bissau, ele viaja ao país de carro, desde Portugal. Desfruta das paisagens, mas também enfrenta as dificuldades esperadas de uma trajetória desta extensão. Chega atrasado, cansado, sem saber ao certo onde dormir, ou a quem se reportar. Paira um senso de absurdo nesta introdução ao continente, reforçando sua condição de estrangeiro. Talvez a principal característica do protagonista seja o não-pertencimento àquele lugar, além de seu desconhecimento das regras e da cultura local.
Neste sentido, ele representa o olhar do outro — aquele do diretor europeu, Pedro Pinho, mas também do espectador presumido não-africano. O Riso e a Faca parte do risco evidente de soar despropositado, na condição de um enésimo olhar à África por parte de artistas europeus brancos. Parte considerável das críticas ao resultado deriva precisamente desta condição extrafílmica — uma espécie de pecado original. Até por isso, os criadores fazem da ignorância um tema central. Assumem sua pouca familiaridade com as cidades, e jamais buscam transmitir uma verdade a respeito do território alheio. O herói nunca mergulha na noite deste país misterioso como quem tem algo a oferecer. Pelo contrário, o sujeito carente implora que o aceitem nas suas reuniões de trabalho, nas suas festas e nas suas camas.
Entre o cinema antropológico e o discurso ativista, entre o filme de personagens e o cinema de fluxo, O Riso e a Faca condensa inúmeras vontades e estilos.
Logo, o português encontra Diára (Cleo Diára), mulher que sabe muito bem sobreviver e se divertir, entre furtos na feira e a gestão de um bar prestes a fechar as portas. Ele trava contato com Guilherme (Jonathan Guilherme), brasileiro queer que se mudou para a Guiné-Bissau em busca de suas raízes negras — apenas para perceber que, no país africano, ainda é considerado branco pelos amigos. O protagonista se confronta a um sistema masculino e opressor nas grandes corporações, que transparecem interesses escusos na construção da rodovia. Percebe, assim, uma série de ameaças por trás da aparência festiva dos encontros. Existe uma óbvia violência paralela à impressão de normalidade.
Em termos de estrutura, o projeto corresponde àquilo que os franceses chamariam de filme-rio: uma obra extensa, que não se constrói em torno de uma finalidade particular (ou seja, não elabora a história para chegar a um clímax e veicular uma mensagem específica). Sinuoso, o percurso serpenteia por entre o convívio diário e amistoso com os amigos, os instantes de apreensão face aos homens de poder, e os fragmentos documentais de interações com moradores reais das planícies alagadas. Rodeado por estímulos, Sérgio se converte num protagonista-ouvinte, alguém cuja principal função reside na abertura ao meio.
Por isso, grande importância é atribuída ao ato de fazer real: o protagonista conversa com pessoas verídicas; envolve-se em cenas de sexo próximas do explícito; mergulha de fato os pés na lama da construção. Trata-se de um cinema com óbvia abertura ao acaso, disposto a absorver aquilo que as circunstâncias possam oferecer à câmera e aos atores. Caberá à narrativa, fluida e generosa, incorporar os acontecimentos circundantes. Em consequência, encontra-se uma trama tão roteirizada quanto porosa, muito mais afeita às vivências do dia à dia do que ao desfecho do viajante (sobre a eventual aprovação da estrada, e o retorno do europeu ao seu país). Neste sentido, assemelha-se a um road movie.
Diante desta pluralidade de temas, O Riso e a Faca se tinge de comédia, de suspense, de obra queer, de narrativa crítica decolonial. Chega a discutir o colonialismo de maneira frontal até demais, além de sublinhar as questões raciais provocadas pela presença do homem branco no país de maioria negra. Guilherme, em especial, confronta o recém-chegado à sua condição privilegiada, algo que lhe soa estranho, inverossímil. Quando os dilemas não se materializam em rusgas voluntariamente descontextualizadas (o rapaz que deseja matar Sérgio durante a festa da empresa; o assediador na casa noturna), eles desembocam nos diálogos de bar. É engraçado testemunhar dois estrangeiros, um brasileiro e outro português, brigando a respeito da legitimidade naquele espaço, dado o histórico de racismo e desigualdade dos grupos sociais que representam.
Entretanto, o longa-metragem jamais permite que tais conversas monopolizem as atenções. Elas atravessam o percurso do engenheiro agrônomo assim como as festas, os almoços, as medições de terrenos. A obra incomodaria — assim como apontaram outras críticas — caso, de fato, dependesse destas acusações verbais para expor suas relações nacionais, raciais e de classe. Entretanto, estes recursos esporádicos se equilibram com tantos outros, nos quais as agressões se fazem mais sutis (o suborno do empresário negro). Há espaço para tantas manifestações neste filme, que as diferentes ferramentas se combinam: o naturalismo convive com algumas interações artificiais; os embates roteirizados se sobrepõem aos espontâneos; a magia do cotidiano se alterna com a necessidade de embutir, nos conflitos, os paradoxos da condição estrangeira.


Ao mesmo tempo, o projeto estético faz prova de um domínio discreto. O trabalho de câmera e som nunca soa perdido face ao caos das ruas e dos encontros numerosos, mantendo o foco bem estruturado nos personagens e falas que lhe interessam. Pedro Pinho e o diretor de fotografia Eduardo Nasser iniciam esta epopeia com belíssimos planos do carro na estrada, em meio à areia e à terra, em scope. Adiante, captam a contagiante vivacidade de Cleo Diára e Jonathan Guilherme. Alternam organicamente entre os rostos e os espaços, entre os corpos e os coletivos. Acima de tudo, observam estas pessoas longe do filtro do exotismo admirador, muito menos, propenso a julgamentos morais. O ponto de vista se filia àquele de Sérgio, calado e disposto a escutar o que tenham a lhe dizer.
Entre o cinema antropológico e o discurso ativista, entre o filme de personagens e o cinema de fluxo, O Riso e a Faca condensa inúmeras vontades e estilos. Esta pode ser considerada a sua força, ou a sua fraqueza — uma vontade de abraçar a geopolítica do mundo e dos afetos. Muito se disse acerca desta obra — que poderia ser menor e mais enxuta, ou, pelo contrário, mais extensa, em formato seriado, destrinchando cada um de seus dilemas internos. (Um filme entre territórios e estilos, assim como Sérgio se encontra entre países e realidades). Ora, optou-se por esta permeabilidade de gêneros e estilos, repleto de personagens contraditórios. Há muito a olhar e sentir, e pouco a aprender diante deste filme, no sentido estrito de uma narrativa munida de mensagem a transmitir. Os criadores nos dão a sentir um recorte daquele país, num passo anterior ao ensinamento. Presume que nós, a exemplo de Sérgio, ainda não conhecemos a África. Por isso, o melhor a fazer seria nos calar e contemplar um mosaico de suas relações interpessoais.




