Ruídos (2024)

Histeria coletiva

título original (ano)
Noijeu (2024)
país
Coreia do Sul
gênero
Horror
duração
93 minutos
direção
Kim Soo-jin
elenco
Lee Sun-bin, Han Soo-a, Kim Min-Seok, Ryu Kyung-soo, Jeon Ik-ryeong, Lee Hyoung-hoon, Baek Joo-Hee
visto em
Cinemas

Se você possui problemas com seus vizinhos, espere até descobrir o condomínio onde vivem os protagonistas de Ruídos. Os moradores deste edifício decadente jogam lixo pelas janelas e acumulam entulho no porão. Ameaçam-se com bilhetes na porta e uma faca em punho. Recebem a notícia de inúmeras mortes sangrentas e suspeitas no cômodo ao lado — algo que jamais lhes impede de seguir a rotina. Sobretudo, reclamam sem parar do barulho na unidade acima e abaixo, o que leva a gritos, confrontos, enlouquecimento (literal) e algumas das mortes mencionadas. As reuniões de condomínio são acaloradíssimas.

No centro desta história, a respeito de sons, encontra-se uma jovem surda. São curiosos os filmes que tratam a deficiência enquanto espetáculo, observando, por exemplo, uma pessoa surda enquanto heroína ou vítima — jamais como uma cidadã qualquer. Hush (2016), Um Lugar Silencioso (2018) e O Silêncio (2019) também constituem exemplos de obras que consideram deliciosa a oportunidade de utilizar a surdez enquanto bênção-e-maldição. No caso sul-coreano, Ju-young (Lee Sun-bin) sofreu um acidente na infância, que lhe privou da audição. Caberá à jovem se tornar detetive de uma trama envolvendo sons macabros que esgotaram a saúde mental da irmã e levaram ao seu desaparecimento. 

Ruídos aposta numa tensão permanente, porém artificial, maneirista, e pouco verossímil (mesmo para a lógica bastante flexível do horror sobrenatural).

Kim Soo-jin demonstra um prazer considerável em multiplicar os elementos de perturbação. Durante praticamente 80 minutos (da duração total de 93 minutos), sustenta-se o mistério completo a respeito da origem dos sons macabros, repletos de elementos estáticos, sussurros, risos e frases macabras. Eles provêm de cima e de baixo (os apartamentos 504, 604, 704 e 804 estão diretamente envolvidos no conflito), em horas aleatórias e, com frequência, são escutados somente por aqueles que perdem a razão. Os demais se esforçam em escutar as gravações, supostamente contendo provas das ameaças, para se depararem com o frustrante som do silêncio.

Ruídos insere sua protagonista em uma série de lugares-comuns do terror e suspense psicológico a respeito de heroínas solitárias. Ela logo se converte na mulher-sozinha-contra-todos, insistindo que a irmã pode ainda estar viva em algum local do edifício, contrariamente à indiferença de vizinhos e autoridades. Ela começa a escutar barulhos que ninguém mais ouve (graças ao aparelho auditivo), sendo tratada como louca por todos ao redor. Logo, o público é colocado na posição de cúmplice deste martírio — apenas nós sabemos que as agressões realmente ocorrem, e não decorrem da psique fragilizada de uma jovem com deficiência. A Rosemary de Polanski continua criando incontáveis herdeiras no subgênero do calvário feminino.

Incomoda, portanto, que a maternidade e o senso de proteção sejam associados de imediato à perda da razão. Como de costume, os personagens masculinos (o namorado, os policiais) se atêm à lógica e ao comedimento, enquanto as mulheres, principalmente se forem mães ou cuidadoras, convertem-se em monstros histéricos, hormonais, capazes de tudo (sobretudo assassinato) para defender a sua prole. Mesmo o vizinho potencialmente assassino se contém, e evita utilizar a faca que segura nas mãos. Já as mulheres fazem uso muito mais concreto das armas à sua disposição. O terror convencional, de propensão machista, adora colocar as mulheres na condição de protagonistas, contanto que se encontrem no ápice do descontrole emocional.

Logo, cabe às atrizes chorar, gritar, se desesperar, e fazer inúmeros sinais de “shhhhh” com os dedos, como convém à imagem promocional de suspenses a respeito de sons (e demais tramas sugerindo mulheres fatais e perigosas). O elenco se entrega com vigor a este exercício, sem medo do exagero beirando tons paródicos — afinal, a direção prefere a intensidade ao naturalismo. Quando entram em cena as criaturas malignas, elas serão tão breves quanto explícitas, observando diretamente a câmera (e o espectador), no intuito de provocar algum medo rápido. O banquete de estímulos visuais e sonoros jamais se mostra particularmente criativo.

Isso porque Kim Soo-jin aposta em vultos no final do corredor; pesadelos que convenientemente revelam traumas infantis ao espectador, e uma mocinha pouco inteligente que, diante de caminhos bifurcados, dispara a frase proibida dos filmes de perseguição: “Vamos nos separar!”. Ao menos, duas inovações consideráveis valem a menção. A primeira diz respeito à tradicional velha-oráculo — a bruxa sábia, de cabelos desgrenhados, que traz valiosas informações à protagonista —, sendo substituída por uma criança-oráculo, figura tão improvável quanto risível. De onde o menino teria extraído suas informações? A segunda reside na aposta em celulares sempre carregados após dias de uso, plenamente funcionais, com sinal perfeito e bluetooth impecável em qualquer parte do prédio, incluindo o porão. Seria o projeto patrocinado por alguma companhia de telefonia celular?

Uma vez revelado o vilão, numa sequência tardia e novelesca, nota-se o impulso do roteiro em nos oferecer um algoz (alguém para odiar) que, entretanto, jamais justifica a contento todos os diferentes ruídos e sua manifestação errática ao longo da narrativa. Restam mais dúvidas do que esclarecimentos quando se busca atribuir a uma solução tão simples e orgânica uma série de fenômenos sobrenaturais observados em diferentes partes do edifício. A direção se dá por satisfeita, e conclui a trama, acreditando que, uma vez salva a protagonista, a fonte real do distúrbio pode ser ignorada. Trata-se, sem dúvidas, de uma porta aberta a um segundo filme, nos quais os barulhos ameaçadores voltariam. (O projeto obteve sucesso considerável em seu país, razão pela qual a estratégia se provou bem-sucedida).

Ao final, pode-se falar em um terror fácil, mais estridente do que coeso. Ele aposta na surdez enquanto conflito inicial, esquece por completo a deficiência no terço central da história, e retoma este “superpoder” na parte final, quando convém à trama explorar tal habilidade. Não é certo que Ruídos honre as PCDs, nem efetue um retrato acurado de sua vivência. Tampouco soa lógico que as diferentes criaturas surjam e sumam sem motivo aparente, quando o roteiro precisa de alguma ferramenta para elevar ou preservar o medo. O longa-metragem aposta numa tensão permanente, porém artificial, maneirista, e pouco verossímil (mesmo para a lógica bastante flexível do horror sobrenatural). Os criadores estão certamente mais interessados em criar angústia do que em resolvê-la, ou justificá-la a contento.

Ruídos (2024)
4
Nota 4/10

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