
O primeiro elemento que salta aos olhos neste filme é seu senso de estilo. Situado no ano de 1977, quando ocorreram os fatos que lhe serviram de origem, Refém por um Fio busca um estilo apartado da estética contemporânea. Isso se aplica à fotografia, à montagem e ao uso do som. Ao invés da profunda nitidez e do contraste acentuado, típicos das imagens atuais, o diretor de fotografia Arnaud Potier prefere a cinematografia de baixo contraste, com tons pastéis, e uma definição menos acentuada (mais “borrada”). Assim, atinge uma aparência de sonho, apropriada ao acontecimento excepcional.
Ao mesmo tempo, efetua zooms nervosos no rosto e corpo dos personagens, além de congelar algumas imagens, convertendo-as em stills. Já a montagem de Saar Klein segura por bastante tempo interações de aparência anódina, ao passo que interrompe abruptamente outras que nos soavam fundamentais. Em paralelo, apresenta o trabalho de um DJ da rádio de Indianápolis, muito antes de descobrirmos de que forma este personagem se cruza com o conflito central. O diretor Gus van Sant brinca com a cartilha básica dos filmes de roubo e abdução, investindo não apenas na aparência retrô, mas no retorno a uma forma de contar histórias que parece ter caído em desuso.
Refém por um Fio se sobressai quando foge da obrigação de reproduzir o real, reforçando a profunda ironia do caso.
Por isso, a mise en scène se deleita com as excentricidades do caso. Quando o micro empresário Tony Kiritsis (Bill Skarsgard) sequestra Richard Hall (Dacre Montgomery), vice-presidente da empresa que teria lhe prejudicado em acordos financeiros, ele sai com seu refém pela porta da frente do banco. Caminha vários quarteirões com seu alvo, literalmente preso a uma espingarda contra a nuca. Conversa em tons amigáveis com os policiais, indica o endereço de sua casa, e alerta as autoridades que o esperem lá, caso desejem chegar antes. Rouba o veículo de um policial, mas só porque a chave de seu carro quebrou na ignição, e garante que devolverá o carro depois (“Eu não sou ladrão”, ele frisa). Tony tem amigos entre os policiais, e possui uma verdadeira obsessão por Fred (Colman Domingo), o DJ da rádio local, que funciona como intermediário entre o criminoso e os policiais. Em suma, esta não é uma história tradicional de sequestro e resgate.
As surpresas continuam. O pai de Richard, dono da empresa em questão (interpretado por Al Pacino), nunca se desespera diante do perigo corrido pelo filho. Recusa-se a pedir desculpas a Tony, e declara que, caso o rapaz seja morto, lamentará os fatos e seguirá em frente. Chegando ao apartamento do protagonista, o público nota uma armadilha cuidadosamente preparada para receber sua vítima, o que inclui uma pilha de revistas para apoiar a espingarda, a poucos centímetros do rosto do bancário. Tony é, ao mesmo tempo, enlouquecido e bastante racional; violento e gentil. Para alguns, seria um herói contra a exploração das empresas, e para outros, um maníaco perigoso. Richard às vezes prova-se indefeso, mas em outros instantes, consegue explorar as falhas de seu algoz. Existe um complexo jogo entre ambos ao longo da narrativa.
Esta tensão sustenta uma trama onde a maioria das cenas se desenvolve entre personagens sentados, conversando por telefone. Tony liga para Fred; Fred liga para os policiais; os policiais ligam para o pai; o pai liga para o filho. A repórter local Linda Page (Myha’la) liga para os chefes da emissora, que a procuram de volta. Confia-se bastante na capacidade do elenco de sustentar um thriller da imobilidade — afinal, a vítima se encontra literalmente impossibilitada de se mover, enquanto o bandido aguarda alguma chamada, sentado no sofá de seu apartamento. O roteiro nem mesmo investe ativamente nas vidas privadas de um e de outro, preferindo aludir com discrição à namoradas e aos pais. O que interessa, aqui, diz respeito à sobrevivência e o tempo de urgência. Em outras palavras, aos fatos percebidos no tempo presente. Não somos, necessariamente, convidados a torcer por um lado ou por outro.
No elenco, Bill Skarsgard se entrega a um tipo de composição que tem efetuado às pencas: o vilão sedutor, ora perigoso, ora carismático — bastante agradável de ter por perto, apesar de imprevisível. A fala mansa se contrasta com os olhos vidrados, no intuito de sugerir intensidade. O ator desempenha este papel muito bem, embora tenha efetuado variações da mesma persona tantas vezes que aparenta interpretá-las no piloto automático. Aliás, nenhum nome do elenco foi desafiado a sair de sua representação mais confortável: Colman Domingo capricha na sedução da voz e em certa malícia na boca e no caminhar; e Al Pacino busca a fagulha de intimidação de seus principais mafiosos. Somente Myha’la soa perdida, buscando emular uma determinação frenética pela fama, que jamais se materializa durante as poucas aparições da personagem.


Aliás, Refém por um Fio é prejudicado por algumas convenções e escolhas mal aproveitadas. O revólver sobre a mesa, quase alcançado pelo sujeito sequestrado, gera tensão em moldes hollywoodianos. Em contrapartida, o cineasta nunca sabe o que fazer com este conflito, esquecido adiante, e mal filmado no instante em que Tony se apodera do objeto. Tanto o sonho aterrorizante do rapaz algemado na banheira, quanto o reencontro romantizado entre ambos se traduzem em muletas narrativas bastante fracas. Ainda mais decepcionante é a intromissão dos vídeos do sequestro real na conclusão, visando apenas provar que a equipe reconstruiu as cenas com a maior fidelidade possível, buscando a mesma cor de camisa e o mesmo modelo de espingarda verídica. Por extensão, sugere que todo o restante corresponderia à verdade quanto ao caso.
Deste modo, a obra se sobressai quando foge da obrigação de reproduzir o real, reforçando a profunda ironia do caso. A interrupção do sequestro ao vivo, transmitido na televisão, para apresentar uma propaganda de hambúrgueres, diz muito mais a respeito do ponto de vista da direção do que o copiar-colar em relação aos fatos. Afinal, o acontecimento dos anos 1970 se aproxima de uma fábula, um estudo de caso para pensar os Estados Unidos de maneira mais ampla, assim como a falência do sonho americano e do mito da meritocracia. A direção retrata, sem punição nem romantizações, as falhas do sistema, com um cinismo crescente ao longo da narrativa. Esta jornada aponta para um país nem fortalecido, nem esfacelado, apenas lacunar em suas promessas. De certa forma, esmiúça a presenta superioridade de um sistema anacrônico. Ri dos fatos, mas também ri com eles, num misto de crítica e autocondescendência. Talvez esta seja a expressão de um humor possível diante de um país em crise.




