
Onde se traça o limite da verossimilhança num filme? A partir de qual momento os artifícios da ficção deixam de ser toleráveis, tornando-se difíceis de acreditar? No caso de um filme de tubarões, envolvendo um perverso assassino em série, o quanto de liberdade poética é considerado divertido, favorecendo a imersão na trama, e quando se determina que os criadores passaram dos limites? Esta pergunta vem à mente diante de Animais Perigosos. Na sessão de imprensa, diversos colegas riam ao longo da trama. Depois, saíram indignados, reclamando de uma trama “absurda demais”.
Ora, os criadores afirmam desde a primeira cena que as coisas terminarão mal para os protagonistas. Mencionam-se “iscas vivas” para alimentar os bichos, enquanto Bruce Tucker (Jai Courtney) ostenta de imediato a expressão de um sujeito maníaco e perigoso. Ao aceitar o dinheiro de uma dupla solitária para o mergulho dentro de uma gaiola, ele pergunta, com ares sinistros: “Então ninguém sabe que vocês estão aqui?”. Ambos serão rapidamente perseguidos e, de certo modo, punidos por sua ingenuidade. O terror adora recompensar as pessoas gentis ou crédulas demais com uma morte violenta — alertando ao espectador a respeito dos perigos de agir de maneira semelhante.
O diretor Sean Byrne deseja mostrar que seres humanos podem ser muito mais cruéis do que as gigantescas criaturas no mar.
A linguagem cinematográfica acompanha a assumida falta de gentileza. Os efeitos sonoros de susto e antecipação são altíssimos — talvez para despertar o espectador sonolento, ou que esteja olhando para a tela do celular. Assim, caso não se espantem com animais famintos e pescadores psicopatas, despertarão pelo estímulo primário da banda sonora gritando aos ouvidos. Seguem-se imagens de tubarões deslizando em direção à câmera, e de Bruce dançando em comemoração a uma nova morte bem-sucedida, enquanto a mocinha ingênua, Heather (Ella Newton), choraminga quando está prestes a ser devorada: “Eu quero a minha mãe!”. Instaura-se uma oposição violenta entre o sujeito monstruoso e a moça dócil até demais — uma Chapeuzinho Vermelho face ao lobo, ou a Maria do conto diante da bruxa. O longa-metragem atualiza o embate de forças típico das fábulas infantis.
O discurso tampouco faz surpresa a respeito de seu discurso. Partindo do roteiro de Nick Lepard, o diretor Sean Byrne deseja mostrar que seres humanos podem ser muito mais cruéis do que as gigantescas criaturas no mar. Os verdadeiros “animais perigosos” dos títulos nacional e internacional são, na verdade, os seres humanos que se devoram pela mera possibilidade de fazê-lo. “Você e eu somos tubarões”, Bruce explica a Zephyr (Hassie Harrison), a garota combativa, e verdadeira protagonista da história. “Somos criaturas solitárias. A gente se vira sozinhos”. Caso algum espectador ainda não tenha percebido a relação reiterada entre humanos e animais irracionais, os diálogos tratam de explicitá-la.
Os problemas se encontram menos na quantidade (expressiva, de fato) de recursos facilitadores e absurdos de roteiro, do que na tentativa de homenagear mulheres através do sofrimento. O longa-metragem admira em Zephyr sua profunda resiliência. Enquanto a colega de cativeiro é frágil e pouco inteligente, a surfista norte-americana encontra incontáveis maneiras de escapar ao cárcere — apenas para ser resgatada de novo, e de novo. A protagonista é torturada de diversas formas, sob pretexto de provar seu instinto guerreiro e vontade de viver. Em consequência, o projeto se assemelha ao torture porn, ou aos filmes de estupro e vingança, graças ao encantamento em estender, ao máximo, o calvário da jovem.
Este procedimento também sugere que a mulher precisa merecer a liberdade. Zephyr seria mais digna de sobreviver devido à combatividade superior àquela da colega. Neste momento, o olhar deste filme escrito, roteirizado, produzido, fotografado e montado por homens parece se filiar à perspectiva brutalizante do serial killer, deleitando-se com o corpo feminino sendo sequestrado, carregado, perfurado, mutilado e machucado por homens. Ora, a ideia de que mulheres fortes no cinema equivalem a figuras ferozes e quase animalescas (correspondendo ao ideal de virilidade defendido pelos homens) é contestado no cinema há décadas.
Atenção: alguns spoilers a seguir.
Além disso, seria fácil listar a quantidade de alternativas pouco coerentes encontradas pelos autores para prolongar o jogo de gato e rato. A maneira veloz com que Moses (Josh Heuston) descobre o paradeiro da protagonista, com ajuda de um aplicativo de celular, pode despertar boas risadas de escárnio. O mesmo vale para um arpão jogado “por acaso” a uma pessoa em perigo, a uma chave de fenda convenientemente à mão, a algumas cenas de nado em alto mar e ao comportamento “milagroso” de um tubarão. Os criadores estão menos preocupados em justificar as ações do que sustentar a tensão. Deste modo, soam como crianças que inventam histórias completamente improváveis com seus bonecos e carrinhos. Aos pequenos, pouco interessa o sentido da trama toda. A empolgação de imaginar conflitos e explosões se sobrepõe. Novamente, um raciocínio infantil determina esta forma de cinema.


Talvez por isso, Byrne e Lepard tenham tanta dificuldade em encerrar a história — se toda improbabilidade é aceitável, quando dizer “chega”? Assim, diversas possibilidades de conclusão são abortadas, para se retornar a um novo perigo, e anunciar mais uma ameaça no horizonte. Se os autores pudessem, prosseguiriam com a perseguição por horas, a partir deste brainstorming caótico. “Mas o filme é uma paródia das tramas de tubarões”, alegaram alguns espectadores e críticos. “Ele ridiculariza o gênero, e demonstra a falta de lógica das convenções”. É tentador resumir esse festival maniqueísta a um comentário metalinguístico.
No entanto, Animais Perigosos leva sua narrativa suficientemente a sério. Ele demonstra uma conduta mais autocondescendente (em estilo “A trama tem incoerências, mas paciência”) do que crítica. Apropria-se de carcereiros e encarcerados como se fossem fantoches de uma brincadeira inconsequente — as iscas vivas anunciadas no princípio. Neste sentido, mostra-se tão sincero quanto superficial. Assim como os personagens humanos e animais desta jornada, os diretores também agem por instinto, respeitando somente as regras hedonistas de seu próprio jogo, no qual mulheres atraentes e admiráveis são criaturas sobre-humanas, sofrendo, sangrando e voltando para mais luta. Determinam que a diversão cinematográfica deste predador-diretor, que filma as mortes e assiste às fitas enquanto devora o jantar, justifica o sofrimento da vítima.




