Animais Noturnos (2024)

A cidade nos pertence

título original (ano)
Animais Noturnos (2024)
país
Brasil
linguagem
Experimental
duração
11 minutos
direção
Indigo Braga, Paulo Abrão
elenco
Indigo Braga, Azizi Cypriano
visto em
9ª Mostra Quelly (2025)

Há um aspecto deslumbrante na imagem de uma mulher trans ou travesti de 100 metros de altura, percorrendo o Rio de Janeiro. Em sua deambulação, ela constitui uma presença tão engraçada quanto assustadora. A figura sustenta um misto de elegância e senso de afrontamento, enquanto o trabalho de som garante que cada passo abala as estruturas da cidade. Não parece existir ninguém como ela: trata-se do único monstro de sua espécie. A região inteira é sua, embora ela não apresente nenhuma motivação em particular. A mulher apenas caminha, ou melhor, desfila.

Trata-se, portanto, de uma monstruosidade não-ameaçadora — ao mesmo tempo, profundamente visível e despercebida por todos. Ninguém grita nas ruas, nem corre pelas avenidas ao avistá-la. Nem mesmo a artista admirada através da janela de um edifício se incomoda com o olhar gigantesco voltado à sua rotina. A protagonista desproporcional ocupa espaço demais, ou talvez não ocupe espaço nenhum. A dimensão lhe proporciona um poder do qual nunca desfruta: ela poderia fazer o que quisesse, e opta por não fazer nada. Provoca tremores de terra, porém, não destrói nenhuma estrutura por onde passa. Ela é leve e pesada, onipresente e discreta. Uma contradição ambulante.

Animais Noturnos escancara o ideal de corpos LGBTQIA+ ocupando espaços públicos. Os melhores momentos do curta decorrem desta performance lúdica entre corpo e espaço.

Animais Noturnos escancara o ideal de corpos LGBTQIA+ ocupando espaços públicos. Fala-se bastante acerca da invisibilidade de mulheres trans e travestis, e do fato de serem escanteadas dos principais centros urbanos. Aqui, a divina monstruosidade se engrandece a ponto de ultrapassar bairros em poucos passos. Ela se impõe sobre a região, decidindo a melhor atitude a tomar face aos passantes e veículos (escolhendo, por exemplo, não provocar um acidente de trem pela simples diversão do gesto). Além disso, pode observar os demais de cima, do alto, de uma posição hierarquicamente superior. O Rio de Janeiro lhe pertence.

Os melhores momentos do curta-metragem de Indigo Braga e Paulo Abrão decorrem desta performance lúdica entre corpo e espaço, entre cotidiano e excepcionalidade. Infelizmente, a narrativa se torna menos potente quando excessivamente roteirizada. Uma vez inserida exposta a personagem da artista, e a conexão entre ambas, a monstra se diminui, literalmente. Perde sua singularidade, seu poder, seu ponto de vista. A performance de dança num bar soa mais comum, e menos expressiva, do que o caminhar estrondoso por cima de avenidas. A super-heroína (ou super-vilã) se converte em mulher banal, face a uma segunda personagem cujas motivações ou sentimentos jamais se esclarecem de fato.

De certo modo, sua subjetividade se domestica — ao invés de explorar a fundo a conexão deste monstro com o espaço urbano, a narrativa prefere humanizá-lo. Por esse motivo, as imagens da segunda metade soam menos impactantes, ainda que se compreenda a tentativa de enxergar a gigantesca criatura para além de sua condição particular. O que resta na memória, sem dúvida, é a configuração da cidade como passarela, e dos prédios transformados em brinquedos para uma diva em perpétuo ócio. Existe luxo maior do que poder destruir uma cidade inteira, mas não fazê-lo? A monstruosidade está acima de tudo isso, literalmente. Ela desperta a impressão de uma figura que poderia interagir de incontáveis formas com outros espaços, outras macro-criaturas, outros sons e texturas. A trajetória desta heroína/vilã parece ter somente começado.

Animais Noturnos (2024)
6
Nota 6/10

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