
Quando um crime transfóbico assola a cidade, apenas uma jornalista travesti é capaz de desvendar o que realmente aconteceu. (Ou talvez ela seja a única a demonstrar interesse suficiente em revelar a verdade). Este é o ponto de partida de Fabulosas: Operação Aranha, filme que coloca mulheres trans na condição de protagonistas, ajudando umas às outras de modo a preencher uma lacuna do Estado. Na falta de segurança e direitos a estas mulheres, acabando se tornando suas próprias heroínas.
A direção de TH Fernandes e Lua Lamberti mergulha tanto numa atmosfera kitsch, de ares cômicos (vide o exuberante telefone fixo coberto de pedrarias, ou o sutiã-cinto da trabalhadora do sexo) quanto no suspense noir clássico. Neste aspecto, imagina conversas ocorrendo na calada da noite para encontrar o assassino, enquanto se narra a possível existência de uma criatura dotada de um focinho… O aspecto realista, referente aos ataques a pessoas trans e travestis, integra uma rede de fantasia muito mais ampla onde se combate, em última instância, a monstruosidade do patriarcado.
O que mais chama atenção nesta atmosfera de suspense diz respeito às imagens escuríssimas.
No entanto, o que mais chama atenção nesta atmosfera de suspense diz respeito às imagens escuríssimas. Compreende-se que o gênero apele a cenas no escuro. É comum encontrar, nos thrillers, escritórios à meia-luz e conversas sinistras no parque. No entanto, os ambientes se tornam escuros até demais. Ressente-se a falta de focos de luz pensados para o rosto das atrizes e os elementos de cenário e figurino. Seria plenamente possível registrar a conversa no banco externo de maneira a iluminar apropriadamente os rostos, além de sugerir um escritório na penumbra sem literalmente mergulhar o conjunto num escuro indistinto.
Da maneira como corpos e espaços foram captados, nem a composição do elenco (a expressividade dos rostos e a corporalidade), nem a direção de arte é valorizada a contento. Até a casa da irmã resulta inexplicavelmente sombria, com crianças brincando na penumbra da sala de estar. Em paralelo, o impacto do gelo seco na parte externa (elemento comum da sugestão de medo no cinema de terror) é minimizado graças à escolha bastante particular de iluminação.
Em paralelo, os elementos da investigação são incorporados ao roteiro sem uma exploração aprofundada dos símbolos. A criatura com o focinho, o bebê-buquê sendo embalado numa espécie de performance, e as fontes e vivências da prostituta necessitariam maior atenção pela trama. A solução encontrada para o mistério se mostra tão justificável, em termos políticos, quanto pouco plausível enquanto resultado da magra apuração conduzida pela detetive. Em outras palavras, o curta sabe exatamente o que pretende denunciar, mas se perde um pouco em como fazê-lo, a partir das amplas possibilidades do cinema de gênero.
Resta uma disposição bastante saudável em reinventar papéis para pessoas trans, e em fabular formas de violência sem necessariamente reproduzi-las em imagens. Fabulosas: Operação Aranha possui uma clareza ética importante a respeito do que mostrar e do que sugerir, e de qual mensagem transmitir a partir da fantasia. Falta somente maior polimento na utilização de símbolos e nas escolhas estéticas, para que o discurso chame mais atenção para si mesmo do que as escolhas pontuais de um ou outro departamento criativo.




