Seis Dias Naquela Primavera (2025)

Férias clandestinas

título original (ano)
Six Jours, Ce Printemps-Là (2025)
país
França, Luxemburgo, Bélgica
gênero
Drama
duração
94 minutos
direção
Joachim Lafosse
elenco
Eye Haïdara, Jules Waringo, Leonis Pinero Müler, Teodor Pinero Müler, Emmanuelle Devos, Damien Bonnard
visto em
Cinemas

Diversos elementos prometem tensão em Seis Dias Naquela Primavera. Sana (Eye Haïdara) decide passar o feriado com o novo namorado, Jules (Jules Waringo), em presença dos filhos pequenos dela. O rapaz foi treinador de futebol dos garotos, e estes ainda nem desconfiam do relacionamento com a mãe. Devido a um imprevisto na casa de Jules, decidem abruptamente visitar a casa de passeio do avô, na Riviera. Ora, como Sana está divorciada, após um término conflituoso com o pai das crianças, sua presença na propriedade é proibida. Mesmo assim, invadem a casa que já frequentaram inúmeras vezes no passado, de maneira oficial. A mãe pede às crianças que não acendam a luz nem façam barulho. A permanência dos quatro deve ser invisível.

O ponto de partida soa como um prato cheio para a sensibilidade costumeiramente melodramática de Joachim Lafosse. O belga se tornou conhecido pelas histórias de doenças, separações e traições, banhadas em lágrimas e trilha sonora sentimental. Talvez, por este motivo, tenha optado por um registro quase oposto dessa vez. Investe no comedimento, no distanciamento. Opta por alegrias mínimas e tristezas módicas. Sugere problemas que jamais se materializam em tela (ou se resolvem poucos minutos mais tarde), enquanto poupa os personagens de dilemas sociais — de ordem racial ou de classe, por exemplo.

Uma experiência tão polida e competente quanto morna. Embora o filme prometa uma viagem pelo ponto de vista da mãe, esta protagonista permanece lacônica.

Deste modo, ele opta por uma cinematografia observadora e cúmplice. Investe na elegância habitual do “filme de festival”, compondo impecavelmente as luzes e enquadramentos, de modo a valorizar o real. O diretor de fotografia Jean-François Hensgens, um parceiro habitual de Lafosse, concentra-se no rosto inabalável da atriz principal. Segue-a entre um cômodo e o outro. Flagra-a de costas, olhando para a natureza, ou então com os olhos fechados, descansando na cama e na praia. Valoriza a água escorrendo pelo corpo, e ainda a expressão estoica diante de um vizinho (Damien Bonnard) que reclama da invasão dos meninos à piscina do vizinho.

O drama oferece, portanto, um elogio à dignidade desta mulher inquebrável. As pequenas violências estão presentes, ainda que silenciosas — a propriedade que não lhe pertence, a dificuldade de visitar os comércios do passado, o trato desajeitado com conhecidos do bairro. Haïdara mantém a pose de uma esfinge, que raramente sorri, muito menos chora ou se desespera. Demonstra um carinho contido, assim como um incômodo passageiro. Mesmo o afeto com o novo namorado será ínfimo. De modo geral, as interações permanecem num grau de iminência. Talvez o espectador espere por uma reviravolta ou conflito que nunca ocorre de fato.

Lafosse constrói, em consequência, uma experiência tão polida, no sentido de uma produção competente, quanto morna — impessoal seria outro termo possível. Embora nos prometa uma viagem pelo ponto de vista da mãe, esta protagonista permanece lacônica, hermética. Sabemos pouco de seus sentimentos ou objetivos. A montagem de Marie-Hélène Dozo desvia várias vezes dela, sem indícios de seu paradeiro, preferindo se concentrar na praia e nas crianças. Sana desperta a incômoda impressão de ser a coadjuvante de sua própria história — ela não estaria invadindo apenas a casa alheia, mas também um filme que nunca soa feito para ela. Jules se reduz a uma figura ainda mais pragmática, balbuciando monossílabos aqui e acolá. Entendemos racionalmente que se os dois amam, entretanto, é difícil sentir, nos gestos cotidianos, o afeto indicado pelo roteiro.

Para além disso, questiona-se o ponto de vista do diretor a respeito desta curta viagem de férias. Inspirando-se em uma lembrança real de sua infância, aparenta ter guardado tão somente a admiração por esta mãe-estátua, na condição de protetora exemplar. Mas o que os meninos sentem diante da descoberta do relacionamento da mãe, de sua condição de exclusão, da necessidade de viverem no escuro dentro do casarão confortável? Compreendem sua marginalidade, ou aproveitam a proposta aventuresca de férias em modo faz de conta? Nem mesmo estas ambiguidades seduzem o cineasta. O coming of age estava ao alcance das mãos, em contrapartida, Lafosse dispensa a proposta de uma lembrança transformadora e marcante aos personagens fictícios — mesmo que o tenha sido para si próprio, a ponto de dedicar um longa-metragem a esta recordação.

Até grandes atores, em participações especiais, possuem impacto efêmero na vida dos protagonistas. Bonnard sugere esta privação de liberdade, ainda que resolva suas divergências através de um pragmatismo ímpar. Emmanuelle Devos, no papel da vizinha intrusiva, tampouco representa uma ameaça ou incômodo a Sana (ela teria deixado o doce prometido na garagem?). Eles desaparecem sem deixar vestígios, assim como os viajantes pretendem fazer no imóvel. Trata-se de uma família fantasma, que atravessa os espaços sem deixar marcas, nem carregar nada consigo. Teria sido comum aos pequenos levarem um pequeno objeto, uma concretização do episódio. Que nada — terminarão apenas com o imaginário da redenção clássica via ondas do mar.

Sem dúvida, não há nada errado nesta abordagem acadêmica e respeitosa dos conflitos. Dentro da carreira do cineasta, em particular, representa um esforço de mudança a partir de seu estilo habitual. (É fundamental que um autor se desafie desta forma). Em contrapartida, Seis Dias Naquela Primavera deixa a impressão de uma obra fria, muito mais preocupada em ser admirável (racionalmente) do que comovente. Trata-se de um filme com muito a mostrar, movido por certa vaidade autoral (“Veja o que eu também sou capaz de fazer!”), porém, pouco investida em termos pessoais. Caso Lafosse realmente preserve sentimentos fortes por este episódio de sua juventude, não o transmitiu no resultado. Neste sentido, é interessante pensar que a ousadia costuma ser marca tanto dos filmes ótimos quanto daqueles péssimos — dificilmente dos medianos. Aqui, o diretor atinge o paradoxo de um criar filme pouco memorável a respeito de uma lembrança querida. 

Seis Dias Naquela Primavera (2025)
6
Nota 6/10

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