
Entre as várias histórias paralelas de Sexo e Destino, existe a trama de Cláudio (Antônio Fragoso), sujeito que estupra a filha adulta em duas oportunidades. Ele já havia estuprado a empregada doméstica anteriormente. O filme claramente condena esta atitude, porém, busca justificativas espirituais para tais atos. Em primeiro lugar, o personagem teria sido obsediado por um espírito maligno (Rafael Cardoso), que o convenceu a abusar da jovem. Em segundo lugar, sugere que qualquer um pode cair em tentação e agir de maneira errada — bastando, em seguida, se corrigir. Cláudio começa a ler a doutrina espírita e, na cena seguinte, se torna o melhor homem do mundo. Quanto maior a queda, maior a redenção, correto?
A vítima deste abuso será esquecida pela trama. Em se tratando de um filme espírita, a morte poderia facilmente implicar na continuidade de uma personagem. Ora, a pobre será realmente descartada. Uma vez agredida, não teria mais utilidade à trama. Nem mesmo a tragédia despertará qualquer dor ou saudade de Marita (Carol Macedo) por parte das pessoas ao redor. Isso porque o foco reside, claramente, na superação daqueles que infringem as regras morais. No hospital, uma página bem particular do livro religioso está aberta à câmera: “Caridade para com os criminosos”. Este é o foco do diretor Márcio Trigo, a partir de uma narrativa submetida a uma “consultoria de roteiro — doutrina espírita”, segundo os letreiros iniciais.
Esta não é a única agressão retratada no longa-metragem, cujo “sexo” do título implica, quase exclusivamente, em infidelidade, culpa, fraqueza, vício, violência. A irmã de Marita, chamada Marina (Letícia Augustin), também é assediada pelo chefe. Sugere-se, neste caso, que a culpa recai sobre a própria jovem: “Eu fui fraca”, ela lamenta duas vezes, enquanto se relaciona com o filho de seu agressor. Rumo ao final da vida, retorna a importância dos familiares de Nemésio (Tato Gabus Mendes) em perdoá-lo, porque cedeu a impulsos negativos. Jamais se envolve detenção, corpo de delito, julgamento ou qualquer forma de criminalização dos agressores para além de suas próprias consciências. (Embora algemado no final, Nemésio ressurge livre em sua cama. Aparentemente, não foi indiciado, nem culpabilizado).
É curioso como a régua se mostra tão benevolente com os estupradores, mas bastante feroz com as vítimas.
Segundo este discurso, feminicídios e crimes contra a mulher dizem respeito à esfera pessoal — às boas e más índoles; aos espíritos escuros e àqueles de vestes brancas, que o ensinam o caminho do bem. De resto, o sexo (apenas sugerido, jamais mostrado em imagens) pertence ao domínio de esposas traidoras e mulheres interesseiras, por um lado, e aos pobres garotos apaixonados, e maridos desiludidos, de outro. É curioso como a régua se mostra tão benevolente com os estupradores, mas bastante feroz com as vítimas. A verdadeira vilã desta narrativa, afinal, será uma mulher madura, que se relaciona com os parceiros por prazer e ganho financeiro. O marido e o amante dela, por sua vez, devem e podem ser perdoados assim que começarem a estudar Allan Kardec.
É curioso encontrar, em 2026, um projeto tão abertamente antifeminista. Os criadores têm o direito de ser conservadores e patriarcais, porém, mesmo outras obras religiosas recentes (caso de O Advogado de Deus) tentam atenuar a mensagem avessa à autonomia feminina e à naturalização do sexo. Sexo e Destino, por sua vez, assume sua pregação. Farmacêuticos leem a doutrina espírita sobre suas bancadas, e um rápido contato com a publicação basta para uma mudança profunda de caráter. Os personagens conversam abertamente entre si a respeito: “Eu estou estudando uma nova doutrina”… A partir deste momento, tornam-se paladinos da justiça, prontamente dispostos a julgar os demais por comportamentos que eles mesmos praticavam até a véspera.
Em paralelo, guias espirituais comentam os valores de cada cena, tais quais professores dirigindo-se a espectadores que presumem incapazes de compreender mesmo as lições mais evidentes. Pobre Félix (Tiago Luz), cuja função se restringe a palestrar trechos empolados de Chico Xavier imediatamente após os acontecimentos, alertando-nos que o vício é ruim, a virtude é boa, alguns homens “caem” e precisam ser erguidos. Os atores, em geral, recebem uma tarefa delicada, por encarnarem figuras maniqueístas e arquetípicas. Teria sido muito simples evitar a gesticulação excessiva de Carol Macedo, os olhos sempre espremidos de Bruno Gissoni, o descontrole vocal de Letícia Augustin em instantes de forte teor emocional. Ora, a direção de atores permite composições freestyle.


Mas como apontar o dedo os atores, encarregados de declamar com naturalidade frases tais quais “Marina, eu sou rico! Você vai ficar comigo!” e “Nosso irmão se deixou levar pelo vício!”? Ora, certo grau de artificialidade condiz com os códigos esperados da estética cristã: o bem se veste elegantemente em cores claras, já o mal, com farrapos prestos; espíritos são representados por halos luminosos; as boas energias se transformam em feixes de luz saindo pelas mãos. Em contrapartida, outros estranhamentos se devem ao excesso de subtramas — um novo segmento, em flashback, começa por volta de 90 minutos de narrativa, com personageis inteiramente novos. Isso sem falar no estranhamento de uma barriga de grávida pouco naturalista, e na decisão injustificável de uma mulher casta em conversar com o namorado dentro de um bordel — além de sua risível dificuldade de diferenciá-lo próprio pai, num quarto não-tão-escuro-assim.
Por fim, o longa-metragem deixa claro o seu financiamento pela Federação Espírita Brasileira, além da admiração pela figura de Chico Xavier (materializada nas cenas finais), e a vocação a conquistar novos seguidores. É difícil acreditar que muitos espectadores não-espíritas se disponham a assistir a um filme tão ostensivamente kardecista. Entretanto, aos convertidos, servirá de reforço aos conceitos de base. Se os recentes Nosso Lar 2 e O Advogado de Deus pretendiam funcionar como narrativas que, dentro de um percurso clássico, embutiam pensamentos espíritas, desta vez, sentimo-nos de fato em uma palestra, para a qual o cinema permanece em segundo lugar. Imagens e sons traduzem-se em meras ferramentas para espalhar ainda mais a palavra, a quem interessar possa. A mensagem, nesse caso, concentra-se particularmente no pecado feminino diante da dificuldade de pobres homens em conter seus impulsos carnais — até começarem a ler o livro sagrado, claro.



