Foto: Leo Fontes/Universo Produção
Foto: Leo Fontes/Universo Produção

CineOP 2026 | Um país existe nas imagens que preserva

Na noite de 25 de junho, começou a 21ª CineOP — Mostra de Cinema de Ouro Preto. O evento se dedica ao cinema pelo viés da História, Educação e Preservação, o que implica na exibição de diversos filmes clássicos restaurados, além de filmes contemporâneos que utilizam materiais de arquivo. Em paralelo, os organizadores promovem inúmeras mesas de discussão no intuito de valorizar os temas de cada edição. Em 2026, o recorte escolhido foi “Um país existe nas imagens que preserva”.

A este propósito, a diretor do evento, Raquel Hallak, se pronunciou na cerimônia de abertura com uma fala potente a respeito da importância simbólica e concreta de nossas imagens. Para ela, “projetar imagens é projetar futuros”, e “o futuro nasce da História”. Ela ainda analisou a preservação enquanto questão de soberania nacional, em tempos de afirmação política de nossa autonomia face às ameaças de ingerência estrangeira.

Foto: Leo Fontes/Universo Produção
Foto: Leo Fontes/Universo Produção

A 21ª CineOP também presta homenagem às mulheres pioneiras do cinema brasileiro, criando em cenário adverso, quando os meios de produção ainda se concentram, em sua grande maioria, nas mãos dos homens. Após uma listagem panorâmica de diretoras brasileiras, a cerimônia trouxe a aguardada homenagem a Helena Solberg, diretora de A Entrevista (1966), Meio-Dia (1970), The Emerging Woman (1974), The Double Day (1975) e Simplesmente Jenny (1977) — conhecidos como a Trilogia da Mulher —, The Brazilian Connection, a Struggle for Democracy (1982/1983), Carmem Miranda: Bananas Is My Business (1995) e Vida de Menina (2003), entre outros.

Ela recebeu o troféu ao lado de Tata Amaral e Lúcia Murat, outros nomes fundamentais da cinematografia brasileira. Solberg recordou a proposta de questionar sua própria educação burguesa em A Entrevista, e explicou a busca por metáforas para abordar a censura e o autoritarismo em Meio-Dia, que representa a violência da ditadura militar.

De fato, parte considerável do público na Praça Tiradentes aparentava descobrir pela primeira vez os relatos de meninas de classe média-alta, que servem como material para A Entrevista. Enquanto a diretora acompanha o dia de uma garota na praia, introduz em off os testemunhos a respeito do casamento, o sexo e as relações de poder com os homens.

O curta-metragem foi considerado um dos 100 filmes mais importantes do cinema brasileiro pela Abraccine, e desperta uma curiosidade a respeito das mudanças geracionais. O que as meninas da década de 2020 diriam de sua relação com o corpo, o matrimônio, a sexualidade, a igualdade de gêneros? Este seria um projeto interessante de descobrir, em relação ao mosaico tão simples quanto ambicioso de Solberg.

A Entrevista, de Helena Solberg
A Entrevista, de Helena Solberg

Meio-Dia, descrito pela criadora como “experimental e anarquista”, concebe diferentes maneiras de se opor à autoridade. A violência atravessa o curta-metragem, que contém imagens de um garotinho se asfixiando com um saco plástico, e depois chutando um cachorro quando se vê proibido de jogar futebol. Algo nesta liberdade, nos moldes da câmera na mão e luz natural, remetem a Os Incompreendidos de Truffaut, ainda que com um furor e uma assertividade que se opõem ao aspecto sonhador do clássico francês.

Solberg chega inclusive a imaginar uma rebelião de estudantes pequenos contra o professor, em plena luz do dia, resultando na morte do adulto. Na parede, “ditadura” está pichada com clareza. Compreende-se, inclusive, que trabalhos tão ferozmente opostos ao regime militar tenham motivado o exílio de sua autora. Mesmo assim, décadas mais tarde, ela filma uma história em Diamantina (MG), para questionar a autonomia das jovens mulheres no século XIX. A ousadia e o firme posicionamento político de Vida de Menina demonstram uma cineasta de convicção.

A 21ª CineOP vai até 30 de junho, com uma programação inteiramente gratuita. Você descobre todos os filmes e atividades paralelas no site oficial do evento.

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