
Há um aspecto deslumbrante na imagem de uma mulher trans ou travesti de 100 metros de altura, percorrendo o Rio de Janeiro. Em sua deambulação, ela constitui uma presença tão engraçada quanto assustadora. A figura sustenta um misto de elegância e senso de afrontamento, enquanto o trabalho de som garante que cada passo abala as estruturas da cidade. Não parece existir ninguém como ela: trata-se do único monstro de sua espécie. A região inteira é sua, embora ela não apresente nenhuma motivação em particular. A mulher apenas caminha, ou melhor, desfila.
Trata-se, portanto, de uma monstruosidade não-ameaçadora — ao mesmo tempo, profundamente visível e despercebida por todos. Ninguém grita nas ruas, nem corre pelas avenidas ao avistá-la. Nem mesmo a artista admirada através da janela de um edifício se incomoda com o olhar gigantesco voltado à sua rotina. A protagonista desproporcional ocupa espaço demais, ou talvez não ocupe espaço nenhum. A dimensão lhe proporciona um poder do qual nunca desfruta: ela poderia fazer o que quisesse, e opta por não fazer nada. Provoca tremores de terra, porém, não destrói nenhuma estrutura por onde passa. Ela é leve e pesada, onipresente e discreta. Uma contradição ambulante.
Animais Noturnos escancara o ideal de corpos LGBTQIA+ ocupando espaços públicos. Os melhores momentos do curta decorrem desta performance lúdica entre corpo e espaço.
Animais Noturnos escancara o ideal de corpos LGBTQIA+ ocupando espaços públicos. Fala-se bastante acerca da invisibilidade de mulheres trans e travestis, e do fato de serem escanteadas dos principais centros urbanos. Aqui, a divina monstruosidade se engrandece a ponto de ultrapassar bairros em poucos passos. Ela se impõe sobre a região, decidindo a melhor atitude a tomar face aos passantes e veículos (escolhendo, por exemplo, não provocar um acidente de trem pela simples diversão do gesto). Além disso, pode observar os demais de cima, do alto, de uma posição hierarquicamente superior. O Rio de Janeiro lhe pertence.
Os melhores momentos do curta-metragem de Indigo Braga e Paulo Abrão decorrem desta performance lúdica entre corpo e espaço, entre cotidiano e excepcionalidade. Infelizmente, a narrativa se torna menos potente quando excessivamente roteirizada. Uma vez inserida exposta a personagem da artista, e a conexão entre ambas, a monstra se diminui, literalmente. Perde sua singularidade, seu poder, seu ponto de vista. A performance de dança num bar soa mais comum, e menos expressiva, do que o caminhar estrondoso por cima de avenidas. A super-heroína (ou super-vilã) se converte em mulher banal, face a uma segunda personagem cujas motivações ou sentimentos jamais se esclarecem de fato.
De certo modo, sua subjetividade se domestica — ao invés de explorar a fundo a conexão deste monstro com o espaço urbano, a narrativa prefere humanizá-lo. Por esse motivo, as imagens da segunda metade soam menos impactantes, ainda que se compreenda a tentativa de enxergar a gigantesca criatura para além de sua condição particular. O que resta na memória, sem dúvida, é a configuração da cidade como passarela, e dos prédios transformados em brinquedos para uma diva em perpétuo ócio. Existe luxo maior do que poder destruir uma cidade inteira, mas não fazê-lo? A monstruosidade está acima de tudo isso, literalmente. Ela desperta a impressão de uma figura que poderia interagir de incontáveis formas com outros espaços, outras macro-criaturas, outros sons e texturas. A trajetória desta heroína/vilã parece ter somente começado.




