O Caçador (2025)

Vidas secas

título original (ano)
O Caçador (2025)
país
Brasil
gênero
Drama, Suspense, Fantasia
duração
20 minutos
direção
Lucas Mancini
elenco
Altamar Cézar, Sidy Correa
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

O Caçador promove uma aproximação entre um trabalhador desempregado e seu cão. Em comum, ambos têm fome, e precisam encontrar um meio de subsistência. O primeiro era preso a um contrato na fazenda, e o segundo, a uma corda na árvore. Os dois rompem suas ligações, apenas para se encontrarem tão livres quanto desamparados. A bem da verdade, o cão nem mesmo pertence ao protagonista, no entanto, depois de ser alimentado, passa a acompanhá-lo.

Mais do que isso, o animal conversa com o herói humano. O cineasta Lucas Mancini evita empregar uma voz literalmente saindo da boca do cachorro — o que talvez provocasse um indesejado efeito lúdico, cômico e infantil —, porém, inscreve as legendas na parte inferior da imagem, correspondentes à comunicação canina telepática. O animal, veja só, expressa-se em bom português, formal e literário: “É tudo que tu tens? Tens fome”? O interlocutor animalesco, misto de oráculo e filósofo, questiona seu não-dono a respeito desta contradição fundamental. Afinal, o sujeito abandonado nem mesmo poderia alegar que não tem nada. Ele tem algo: a fome. Tem a falta, o vazio. Taí algo que este despossuído possui.

Apesar da aparência de uma adaptação literária, o curta-metragem decorre de uma ideia original. Tal qual Graciliano Ramos, humaniza os animais e animaliza os humanos, invertendo a relação hierárquica habitual. Devido à sua caça em terreno alheio, o cão acaba por alimentar seu dono, até ambos serem descobertos na farsa da sobrevivência. O diretor não concebe um final otimista, nem redentor. Prefere encontrar uma saída simbólica, sonhada, ao problema crônico da desigualdade social.

O resultado impressiona, sobretudo, pelo domínio estético. Mancini trabalha muito bem os planos fixos, a partir de uma janela de imagem mais próxima do quadrado — formato 1,66:1, provavelmente. A montagem segura os planos pelo tempo suficiente até despertar certa impressão de mistério, convidando o espectador à adivinhação: afinal, por que seguimos observando o saco plástico no gramado? O que significam os enquadramentos acomodando o trabalhador e o cão em pé de igualdade? O humanismo decorre, inclusive, da escolha do ponto de vista e das durações de uma obra contemplativa. 

Em paralelo, a atenção às mãos, às unhas sujas e a pele dos funcionários, além da aproximação ao rosto do cão, sugerindo sua fala e a intensidade dos diálogos, comprovam um pensamento por trás da decupagem, da luz, do som e da montagem. Nada soa improvisado, ajustado na hora, feito como pôde. Este é um cinema do controle e do esmero de linguagem, o que inclui o trabalho primoroso de direção de atores — Altamar Cézar se prova formidável, entre o estoico e o sensível.

Por fim, o projeto ainda encanta pela habilidade em encerrar satisfatoriamente esta narrativa com ares de conto. Após três curtas-metragens, exibidos na mesma sessão do Olhar de Cinema, que simplesmente interrompiam abruptamente as suas tramas, O Caçador demonstra um pensamento cuidadoso em relação à melhor maneira de se despedir do espectador, através de imagem capaz de ecoar no interlocutor após a sessão. Seja pelo escopo, bem apropriado ao curta, seja pela incursão em um humanismo que não se pretende didático, nem exaustivo em seus temas, a obra faz prova de uma maturidade excepcional por parte dos criadores.

O Caçador (2025)
9
Nota 9/10

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