
“Vamos fazer uns testes divertidos”. A frase é disparada para Argyris (Claudio Kaya), jovem tímido, que aceita viajar com Mary (Konstantina Messini) e os pais da garota para uma chácara, fingindo ser o namorado desta. Na verdade, os adolescentes acabam de se conhecer, durante um serviço de massagem erótica. Entretanto, a natureza pura do menino, somada ao interesse sexual pela massagista, o levam a aceitar a proposta de imediato. Chegando no local, ele descobre que os pais (uma psicóloga behaviorista e um médico pediatra) estão dispostos a fazer diversas provas para verificar se o desconhecido está à altura de sua filhinha.
O diretor e roteirista Dennis Iliadis antecipa que os jogos familiares se tornarão cada vez mais perigosos. Isso porque os corredores da casa são filmados de maneira obscura, somados à trilha sonora de suspense. Enquanto isso, o porão guarda surpresas sinistras, e o próprio quarto onde Argyris dorme contém plantas saindo de um vaso sanitário. Na parede, há fotografias sinistras de um macaco abraçando a prole, e durante o café da manhã, os pais perguntam ao visitante: “Você se masturba muito?”. Depois, pedem que ele mergulhe numa piscina suja, ou se posicione no centro de um estábulo, porque “os cavalos sentem a energia das pessoas”.
Illiadis ignora o quão pueril soa tal abordagem, pela ausência de foco, de ponto de vista, e de elaboração crítica.
Como se percebe, Buzzheart se apoia na perversão de um amor doentio dos pais pela filha, assim como na disposição do rapaz, passivo até demais, em aceitar sucessivas humilhações impostas pelos adultos. Utilizando o princípio da gradação (um único conflito que se torna cada vez mais intenso, cena após cena, até a explosão) o cineasta explora o que existe de pior no afeto humano, acreditando, deste modo, estar tecendo um comentário mordaz a respeito de nossa sociedade falida. Esta seria uma primeira falha estrutural grave do projeto: a denúncia de um problema nunca claramente elaborado pelo discurso.
Afinal, o que exatamente se pretende criticar com tal procedimento? O sufocamento do amor paterno e materno? A falsa imagem da família patriarcal? Os segredos ocultos por trás de todo pressuposto de pureza? Mistério. Iliadis se diverte com um cinismo convertido em princípio, meio e finalidade. Não resta dúvida de que o autor busca se aproximar deste cinema da provocação social consagrado internacionalmente por Yorgos Lanthimos, ainda que sem o refinamento visual, ou mesmo narrativo, das primeiras obras do colega grego. A principal perversão, nestes casos, sempre decorre do próprio autor, em sua autossatisfação por colocar atores em posições incômodas, violentas, humilhantes, em nome da arte, ou de algum protesto vago acerca do estado das coisas.
O longa-metragem ainda sofre com outras indecisões estratégicas. Ele deseja surpreender o espectador devido à gravidade dos jogos e testes ininterruptos entre pais e namorado da filha. Em contrapartida, anuncia com insistência que alguma agressão potente acontecerá, de modo que, quando o clímax e as revelações enfim chegam ao espectador, mostram-se menos chocantes do que o filme esperaria — e até previsíveis. O cineasta deseja, em simultâneo, avisar de antemão e nos pegar desprevenidos. A estratégia fracassa: depois de filmar a palavra “sacrifício” quatro ou cinco vezes numa lousa, já sabemos exatamente o que acontecerá a seguir.
Outros indícios semelhantes se acumulam na trama: os flashbacks insistentes num jantar entre Mary, Yorgos (Yorgos Liantos) e Sandra (Evelina Papoulia); as falas recorrentes a respeito de experimentos em macacos; as menções, desde os letreiros iniciais, a respeito dos perigos dos testes behavioristas e, sobretudo, o coração elétrico que dá nome ao filme. Chegando ao clímax, os personagens somente explicam ao espectador tudo de que ele precisa saber (num recurso típico dos slashers pouco inspirados). Neste instante, a única surpresa reside na ausência de surpresa: a verdade se mostrava bastante simples, de impacto moderado, gerando uma resolução fácil e dramaticamente inerte. Iliadis promete um enfrentamento de enormes proporções, decepcionando então com a sucessão de lugares-comuns do terror baseado em traumas familiares.
Para o espectador, resta um posicionamento estranho, pois hesitante. Não somos propriamente voyeurs desta violência, posto que parte dos jogos é ocultada do público. Nunca seguimos a aventura, nem pelo ponto de vista de Argyris, nem de Mary, e muito menos dos pais. Permanecemos a uma distância fria, com dificuldade de torcer pelo garoto inacreditavelmente dócil e passivo (seria masoquista a palavra correta?), pelos pais abertamente desumanos, e pela nova namorada apática. Nenhum deles serve como modelo de conduta, de modo que o tensionamento, sugerido pela trilha sonora tensa e pelos zoom-ins em janelas da casa, não encontra equivalência no roteiro: todos soam relativamente contentes em ocupar seus respectivos papéis nesta dinâmica sádica.


Ainda mais curioso é o trabalho dos atores, encarnando tipos específicos — sinal de que o autor os enxerga, de fato, enquanto representantes de funções narrativas, ao invés de personagens dotados de subjetividades particulares. Temos a mãe bela e impiedosa, carregando no olhar feroz e o corpo rígido; o pai violento, tanto em insinuações de estupro quanto numa cena (incrivelmente mal filmada) de agressão na cama elástica; e a filha conivente, blasé, e satisfeita em testemunhar tantas provações acontecendo por causa dela, para ela. O diretor constrói sujeitos tão desprezíveis que nos cabe questionar sua motivação inicial em filmar personagens que lhe suscitam tamanho desprezo.
Buzzheart se encerra enquanto provocação retórica, na qual a aparência de acusação soa muito mais interessante do que seus comentários sociais. Muitos cineastas jovens enveredam por esta forma de cinema obscuro, de aparência esperta e maliciosa, insinuando que nenhum vício lhe escapa aos olhos. Nem mesmo o amor de uma mãe, e a proteção de um pai, estão ao abrigo de nossa maldade inerente. Illiadis ignora o quão pueril soa tal abordagem, pela ausência de foco, de ponto de vista, e de elaboração crítica. Despidos de uma contextualização política adequada, os retratos da falência social generalizada se convertem numa simples filosofia de bar, um grito de que estamos perdidos, tudo está dando errado, e o ser humano não teria mais conserto. Em outras palavras, a condescendência com os inúmeros problemas que supostamente escancara.




