Ladrões (2025)

Um herói bem americano

título original (ano)
Caught Stealing (2025)
país
EUA
gênero
Ação, Comédia, Policial
duração
107 minutos
direção
Darren Aronofsky
elenco
Austin Butler, Zoë Kravitz, Regina King, Matt Smith, Liev Schreiber, Vincent d’Onofrio, Bad Bunny, Carol Kane, Nikita Kukushkin, Yuri Kolokolnikov
visto em
Cinemas

É fácil nos identificar com Hank (Austin Butler). O jovem barman leva uma vida precária em seu apartamento minúsculo, num bairro perigoso da cidade. Ele é descrito pelo roteiro como um rapaz esforçado, que sempre liga para a mãe, cuida bem dos clientes, e se importa com a namorada Yvonne (Zoë Kravitz). Em paralelo, carrega um trauma, pelo fato de ter interrompido a carreira promissora no beisebol devido a um acidente de carro. Com o joelho comprometido, precisou abandonar o esporte. Mesmo assim, Hank segue em frente.

No entanto, Ladrões investe em alguns dos pressupostos mais convencionais do cinema de ação — no caso, a jornada de Davi contra Golias; a trajetória de um contra todos; e o périplo do sujeito comum qualquer que, por acaso, se envolve com um sistema muito mais perigoso do que ele poderia imaginar. Graças a um vizinho de moral dúbia (Matt Smith), o protagonista é tragado para uma disputa entre perigosos gangsteres em busca de uma grande quantia de dinheiro, escondida em algum local da cidade. Em questão de dias, ele será perseguido, agredido e ameaçado. Várias pessoas ao seu redor são assassinadas para se provar a obstinação dos adversários.

Uma investida inesperadamente modesta enquanto visão de mundo, para criadores que sempre insistiram em ser vistos como enfants terribles do cinema-industrial-de-autor.

O longa-metragem trabalha com tipos, ao invés de personagens dotados de subjetividades específicas. Entre os inimigos, existem os hassídicos (Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio); os punks; os policiais corruptos, os bandidos russos e os bandidos latinos (Bad Bunny, limitado a este tipo de papel em suas participações no cinema). Eles ostentam a representação mais básica, mesmo caricatural, do imaginário relacionado a estes grupos: os judeus sempre vestidos com os trajes religiosos, o punk ostentando o cabelo moicano, as jaquetas jeans e as tatuagens esperadas, os russos com uma mancha assustadora no rosto, e assim por diante. 

Partindo do livro original e do roteiro, ambos escritos por Charlie Huston, o diretor Darren Aronofsky reúne estas ilustrações da alteridade, do outro, pela perspectiva do norte-americano padrão (branco, loiro, antigo atleta da escola). O filme se abre com um extenso passeio pelo bairro sujo, repleto de pichações, onde a violência corre sem qualquer forma de responsabilização dos criminosos. Por isso, cada homem está abandonado à própria sorte, e precisa resolver seus problemas sozinho. Não adianta procurar a polícia, as autoridades locais, nem reunir amigos e conhecidos. Você acabou de perder um rim devido a uma agressão brutal dos capangas? Paciência. Saia correndo, escale os prédios por fora da janela. Dê seu jeito.

Como se percebe, Ladrões opera a partir da lógica da inconsequência. Diversas pessoas morrem neste percurso (o filme quase termina por falta de personagens), no entanto, ninguém tem tempo de lamentar por aqueles que caem no percurso — muito menos o olhar da direção. O humor decorre tanto do absurdo dos acontecimentos quanto da maneira como são superados, e passados à próxima fase. Hank efetua sucessivas apostas e alianças, apenas para descobrir que seus novos parceiros não são tão confiáveis quanto imaginava. O fetiche do submundo opera justamente nesta ilusão de um mundo distópico, sem regras. Então, qualquer explosão, tiroteio, perseguição de carros ou a pé, está permitida. Para roteiristas criativos, este é um prato cheio.

Diversas pessoas têm estranhado a presença de Aronofsky neste projeto no qual não se encarregou do roteiro, e que soa tão diferente de suas empreitadas anteriores. Afinal, o cineasta é conhecido por filmes soturnos, nos quais os personagens sofrem calvários agonizantes para transmitirem um alerta a respeito da nossa falência enquanto sociedade. Ora, o novo filme representa o avesso desta mão pesada e olhar alarmante sobre os tempos atuais. Trata-se de uma narrativa solar, na qual os inúmeros obstáculos se resolvem de maneira quase mágica, enquanto o roteiro-destino conspira a favor do barman ordinário neste mundo de obstáculos. O discurso é cuidadosamente elaborado para que o personagem central efetue seu luto pelo acidente no passado e, através desta corrida por sobrevivência, encontre uma forma de se reinventar e seguir adiante. 

Seguindo a lógica clássica da redenção, os criadores estimam que, quanto mais grave for a travessia, e quanto mais ele se afundar neste contato com a brutalidade das ruas, maior será sua purificação a seguir. A ideia de que ele precisa sofrer para ser perdoado, e precisa conhecer o fundo do poço para ganhar a chance de se tornar um “cidadão de bem” novamente, corresponde a uma ideia bastante próxima dos valores cristãos. O fato de colocar o jock branco da América profunda na condição de herói contra latinos, russos, negros, punks e extremistas religiosos tampouco favorece uma leitura particularmente progressista deste ideal de limpeza social praticado, à revelia, por Hank.

Pelo menos, Ladrões demonstra um controle seguro da mise en scène. Desde a curta abertura, num jogo de beisebol, é perceptível o domínio de Aronofsky e seu tradicional diretor de fotografia, Matthew Libatique, dos espaços e da dinâmica de cena. A sequência com Austin Butler fugindo pela lateral do prédio, e correndo pelas vielas e comércios, demonstra a beleza de uma simples cena de ação quando bem enquadrada, composta e montada. As perseguições dentro dos carros, seja com a policial, seja com os mafiosos judeus, também demonstram um controle inesperado para o humor de situações.

A surpresa decorre do fato que, desta vez, não estejam transmitindo uma mensagem ameaçadora a respeito da solidão, da busca pela fama, da pressão sobre as mulheres, da corrupção dos valores bíblicos, etc. O projeto opera a partir de um material simples, de preocupação ínfima com a psicologia dos personagens, com as relações de causa e consequência, e com a verossimilhança de inúmeras situações (vide as guinadas do terço final). Pode-se falar numa investida inesperadamente modesta enquanto visão de mundo, para criadores que sempre insistiram em ser vistos como enfants terribles do cinema-industrial-de-autor (caso algo do tipo seja realmente possível). Agora, eles se contentam com uma diversão pouco memorável, e consciente disso. Caso esta seja uma guinada positiva ao cineasta associado aos filmes bastante pretensiosos, caberá ao espectador julgar.

Ladrões (2025)
6
Nota 6/10

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