
Consta em Anatomia do Caos que a pandemia de Covid-19 teve uma gestão catastrófica no Brasil. Jair Bolsonaro e seus ministros negaram vacinas; fizeram propaganda de medicamentos sem eficácia comprovada; incentivaram a propagação do vírus, visando uma imunidade de rebanho, e, por fim, envolveram-se em esquemas corruptos de aquisição de vacinas superfaturadas. Mais de 700 mil pessoas morreram em decorrência de uma doença que poderia ser controlada, caso houvesse real disposição das autoridades em fazê-lo. O episódio demonstrou falta de empatia, de liderança e de transparência por parte do primeiro político pós-reabertura democrática a não conseguir sua reeleição nas urnas.
A diretora Dandara Ferreira tem razão neste diagnóstico. Seria difícil contradizer evidências tão facilmente comprováveis a respeito do passado recente — até porque, como o filme também lembra, todos nós fomos afetados, seja por perda de entes queridos, seja por prejuízo econômico. Em um vídeo de divulgação na Internet, a cineasta explica que criou esta obra “para que esse história não seja esquecida”, frisando que “o cinema tem um papel de utilidade pública, e é também político”. São pretensões nobres, e igualmente defensáveis. De fato, ninguém deveria ignorar ou minimizar o que houve no país (seja em período eleitoral, ou fora dele). Todo cinema é político; e a função de memória dos materiais de arquivo constitui uma das potências do audiovisual. Novamente, não há nada a contestar nesse pressuposto.
É difícil dizer que Anatomia do Caos traga alguma reflexão inédita, instigante, ou minimamente diferente de tantas que o antecederam. A obra carece de um ponto de vista.
As ressalvas ao longa-metragem provêm de como, e de quando, estas reflexões são elaboradas. A autora opta pela abordagem abrangente e cronológica. Lista fatos, pontuando os momentos marcantes desta gestão equivocada. Ao se focar na CPI da Covid, a montagem privilegia os instantes em que os depoentes se contradizem nas respostas básicas, se perdem na papelada, ou ainda, quando as videochamadas travam. Existe certo prazer em mostrá-los na condição de trapalhões, para além de perversos e irresponsáveis. Entretanto, de modo geral, os acontecimentos sublinhados devem estar frescos na lembrança de qualquer espectador disposto a assistir a um documentário brasileiro a respeito da Covid nos cinemas. Ou se pressupõe que um bolsonarista convicto, e um eleitor indeciso, comprariam o ingresso para esta sessão? (A questão se mostra pertinente, visto a pretenção anunciada de pensar o filme enquanto utilidade pública).
Logo, este lembrete chega às salas escuras ao mesmo tempo cedo demais, e tarde demais. Cedo, porque a pandemia ocorreu há poucos anos, e ainda processamos as transformações no Brasil desde a crise sanitária. Tarde, porque as discussões acaloradas a respeito do vírus e sua gestão foram deixadas em segundo plano, desde o fim da pandemia — justamente pela vontade de passar a outra coisa, de evitar o tema da contaminação, dos remédios, e daquela gestão, que saturaram o imaginário durante aproximadamente três anos. Por isso, a reincidência de frases a respeito do “histórico de atleta”, “Deixa de frescura e mimimi”, “E daí, eu não sou coveiro?” e outras similares apenas enfiam o dedo numa ferida não plenamente cicatrizada. De que maneira poderíamos efetuar o luto através desta coletânea de piores momentos?
Mesmo que aborde especificamente a CPI da Covid, é difícil dizer que Anatomia do Caos traga alguma reflexão inédita, instigante, ou minimamente diferente de tantas que o antecederam. O olhar panorâmico, incluindo contagem progressiva de mortos na tela, junto a uma assombrosa música de suspense em modo true crime, apenas nos relembra daquilo que não esquecemos (pelo menos — vale repetir — os espectadores dispostos ao contato com a obra). Após tantos documentários similares nos últimos anos, associando o caos social e político brasileiro à gestão Bolsonaro (caso de No Céu da Pátria Nesse Instante e Quando Falta o Ar), paira a impressão de a obra carece de um ponto de vista. Seu posicionamento ideológico é claríssimo, assim como seus métodos. Entretanto, ressente-se a falta de um olhar pessoal ao mesmo problema.
A memória fundamental da Covid poderia ocorrer por meio de algum caso humano específico; pela batalha particular de um ou outro político; pelo caso selecionado de alguma cidade; pelo viés estritamente farmacêutico; pela comparação com outros países, etc. Haveria inúmeras possibilidades de retomar o tema — que, de fato, ainda pode e deve ser intensamente debatido — sem produzir tamanha sensação de déjà vu, nem nos explicar o óbvio novamente. O problema desta abordagem reside no pressuposto de que precisamos ser introduzidos didaticamente ao tema, ainda fresco na memória e no sangue de cada um. Ao invés de terapêuticas ou conciliadoras, as recordações de risadinhas de Bolsonaro revelam-se perversas, não reflexivas. Em outras palavras, em fragmentos desta natureza, dialoga-se mais com a emoção do que com a razão, o que nos impede de estabelecer o mínimo distanciamento necessário ao debate.


Para o espectador, resta a estranha sensação de entrar numa sala de cinema sabendo exatamente o que vai encontrar. Quando Anatomia do Caos anuncia seu tema e sua abordagem, antecipa-se com facilidade aquilo que se encontrará nas imagens: as grosserias de Bolsonaro, a imitação de pessoas sem ar, a incompetência dos ministros, o gabinete paralelo, os planos aéreos das incontáveis valas, os drones sobre o Palácio do Planalto, os familiares chorando seus entes queridos. Tudo está presente, na ordem esperada, com os arquivos esperados (materiais da TV Senado e outras redes públicas), as denúncias esperadas, e as conclusões esperadas (não podemos nos esquecer, os responsáveis estão impunes, etc). Qual o prazer, cinematograficamente falando, de encontrar precisamente o que se esperava, sem tirar nem pôr? Onde reside a fascinação, a surpresa, a raiva diante de alguma evidência nova? Ou os criadores nos tomam apenas por maus alunos, a quem se precisa explicar o básico uma enésima vez, na expectativa de que, finalmente, compreenderemos a lição?
Em termos de linguagem, o documentário não demonstra risco, nem ousadia. Oferece pouquíssimo em termos de construção, preferindo a apreensão do real como ele é, meramente organizado pela montagem sucinta e veloz. Resulta numa proposta semelhante a abordar aquele amigo que acaba de perder o pai num acidente de carro, e lhe perguntar: “E a morte do seu pai, hein?”. Sim, o sujeito precisa elaborar o que lhe ocorreu. Com certeza, necessita efetuar o luto. Mas talvez o simples despejo, abrupto e referencial dos fatos, resulte mais doloroso do que curativo. A terapia possui métodos e maneiras cuidadosas, carinhosas e simbólicas de elaborar os sentimentos, e refletir acerca deles, sem necessariamente nos lançar flashes de passagens absurdas. O cinema, enquanto veículo de utilidade pública, precisa ser mais estético do que informativo. Deixemos a função explicativa aos jornalistas e repórteres.




