
Este curta-metragem combina diversos estilos e formatos. Ele parte da década de 1930, para estudar o nazismo, simbolizado pela passagem do Graf Zeppelin, e vai ao longínquo século 25, não muito diferente do nosso, onde se constata tristemente que “esse progresso nunca levou ao novo”, segundo um diálogo.
O diretor Camilo Soares se inicia com o modelo dos curtas-metragens do cinema mudo, em preto e branco, para investir num futurismo decorrente da ficção científica — vide a existência de uma nave improvisada, e diversas traquitanas analógicas que servem a esta assumida bricolagem audiovisual. (Em alguns instantes, Era um Vez Brasília se torna uma referência possível). O preto e branco, de certa forma, uniformiza os espaços e os procedimentos, que vão da ficção lúdica ao documentário mais tradicional, incluindo falas posadas à câmera. Já a geografia de usinas e construções favorece a atmosfera de um futuro distópico.
Às vezes, os moradores de Recife conversam diretamente com Graxa, músico local e viajante do tempo neste faz de conta. Ele serve de interlocutor entre um conceito de progresso, reinante no século XX, e aquele encontrado nas leituras mais questionadoras da contemporaneidade. O discurso contesta, obviamente, a noção de avanço que implica na retirada de direitos de parte da população, assim como a aniquilação de grupos indesejados (a noção de necropolítica ecoa neste roteiro, mesmo que nunca seja verbalizada enquanto tal). Neste percurso, o herói se converte numa testemunha-chave. Certo, ele compõe e canta, diante de cenários distintos, mas o projeto passa longe de uma biografia.
Graxa e o Zepelim chama atenção devido ao formato radical, fluido, recusando-se a se acomodar em uma única linguagem, ou um tema preciso. Faz das transições e acúmulos o seu meio e finalidade, ousando buscar uma linguagem política fora dos caminhos óbvios. O curta-metragem, em particular, acomoda bem experiências do gênero. É certo que o desenho de som sofre com alguns problemas (a música tão alta que impede a compreensão das falas em off), porém, ainda se destaca nesta investigação rumo à uma representação adequada, em 2026, para representar outros tempos (tanto o passado quanto o futuro).




