
No livro O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995), o astrônomo Carl Sagan explica que toda ciência vem popularmente acompanhada de sua versão simplificada e desprovida de comprovação científica — uma pseudociência, em suas palavras. Algo falho, impreciso, mais voltado à fé e à vontade de crença do que a um fato verificável. Para a astronomia, existe a astrologia. Para a química, a alquimia. Para a psicologia, a autoajuda. A Vida de Chuck condensa estes dois movimentos num mesmo filme: por um lado, reúne diversos pensamentos da ciência e da filosofia, e por outro, entrega-se às lições simplificadoras da autoajuda.
Ora, a referência a Sagan se justifica pelo fato de o próprio filme citá-lo diretamente. O roteiro de Mike Flanagan, escrito a partir do conto de Stephen King, parte da ideia de que nossa existência seria ínfima em escala universal. Perto de tamanhos acontecimentos no cosmos, a exemplo do nascimento e da morte de estrelas, a passagem de um único indivíduo pela Terra representaria um ato banal, incapaz de alterar a ordem superior das coisas. Existe um niilismo saudável na crença que, ao invés de nos preocupar com nosso legado ou o afeto dos outros, deveríamos perceber a vantagem de não precisarmos nos inquietar com tais problemas. Viver sem esta responsabilidade seria libertador.
Chega a ser curioso que um filme tão dedicado à ciência possa ser simultaneamente fabular e religioso. A Vida de Chuck é um filme concebido para ser uma obra-prima de celebração à vida, ao amor, à família, e a qualquer outro grande termo ou valor que se desejar.
Em contrapartida, nossa pequenez face às galáxias serve igualmente para o longa-metragem tecer comentários a respeito de como deveríamos viver. Onde o niilismo sugere uma positiva desimportância, a autoajuda enxerga, em chave oposta, uma hipervalorização de nossa existência. “Você é uma maravilha singular, amor”, Chuck (Tom Hiddleston) declara à esposa. “Vou viver a minha vida até que ela se acabe. Eu sou maravilhoso. Eu mereço maravilhas. E eu contenho multidões”. Ou seja, a partir da constatação verificável de nossa passagem efêmera pelo universo (ciência), chega-se à conclusão que a vida é preciosa, incrível, e de que seríamos igualmente especiais (pseudociência).
O filme oscila com destreza de um campo ao outro — algo que o torna ainda mais ardiloso em seu discurso. Às vezes, observa o céu com a curiosidade do astrônomo, porém, em outros momentos, utiliza noites estreladas e sequências de pôr do sol para sugerir um momento engrandecedor. Em determinadas cenas, toma a matemática enquanto metáfora de uma verdade imutável, no entanto, em seguida, sugere que a habilidade para o cálculo faria do pequeno Chuck uma criatura sublime. Por um lado, materializa a catástrofe climática na forma de uma possibilidade muitas vezes apontada por cientistas, e por outro, utiliza a proximidade com a morte (graças ao caos global e à doença de Chuck) para permitir que o herói declare seu amor aos demais. O fim do mundo se torna uma ótima oportunidade para redenção.
Assim, chega a ser bastante curioso que um filme tão dedicado à ciência possa ser simultaneamente fabular (o terço inicial, com as placas de “Obrigado, Chuck” espalhadas pela cidade) e religioso. O projeto inteiro sustenta a aparência de um drama cristão a respeito do valor à vida, no que se incluem tanto a importância do amor romântico (heterossexual e cisgênero) quanto os toques de Carpe Diem. A narrativa evita ao máximo as menções diretas ao cristianismo, até não se segurar e sugerir que o personagem, sofrendo com dores decorrentes do câncer, se questiona “por que Deus fez o mundo”. A percepção de que existe algo maior do que nós pode desembocar numa resposta voltada ao universo (ciência) ou então a alguma divindade (fé). O discurso abraça a ambos.
Esta espécie de dualidade faz com que A Vida de Chuck possua um teor particular. Flanagan adocica diversas cenas, introduzindo bastante trilha sonora tristonha, recursos bastante artificiais de iluminação, e uma direção de arte idealizada, apoiada em cidades claramente construídas em estúdio. Em contrapartida, alguns diálogos são mordazes, impiedosos, repetindo o mantra “Que merda” diante da eminência do fim do mundo. O tom de voz sarcástico de Nick Offerman também atribui malícia à condução da narrativa. Embora ele fale até demais (sobretudo no Ato II), ajuda a desconstruir uma expectativa de generosidade e bom-mocismo por parte do protagonista. Este é um filme “que celebra a vida”, segundo uma citação incluída no trailer, mas que também sabe mandar os desafetos ao inferno.
Uma sequência exemplifica bem esta indefinição de tons — ou melhor, a tentativa utópica de conciliar os olhares piedoso e impiedoso. Ao se deparar com uma baterista tocando na rua, Chuck se empolga e começa a dançar, na frente de todos. As pessoas param, acompanham o movimento, o que aumenta a temperatura tanto de sua dança, quanto do ritmo orquestrado pela artista. Trata-se de uma magia típica dos musicais, uma forma de parêntese da vida habitual. A fantasia que se afasta do real para melhor analisá-lo.
Entretanto, assim que a sequência acaba, os personagens passam dez minutos comentando o que acabou de acontecer: Por que você parou? Por que dançou? Sempre soube dançar assim? Com quem aprendeu? Quer parte do dinheiro arrecadado? Que tal dançar de novo, em outros lugares? O real se intromete de tal modo no encantamento que termina por sabotá-lo. Enquanto cada instante racional-lógico se confronta a uma conclusão piegas e lacrimosa; cada deslumbre provocado pelo realismo fantástico se rompe graças à intromissão forçada do real. Isso vale para os apagões, para os painéis de “Obrigado, Chuck”, para as piadas com PornHub e afins. Flanagan deseja que este conteúdo seja tão leve quanto grave, tão profundo quanto desimportante, tão paródico quanto emocionante. A conta nem sempre fecha.


O mesmo pode ser dito do sótão da casa onde o menino cresce. Este ambiente é tratado ora pelas ferramentas do terror, ora pelo drama, e às vezes pela magia e o melodrama. O espaço é sobrecarregado de estímulos, símbolos e sensações. Este é um pequeno espaço onde se enxerga a vida e a morte, de si e dos outros. Corresponde a uma lembrança do pai e da própria infância; um lugar do qual ter medo e esperanças — mas também abnegação, dúvidas, consciência de sua pequenez e de sua profunda importância em relação ao universo. A Vida de Chuck é um filme concebido para ser uma obra-prima de celebração à vida, ao amor, à família, e a qualquer outro grande termo ou valor que se desejar.
Ora, obras-primas são raramente programadas para funcionar enquanto tais. A atribuição chega a posteriori, pelo olhar de terceiros. Este caráter ultra calculado, tentando agradar a todos, apelar a todas as sensibilidades, crenças e visões de mundo, faz com que a obra dialogue um pouco com cada um, mas com ninguém em profundidade. Muitas vezes, o cinema de risco (e também de recompensa) é aquele capaz de adotar um ponto de vista, um posicionamento firme (estético e político) até o fim. Ora, esta iniciativa seria o equivalente de um centro político — uma postura “nem um, nem outro”, sugerindo que precisamos apostar em conciliações intermediárias entre ciência e fé, entre tradição e modernidade. Todos precisariam ceder um pouco. Mas quem acredita em tudo, no final, não acredita em coisa nenhuma.




