
“Este filme foi aprovado pela Angel Guild”, afirmam os letreiros iniciais. Para quem não se lembra, Angel Studios é uma produtora que cresceu rapidamente através de obras familiares, muitas delas de caráter cristão e conservador. No seu catálogo se encontram o infame Som da Liberdade, além de diversas adaptações bíblicas em animação e live action. Em paralelo à produção cinematográfica, os produtores criaram a Angel Guild, uma associação com mais de um milhão de membros (de acordo com dados próprios). Estes possuem o poder de escolher quais projetos serão filmados, em respeito aos valores pregados pela empresa — ou seja, segundo a percepção de moral e bons costumes. Isso confere aos espectadores um senso de autoria e participação na criação cinematográfica.
Portanto, o selo de obra “aprovada” à realização (como se cineastas e produtores estivessem submetidos ao acolhimento prévio dos espectadores, trabalhando sob demanda, para eles) desperta reticências. O fato é que, para um longa-metragem realizado dentro de um contexto tão particular, Desenhos não condiz com a expectativa de uma obra direitista, pregando o mantra de tradição, família e propriedade. Certo, é difícil identificar pautas particularmente progressistas na trama. Em contrapartida, discursos reacionários tampouco dão as caras neste feel good movie a respeito do luto.
Apesar de chegar a conclusões de um otimismo redutor, o caminho até a conciliação se mostra particularmente respeitoso da psique infantil.
No caso, o diretor e roteirista Seth Worley imagina uma família em processo de luto pela mãe e esposa. A filha Amber (Bianca Belle) começa a fazer desenhos particularmente sombrios, envolvendo assassinatos e criaturas obscuras, para a inquietação do pai Taylor (Tony Hale) e dos professores. De maneira bastante madura, os adultos chegam à conclusão de que seria melhor encorajar a garota a desenhar, para exteriorizar no papel seus sentimentos confusos. Enxergam neste gesto uma prática terapêutica saudável, apesar do conteúdo assustador dos rabiscos. Na visão do filme, esta atitude ainda seria melhor do que aquela praticada por pai e filho pequeno, que se recusam a tocar no assunto.
Então, subitamente, o roteiro recorre a uma magia simples: ao lado da casa existe um lago de cor azul forte, capaz de transformar os desenhos em monstros reais. É bastante curioso que ninguém questione a presença deste portal entre o real e sua representação. Os personagens simplesmente descobrem que as águas existem e as utilizam com parcimônia. Nunca estudam seu funcionamento, nem as testam até as últimas consequências. Parte do aspecto lúdico da obra reside na aceitação de uma magia extraordinária envolta na aparência de um acontecimento cotidiano qualquer. O generoso lago tampouco exige nenhuma forma de conhecimento ou técnica para utilizá-lo. Tal qual um gênio da lâmpada, simplesmente se dedica a converter sonhos em realidade — com a vantagem, neste caso, de concretizar infinitos desejos.
Isso significa que, uma vez transportados à vida, em ampla escala (seja em tamanho exagerado, seja em quantidade expressiva), os monstros perturbam uma sociedade inteira. Por esta ótica, os pensamentos obscuros que afetam uma pessoa dizem respeito à toda a comunidade, surtindo efeito imediato nos demais. Logo, a saúde mental de um indivíduo seria da responsabilidade de todos. Trata-se de um curioso ponto de vista, partindo de um roteiro repleto de psicólogos, assistentes sociais e figuras cuidadoras em geral (a exemplo da tia e do próprio pai). Todos eles, inclusive o irmãozinho Jack (Kue Lawrence), se sentem responsáveis pela felicidade e sanidade mental de Amber.
Desenhos se sobressai na materialização da fantasia. Isso porque, apesar do orçamento visivelmente restrito, ele apresenta criaturas competentes em termos de efeitos visuais, luz e som (aspectos fundamentais para a verossimilhança destes seres). É certo que, na hora de interagir com as crianças, as aranhas-olhos se provam excessivamente artificiais, sem peso, transparecendo a inserção digital em pós-produção. No entanto, quando os grandes monstros se encontram na floresta e nas estradas, cumprem a contento sua função de esfregar na cara dos adultos o peso e a importância das preocupações de uma menina.
Além disso, trata-se de seres desenhados em guache, giz ou caneta, razão pela qual os traços grosseiros ou desproporcionais se justificam pela lógica infantil. Por um lado, é óbvio que a tinta vermelha oferece uma constante alusão ao sangue (e surpreende que esta escolha tenha sido aprovada pela Angel Guild). Por outro lado, há um caráter afetuoso no fato que os bichos possam ser combatidos com água, no caso dos desenhos a caneta, e com fogo, diante das ilustrações a base de giz de cera. Isso afasta da narrativa o recurso de armas e outros enfrentamentos próximos do real. Até tentáculos desenhados entram em cena, para sugerir um combate fantasioso aos adversários — além de nos lembrarem que a monstruosidade constitui uma parte inerente da pequena protagonista.


No que diz respeito à direção, Worley aposta numa cartilha convencional até demais. Quando pai e filhos se encontram à mesa, ele investe em planos e contraplanos acadêmicos. O retorno do pequeno Bowman à casa e outras cenas que exigem dinamismo apresentam evidentes problemas de mise en scène e montagem. Diante da necessidade de explicar algo ao espectador, o cineasta simplesmente solicita que as crianças revelem o conteúdo (as cinzas da mãe, o prato colado) diretamente à câmera, sem qualquer motivo narrativo para os personagens abrirem as mochilas naquele contexto. Em paralelo, investe em gags cômicas para atenuar tanto o drama quanto o suspense — caso do pai estragando as visitas de possíveis compradores à casa.
“Você não é uma pessoa ruim só porque fez desenhos diabólicos”, explica um diálogo, sintetizando a mensagem do filme na totalidade. O projeto enxerga o luto enquanto momento delicado, de compreensão progressiva, que necessita acolhimento e afeto, longe de julgamentos morais. Ironicamente, ele defende a tese de que seria preciso separar o autor da obra, ou ainda, de que nós não somos aquilo que produzimos, embora as criações obviamente dialoguem com a subjetividade de seus artistas. Trata-se de um olhar empático, ainda que simples e previsível — é óbvio que a família se fortalecerá e o problema será solucionado por meio do amor. Apesar de chegar a conclusões de um otimismo redutor, o caminho até a conciliação se mostra particularmente respeitoso da psique infantil.



