
Depois do Fim se situa praticamente em um único espaço: o carro de Ana (Olivia Torres), que oferece uma carona a Théo (Rafael Lozano). O namoro entre os dois acabou seis anos atrás e, desde então, nem mesmo tinham se encontrado. A convivência de alguns minutos, no trajeto até a casa dele, serve de pretexto para o rapaz lembrar dos bons momentos que viveram, cobrar explicações quanto ao término e tentar uma reaproximação.
O dispositivo do tempo real serve muito bem ao pressuposto do curta-metragem. Em paralelo, a representação verbal do passado dispensa o diretor Pedro Paulo Dantas Maciel da necessidade de recorrer a flashbacks ou demais recursos explicativos. O cineasta prefere a memória afetiva aos fatos — em outras palavras, ele privilegia a maneira como cada um se recorda do término, em detrimento de uma suposta verdade, correspondente à lembrança de um ou outro. Está claro que se amaram e se magoaram. Entretanto, as circunstâncias precisas nem parecem claras aos próprios personagens.
A primeira metade resulta nos melhores momentos da narrativa. Neste segmento inicial, Ana e Théo ainda tateiam o terreno, ensaiam um contato, e conversam a respeito de banalidades. Muito se transmite nas hesitações, na pausa entre respostas, nos olhares perdidos dos dois, sentados lado a lado. Compreende-se a natureza do relacionamento no passado, assim como as irritações persistentes.
Infelizmente, na segunda metade, a sutileza é abandonada em nome de uma trilha sonora incisiva, mesmo redundante (uma canção a respeito de reencontrar o seu amor, muito tempo depois), além de um sentimentalismo crescente. Entram em cena o choro, as declarações de saudade explícitas, as falas a respeito de Théo ser “o meu cara”. O romantismo tradicional irrompe numa trama que valorizava, em sua parte inicial, a dinâmica fluida e nada idealizada dos relacionamentos contemporâneos.
Para um curta-metragem quase inteiramente baseado em diálogos, com poucos planos e espaços, a responsabilidade dos atores se torna ainda maior. Neste sentido, é um prazer testemunhar a destreza do elenco, sobretudo de Olivia Torres, neste registro. Os protagonistas aparentam ter certa liberdade para brincarem com o tempo das respostas, com o sentimento despertado por cada fala, e os olhares atravessados ou evitados. Há tanto controle quanto abertura ao jogo cênico, algo que faz muito bem ao projeto.
Torres oscila entre a tranquilidade e a tensão, a alegria e o ressentimento, às vezes, no espaço de poucos segundos. Ela está excelente em cena, transmitindo uma infinidade de sentimentos contraditórios no olhar, conforme escuta as frases provocadoras do ex-namorado. Se o filme não contasse com uma atuação deste nível, talvez o resultado soasse mais piegas. Compreende-se, assim, que a imagem final permaneça junto a ela, conferindo-lhe o tempo necessário para desenvolver as conclusões a quente a partir do encontro inesperado.
Depois do Fim pode não constituir uma forma de cinema particularmente ousada, nem disposta a romper com os lugares-comuns do romance e do boy meets girl. Mesmo assim, nesta segurança, compreende o potencial em extrair um bom trabalho dos atores, sugerindo mais do que revela. Para um cinema tão enxuto, a montagem e a fotografia também contribuem de maneira muito eficaz à trama, sem chamarem atenção excessiva a si próprias. A condução linear evita qualquer provocação incisiva, ou mesmo perturbadora. Ainda assim, transparece um gesto firme da direção.




