Depois do Fim (2024)

Pretérito de amar

título original (ano)
Depois do Fim (2024)
país
Brasil
gênero
Drama, Romance
duração
20 minutos
direção
Pedro Paulo Dantas Maciel
elenco
Olivia Torres, Rafael Lozano
visto em
8ª Mostra de Fama (2025)

Depois do Fim se situa praticamente em um único espaço: o carro de Ana (Olivia Torres), que oferece uma carona a Théo (Rafael Lozano). O namoro entre os dois acabou seis anos atrás e, desde então, nem mesmo tinham se encontrado. A convivência de alguns minutos, no trajeto até a casa dele, serve de pretexto para o rapaz lembrar dos bons momentos que viveram, cobrar explicações quanto ao término e tentar uma reaproximação.

O dispositivo do tempo real serve muito bem ao pressuposto do curta-metragem. Em paralelo, a representação verbal do passado dispensa o diretor Pedro Paulo Dantas Maciel da necessidade de recorrer a flashbacks ou demais recursos explicativos. O cineasta prefere a memória afetiva aos fatos — em outras palavras, ele privilegia a maneira como cada um se recorda do término, em detrimento de uma suposta verdade, correspondente à lembrança de um ou outro. Está claro que se amaram e se magoaram. Entretanto, as circunstâncias precisas nem parecem claras aos próprios personagens.

A primeira metade resulta nos melhores momentos da narrativa. Neste segmento inicial, Ana e Théo ainda tateiam o terreno, ensaiam um contato, e conversam a respeito de banalidades. Muito se transmite nas hesitações, na pausa entre respostas, nos olhares perdidos dos dois, sentados lado a lado. Compreende-se a natureza do relacionamento no passado, assim como as irritações persistentes. 

Infelizmente, na segunda metade, a sutileza é abandonada em nome de uma trilha sonora incisiva, mesmo redundante (uma canção a respeito de reencontrar o seu amor, muito tempo depois), além de um sentimentalismo crescente. Entram em cena o choro, as declarações de saudade explícitas, as falas a respeito de Théo ser “o meu cara”. O romantismo tradicional irrompe numa trama que valorizava, em sua parte inicial, a dinâmica fluida e nada idealizada dos relacionamentos contemporâneos.

Para um curta-metragem quase inteiramente baseado em diálogos, com poucos planos e espaços, a responsabilidade dos atores se torna ainda maior. Neste sentido, é um prazer testemunhar a destreza do elenco, sobretudo de Olivia Torres, neste registro. Os protagonistas aparentam ter certa liberdade para brincarem com o tempo das respostas, com o sentimento despertado por cada fala, e os olhares atravessados ou evitados. Há tanto controle quanto abertura ao jogo cênico, algo que faz muito bem ao projeto.

Torres oscila entre a tranquilidade e a tensão, a alegria e o ressentimento, às vezes, no espaço de poucos segundos. Ela está excelente em cena, transmitindo uma infinidade de sentimentos contraditórios no olhar, conforme escuta as frases provocadoras do ex-namorado. Se o filme não contasse com uma atuação deste nível, talvez o resultado soasse mais piegas. Compreende-se, assim, que a imagem final permaneça junto a ela, conferindo-lhe o tempo necessário para desenvolver as conclusões a quente a partir do encontro inesperado.

Depois do Fim pode não constituir uma forma de cinema particularmente ousada, nem disposta a romper com os lugares-comuns do romance e do boy meets girl. Mesmo assim, nesta segurança, compreende o potencial em extrair um bom trabalho dos atores, sugerindo mais do que revela. Para um cinema tão enxuto, a montagem e a fotografia também contribuem de maneira muito eficaz à trama, sem chamarem atenção excessiva a si próprias. A condução linear evita qualquer provocação incisiva, ou mesmo perturbadora. Ainda assim, transparece um gesto firme da direção.

Depois do Fim (2024)
6
Nota 6/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.