
Antes do assalto ao museu, James nunca havia roubado coisa nenhuma. A decisão de levar quatro quadros específicos decorre de sua paixão pelas artes plásticas (ele pendura um dos itens na parede da própria casa), e também da facilidade do gesto. Estamos em plena Guerra do Vietnã, e os norte-americanos estão mais preocupados com outras questões. Os guardas dormem pelas galerias do museu, e os visitantes passeiam entre devaneios e monólogos próprios. Ainda não há câmeras ou alarmes na época: basta pegar os quadros e partir. Mas como transformá-los em dinheiro? Esta pergunta, lançada um dos comparsas de James, é ignorada pelo “cabeça” do grupo. Talvez ele mesmo não saiba a resposta.
A escolha de um “filme de assalto” soa inusitada para Kelly Reichardt. Afinal, a grande cineasta está acostumada aos dramas intimistas, avessos à ação esperada para este subgênero. O tempo ágil, exigido tanto pela comédia quanto pela ação, está distante da melancolia que costuma atribuir a cada uma de suas cenas. Ao invés de personagens heroicos e exemplares, a artista sempre preferiu os solitários, os excluídos, os invisíveis. Ora, quando lembramos que Reichardt já investiu, à sua maneira, na aventura pela natureza (Old Joy, 2006) e no faroeste (O Atalho, 2010), podemos imaginar os contornos desta releitura pessoal sobre os prazeres do furto.
The Mastermind coloca James como vítima da própria ingenuidade. Ao final, o roubo se torna secundário neste filme-de-roubo.
Entra em cena Josh O’Connor, ator cujo aspecto letárgico tem encantado as cineastas propensas e desconstruir o cinema de gênero. Ele também mantinha negócios escusos com o mercado de arte no brilhante La Chimera (2023), de Alice Rohrwacher, e agora volta a sonhar entre quadros e viagens. O ator alto e magro minimiza os gestos e admira o horizonte, oferecendo um olhar doce onde normalmente se esperaria uma obstinação feroz. Este talvez seja o anti-Onze Homens e um Segredo: um grupo mambembe de ladrões amadores, desprovidos de um plano real, roubando quase por tédio. James não enfrenta problemas graves de dinheiro. Como insistem as pessoas ao redor, ele somente “não pensou nas coisas direito”. Roubou porque acreditou, num instante, ser capaz de fazê-lo. Simples assim.
A diretora retira do assalto a tensão inerente à pergunta-base “Será que vai dar certo?”, assim como a catarse da concretização do plano e o enriquecimento decorrente do mesmo. Enquanto os comparsas, pateticamente vestidos com meias-calças na cabeça, efetuam o roubo propriamente dito, James os espera dentro do carro, em frente ao museu — e a câmera o acompanha. O roteiro e a montagem (ambos assinados por Reichardt) gastam mais tempo explicando como os quadros serão guardados (em fronhas, e depois, em caixas, até o esconderijo cuidadoso num chiqueiro) do que retratando o furto em si. De certo modo, The Mastermind traz ao centro do palco tudo aquilo que o cinema hollywoodiano dispensaria na mesa de montagem.
Esteticamente, o longa-metragem também abraça a estética da contemplação. A belíssima fotografia de Christopher Blauvelt, parceiro habitual da diretora, opta por tons pastéis e uma luz leitosa, despertando a impressão de dias eternamente nublados. Ele contribui à impressão do tempo que não passa, materializando o clima generalizado de desesperança em meio ao cansaço da guerra que os Estados Unidos parecem perder. As conversas à meia-luz, no interior das casas, evitam fontes direcionais no rosto dos atores, embora mantenham os corpos e texturas devidamente iluminados. Existe um cuidado na textura da imagem, e na granulação, que nos leva de volta aos anos 1960 e inícios dos 1970, sem resultar na recriação ostensiva e vaidosa de tantos filme “de época”.
Enquanto isso, o espectador é posicionado à distância das ações e do protagonista. Seguimos a trajetória de James, porém, sem enxergar o mundo por sua perspectiva. Desconhecemos suas intenções e próximos passos. Permanecemos à margem de seus sentimentos quando, em plena fuga, começa a encontrar diversas mães com seus bebês, além de uma proliferação de quadros nas paredes dos hotéis e pousadas. Isso despertaria saudade pela esposa (Alana Haim) e os filhos, afastados enquanto ele resolve a crise pessoal? Ele se sente arrependido? Ora, nada indica uma tomada de consciência: o sujeito nunca estima ter cometido, de fato, qualquer crime sério. Juízes, advogados e instâncias moralizadoras são retiradas de cena. Mesmo os pais do jovem são escondidos por trás de um telefonema.
Por isso, nossa identificação é voluntariamente atenuada. Ao contrário do pressuposto de imersão dos heist movies, com suas guinadas aceleradas e gestos impulsivos, The Mastermind coloca James como vítima da própria ingenuidade. Em busca de acolhimento, ele procura os melhores amigos, que talvez lhe possam dizer que está tudo bem. A comovente conversa com Maude (Gaby Hoffman) numa cozinha, entre afeto e expulsão da casa, nos lembra os melhores momentos de Reichardt, em sua delicada balança de emoções — algo visto à profusão em First Cow e Wendy e Lucy, por exemplo. Estas pessoas falhas e tristes precisam muito de alguém que as enxergue e não as julgue. Não conseguem isso com os familiares, porém, obtêm tal tratamento por meio do olhar carinhoso da própria direção.


Ao final, o roubo se torna secundário neste filme-de-roubo. Trata-se do raro momento especial na vida de um homem ordinário, avesso à tomada de iniciativas e ao sentimento de conquista. O gesto irresponsável no museu constitui um ponto de virada para o sujeito inerte, vivendo num país inerte. Então, em seu enfrentamento simbólico da ordem das coisas (via furto, enquanto os cidadãos o fazem por meio de protestos na rua), ele começa a sofrer, lentamente, a queda iminente por suas ações. James nunca resiste de fato: trata-se de um anti-herói ciente da iminente derrocada. Por isso, lança-se à estrada como um andarilho, ao invés de um fugitivo. Pega a camisa de outro homem; rouba uma senhora. Durante alguns dias, o gentil bandido enfim vive, e cria esperanças a respeito de um futuro que lhe parecia imutável.
É possível que o resultado não figure entre os melhores filmes de Reichardt. Afinal, a barra instaurada pela própria cineasta era altíssima. No entanto, resta a impressão de que The Mastermind possa ser um destes filmes pequenos que crescem na memória, e permanecem vivos na forma de uma sensação, ao invés dos detalhes da trama. Interessa menos, afinal, o que acontece na história, do que o sentimento estranho de dormir num ônibus durante a fuga; de conversar com o amigo (John Magaro) sob o belo sol do amanhecer, e de contemplar a pintura valiosa que, por alguns minutos, ornou a parede de sua casa de classe-média. Trata-se de uma pequena rebeldia, tal qual o pré-adolescente que come sorvete escondido dos pais antes do jantar. Reichardt se sai melhor quando aposta nas pequenezas (vide First Cow), que lhe permitem explorar as ironias e magias do cotidiano. Seu trabalho cresce quando se confronta aos acontecimentos que, vistos de fora, podem parecer banais.




