O diretor Dácio Pinheiro. Foto: Leo Fontes/Universo Produção
O diretor Dácio Pinheiro. Foto: Leo Fontes/Universo Produção

Universo Circular: Jocy de Oliveira | A pioneira da música eletrônica brasileira, por Dácio Pinheiro

Na 21ª CineOP — Mostra de Cinema de Ouro Preto, o documentário Universo Circular: Jocy de Oliveira integrou a mostra competitiva Arquivos em Questão. O longa-metragem chegou ao evento mineiro logo após vencer o In-Edit Brasil: Festival Internacional do Documentário Musical 2026.

O diretor Dácio Pinheiro (de Meu Amigo Cláudia, 2009, e Lenita, 2023) acompanha a trajetória de Jocy de Oliveira, aclamada pianista que se redescobriu na música eletrônica experimental. Aos 90 anos, ela ainda cria, e relembra sua trajetória num terreno majoritariamente masculino.

O cineasta conversou com o Meio Amargo a respeito do projeto:

O filme inteiro é costurado pelo vídeo de um piano mergulhado nas águas. Por que escolheu distribuir esta cena ao longo da narrativa?
Dácio Pinheiro: Quando eu comecei a pesquisar o material, percebi uma coisa fascinante na história da Jocy, que eram todas essas cartas que ela guardava. Num primeiro momento, pensei em fazer o filme baseado nas cartas escritas por ela. Mas quando peguei o arquivo completo, digitalizei e comecei a assistir, me deparei com esse material em vídeo. Era um making of dessa performance, que trazia o piano afundando no mar.
Para mim, aquilo tinha uma relação profunda com a trajetória dela. Afinal, ela praticamente nasce tocando piano, depois vira uma pianista super famosa. Aí, quando começa a ter problemas de coluna que dificultam tocar tão bem quanto ela tocava antes, ela se reinventa na ópera. E ela usa o piano como objeto cênico também.
Era como se ela dissesse: “Não posso mais tocar o piano, então vou afundá-lo no mar, e então tirá-lo de lá, e me reinventar a partir dele”. Então foi uma metáfora desta reinvenção dela, quando tinha cerca de 50 anos de idade.

Você mostra uma Jocy rebelde, “anti-Bossa Nova”, e mesmo uma figura controladora. Como enxerga o papel dela neste cenário musical?
Dácio Pinheiro: É muito interessante, porque a Bossa Nova veio em 1959, né? Mas ela fez aquele disco, A Música Século XX, no comecinho da Bossa Nova. Então eu vejo a Jocy como uma figura bem à frente do seu tempo. Mas, como ela mesma diz, a Bossa Nova trazia aquela ideia do banquinho e violão, das canções de amor. Enquanto isso, ela falava de suicídio e assalto a banco.
Ela é controladora, mas nunca me proibiu de usar nenhuma imagem, nem pediu para não incluir algo. Pelo contrário, me disse para usar o que eu quisesse. Ela só era realmente controladora na questão musical. Então tudo tinha que estar perfeito, porque o áudio era fundamental para a Jocy. Ela queria saber quem ia mixar o áudio, porque só se confiava numa pessoa em particular. Então eu expliquei que não poderia funcionar assim, senão, ela ia querer controlar a finalização do áudio inteiro.

Você tinha o propósito de popularizar o trabalho da Jocy de Oliveira?
Dácio Pinheiro: Não, esse não foi o meu intuito. Existia acima de tudo a minha fascinação pelo universo dela. Por exemplo, no filme, ela diz que se casou com Eleazar de Carvalho porque queria liberdade. Queria poder frequentar, e tocar nesses lugares, aos quais jamais teria acesso se não estivesse casada com um regente tão conhecido. Isso para mim era algo essencial para compreender a personalidade dela.
Jocy teve contato com compositores famosos quando tinha 17, 18 anos, e eles tinham 80, 90 anos. É impressionante dialogar com uma pessoa que conheceu Stravinsky, né? Eu achava isso fascinante. Ela estava sempre ali, no meio daqueles homens todos. Ninguém deixaria ela fazer essas coisas, então ela foi lá e encontrou o jeito dela.
De certo modo, ela também não cedeu quando as pessoas insistiam que ela precisava fazer isso, ou não fazer aquilo. Jocy sempre foi muito determinada.

Como você percebe o reconhecimento de Jocy no meio musical?
Dácio Pinheiro: Quando eu comecei a fazer o documentário, foi muito interessante, porque era a época em que dois discos dela foram lançados na Europa, mas ninguém conhecia estes trabalhos no Brasil. Eu pensei: “Como pode ser?”. Ela é uma artista experimental incrível, cultuada por várias pessoas na Europa. Até disseram que, o que ela estava fazendo nos anos 1970, ninguém ainda fazia direito, ainda mais no Brasil.
Ela ainda trabalha com pessoas que eu admiro profundamente, como a cantora Anna Maria Kieffer. Desde novinha, a Anna começou a fazer todos os trabalhos da Jocy, e se tornou quase um alter-ego dela. Fiz uma entrevista linda com com a Anna, mas na hora de montar o documentário, a presença da Jocy é tão forte que achei que não encaixava ali.

Sua admiração pela Jocy se torna bastante profissional. Você escolhe não mergulhar na vida pessoal.
Dácio Pinheiro: Eu não mergulho nisso, mas ainda está ali, né? Tem até a questão do Luciano Berio, e esta relação que foi um um divisor de águas na vida dela. Ela mesma fez um espetáculo em que lia as cartas românticas trocadas pelos dois. Mas ela nunca me pediu para não incluir isso no filme. Eu tive dúvidas, pensei duas vezes, mas ela própria não interferiu.
Então achei importante mostrar a força dessa mulher que vai se reinventando, obcecada pelo trabalho dela. Agora mesmo, a Jocy está compondo uma ópera nova no Teatro Municipal. Ela não consegue parar, porque é isso que move ela. É impressionante conversar com a mulher de 90 anos, e perceber tamanha lucidez.

Como a própria Jocy de OIiveira reagiu quando assistiu ao filme?
Dácio Pinheiro: Olha, eu tentei trazer a mesma linguagem que ela trabalha nas óperas dela, uma estrutura diferente. Tentei não ser cronológico, mas às vezes não dá para evitar, porque uma coisa puxa a outra. Então, eu movia o episódio do Stravinski mais para frente, mais para trás. Mas ela gostou muito, e se emocionou.
A gente fez uma sessão fechada para a Jocy e, como sempre, o mais importante para ela era a questão do som. Ela assistiu junto do filho, e deu para perceber a preocupação dela. Esse era o verdadeiro problema para ela, mas ainda não tinha a mixagem naquela fase. Era um corte. Quando ela viu com a mixagem pronta, entendeu que as coisas tinham que funcionar daquele jeito. O filme tem muito desenho de som.
Ela mesma mexe muito com o som. No espetáculo que ela fez agora na Sala São Paulo, tinham oito caixas para o desenho sonoro. Por isso, ela tem essa grande preocupação em fazer o som se mover pelo ambiente — o espaço é muito importante para ela.
Além disso, ela já foi muito vaiada também, porque as pessoas não entendiam a obra dela. Mesmo assim, ela não mudou nada do que fazia, só continuou.



O filme acaba de vencer o In-Edit. Como percebe o alcance popular deste projeto?
Dácio Pinheiro: Foi uma surpresa enorme, eu não imaginava, até porque a Jocy ainda é relativamente desconhecida, né? Ela não tem um apelo popular de grande porte. Quando vieram os convites da CineOP e o In-Edit, eu escolhi vir para Ouro Preto, porque sabia que não ia ganhar o In-Edit mesmo. Aí, na sexta-feira, me avisaram que a gente tinha ganho o prêmio.
Foi uma emoção incrível. É um festival que eu gosto muito, e foi a terceira vez que participei. Ironicamente, enquanto preparava o documentário, eu duvidei muitas vezes. Pensava: o que estou fazendo com esse filme? Será que vai dar certo? Quem vai querer ver?
Mas então ele estreou no Indie Lisboa, depois veio o In-Edit, a CineOP, aí agora a gente vai fazer umas sessões super legais na Europa, porque grupos como a Fundação John Cage e o Festival de Música Eletrônica Experimental demonstraram interesse também.

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