
A princípio, este pode parecer apenas um encontro gay às escondidas — uma pegação no mato, ou um banheirão inconsequente. Com um pequeno sorriso, o homem calvo atrai seus parceiros para um canto isolado, onde logo pratica sexo oral no parceiro. A intensidade e frequência da sucção aumenta, com generosos sons indicando a boca em ação. As vítimas gemem, se entregam. No dia seguinte, são encontradas na forma de uma pele vazia, asquerosa, misturada a secreções e viscosidades. As entranhas se foram, sugadas por este parceiro dedicado.
As cenas de morte em Mamántula impressionam por alguns aspectos. Em primeiro lugar, porque as vítimas se entregam ao agressor, ignorando o destino trágico que as aguarda. De qualquer modo, o vilão nunca precisa correr atrás de ninguém, somente seduzir seus alvos. Em segundo lugar, porque essas pessoas cujas vísceras são literalmente sugadas pelo pênis aparentam ter o maior prazer de suas vidas, algo que jamais acreditavam ser possível. Devido ao teor (voluntariamente) exagerado das atuações, e ao trabalho sonoro comicamente acentuado, o monstro assassina suas vítimas de tanto prazer. Morreram durante o melhor orgasmo possível.
Existe um teor belo, e estranhamente poético, nestes encontros amorosos consensuais (e deliciosos para ambas as partes) entre predador e vítima.
Esse modus operandi original dos ataques suscita uma mistura de comicidade e choque diante do média-metragem. O diretor Ion de Sosa brinca com a ironia de o predador ser um Homem-Aranha, em conotação bastante diferente do habitual super-herói. Ao invés de usar sua teia para se pendurar em prédios e salvar vítimas, utiliza-as metaforicamente para atrair aqueles que pretende, de maneira bastante literal, devorar. O princípio da pele abandonada também dialoga com o conceito de corpo sem órgãos de Deleuze e Guattari, porém, desta vez, literalmente esvaziado, e destinado a saciar o corpo do dominante. A postura ativa no sexo gay se converte na possibilidade literal de incorporar o passivo — um canibalismo sexual, digamos.
Se o sexo entre homens adquire um caráter fantástico, associado inclusive a esferas verde-neon e conversas secretas entre aranhas animadas, a narrativa se equilibra com uma metade policial de ares bem mais comportados. O cineasta ancora tamanho delírio camp na estrutura de uma simples investigação policial por parte de duas mulheres perturbada pela cena do crime. Elas fazem perguntas, entrevistam testemunhas, conversam com médicos e especialistas em aranhas. A profunda seriedade diante do absurdo acrescenta uma camada de comicidade à trama.
Logo, o aspecto queer parasita igualmente a metade “séria”. As duas policiais começam a se relacionar amorosamente, numa noite de sedução filmada por uma belíssima luz direcional e branca, de flash, em ângulo inabitual em plongée, sugerindo que tenham sido vistas ou gravadas à revelia. As partes trash e clássico-narrativa se encontram nesta tentativa de tratar a insanidade com verossimilhança, conduzindo esta caçada mortal segundo as regras esperadas de séries procedurais e filmes de caça a serial killers dos anos 1990. O fetiche se completa, inclusive, nesta cinefilia que combina o gênero (no sentido de masculino, feminino, etc.) com os gêneros cinematográficos (a comédia, a paródia, o erótico, o horror, o policial, o suspense).
É possível que o enfrentamento final à criatura soe anticlimático. Os segmentos entre Mamántula e o namorado, interpretado pelo diretor brasileiro Márcio Reolon, aproximam-se da normalidade e rompem com o faz-de-conta delirante elaborado até então. De qualquer modo, uma vez que o real se insere nesta bolha de gozo e mortes, ela mata o prazer, estraga a diversão, e reduz a monstruosidade a uma pobre criatura, exposta publicamente. Nada arruína o fetiche tanto quanto esta intromissão do cotidiano. Nos trechos naturalistas, as luzes são ainda mais frias, e a condução para de brincar. De fato, as cenas de sexo, com asco e provocação, limitam-se à primeira metade da narrativa. Na segunda parte, o filme cutuca os limites de sua teia até rompê-la, para, então, arrumar a casa. De Sosa cria uma bagunça pelo gosto de suspendê-la e reordená-la em seguida.
Por fim, Mamántula transpira um homoerotismo tão voraz quanto grotesco. O humor decorre precisamente da ideia de um prazer insensato, incontrolável, que se busca noite após noite, em clara suspensão das regras sociais. O ataque do animal disfarçado de humano ilustra a busca tão comum por uma excitação sempre maior, tal qual uma droga. O êxtase coincide com o fim da vida, como se, uma vez conquistado o objetivo tão procurado (o clímax transcendental), não houvesse motivos para seguir em frente. Existe um teor belo, e estranhamente poético, nestes encontros amorosos consensuais (e deliciosos para ambas as partes) entre predador e vítima.




