
O pequeno Leo (Matheus Assis) quer ser grande. Ele observa as pessoas andando de bicicleta sem rodinhas, e sonha em fazer o mesmo. Julgando pela premissa, o filme dirigido por Guilherme Souza se assemelha a um coming of age comum, ou seja, uma história de passagem à fase adulta. Nestes casos, é comum que algum evento transformador (ou traumático) exponha as crianças à dura realidade de seus pais, professores e demais referências. Este subgênero do drama se concentra, em particular, na perda da inocência.
A novidade, neste curta-metragem, reside na combinação entre o medo comum (em cair, em não conseguir) e os códigos do terror. Pesquisador no cinema de gênero, o cineasta permite que a tensão do jovem protagonista cresça através de pequenas metáforas noturnas, de algumas luzes azuladas, e elementos soturnos dispersos pela noite — até a aproximação de uma monstruosidade propriamente dita. O perigo de se machucar e não se descobrir à altura do desafio se equipara, portanto, ao pavor de cair nas garras do inimigo.
As menções são tão seguras quanto discretas. Souza jamais permite que a fábula enverede por sons e imagens perturbadores, posto que se atém à perspectiva infantil. Neste caso, a memória afetiva e a perspectiva lúdica da infância atenuam a possibilidade de consequências duradouras para os atos de Leo. Em equilíbrio com a metáfora do apavoramento, constrói-se um drama doce a respeito do pai cuidando do filho pequeno e da filha mais velha, com carinho e atenção.
Neste sentido, o roteiro dedica tempo considerável a apresentar a intimidade dos familiares, o bairro onde moram, as pequenas implicâncias entre pai e filha (e vice-versa). Poucos curtas-metragens mergulham com tamanha desenvoltura na crônica do cotidiano, percorrendo as ruas e investigando a geografia da casa. Compreende-se que eles estão diretamente associados ao espaço que ocupam.
Além disso, Rodinhas surpreende pelo refinamento de fotografia, montagem e som. A excelente cena de abertura é composta por fragmentos abrangentes dos personagens e sua vizinhança, com um esmero particular na composição dos planos, no tratamento de luz e na construção de ritmo. Mesmo o trabalho gráfico de letreiros salta aos olhos. Nenhum curta-metragem apresentado na Mostra de Cinema de Fama demonstrou igual refinamento de linguagem cinematográfica.
Ainda mais inesperado é o uso de planos extremamente próximos dos olhos e dos detalhes da bicicleta no momento de domar o veículo. Souza ainda incorpora pequenos fragmentos aparentemente desconexos, tal qual a sequência de super-heróis (“Venha, jovem, não há tempo para explicações!”), que sublinham a ternura do pai enquanto tornam verossímeis os laços no interior desta família. Poucos jovens cineastas se arriscam em tal quebra de ritmo num projeto clássico-narrativo. O diretor demonstra uma maturidade impressionante.
Para coroar o resultado, Átila Bee comanda bem as suas cenas, com tranquilidade e despojamento, em estilo bastante diferente daquele encontrado em Malu. O versátil ator entende que as situações estão suficientemente claras em termos de intenções e simbologias, o que dispensa, portanto, a necessidade de reforçar de maneira exemplar ou idealizada os cuidados deste pai. É difícil atingir tamanha simplicidade e senso de pertencimento em frente às câmeras — sinal de um ator versátil, e permeável aos direcionamentos específicos do diretor.
Pode-se apontar que Rodinhas pudesse ir ainda mais longe na manifestação do sobrenatural, ou conferir indícios suplementares para detalhar a psicologia do garotinho emudecido. No entanto, ele domina uma rara cartilha cinematográfica entre o cinema clássico e a abordagem autoral; entre a segurança do drama de personagens e os riscos da linguagem do horror. Este é um mérito significativo.




