Cenas de um Crime | “A gente criou uma Agatha Christie tropical brasileira”

Um assassinato brutal ocorre no interior de uma mansão. Oito suspeitos são detidos no local, e impedidos de sair devido à tempestade lá fora. Dois investigadores precisam descobrir quem matou o poderoso empreiteiro Rogério Lenzi — um homem com vários inimigos.

Este é o ponto de partida da série Cenas de um Crime, que estreia na HBO Max em 16 de outubro. O projeto se desenvolve ao longo de oito episódios — um para cada interrogatório —, permitindo aos policiais Bárbara (Débora Nascimento) e André (Fabrício Boliveira) encontrarem o culpado.

O grande elenco também inclui Pierre Baitelli, Augusto Madeira, Daniel Dantas, Letícia Isnard e Romaní. O Meio Amargo conversou com Fabrício Boliveira, Débora Nascimento, a diretora-geral Izabel Jaguaribe, e o produtor executivo José Henrique Fonseca a respeito do lançamento.

Tipicamente brasileiro

Entre os possíveis responsáveis pela morte se encontram uma deputada do Centrão, um jogador de futebol em ascensão, e a namorada dele, cujo interesse pelo rapaz pode se encontrar na conta bancária do companheiro. Isso sem falar em um ex-secretário de segurança, e no vizinho, um escritor frustrado.

“A gente tem um roteiro muito bem construído, com várias camadas, e que mostra um retrato da nossa sociedade — com toda a diversidade, a disparidade social, os pensamentos diferentes”, explica Izabel Jaguaribe. “É muito interessante trabalhar nesse modelo claustrofóbico, com todo mundo praticamente numa mesma locação, porque permite mergulhar ainda mais profundamente em cada personagem e na dramaturgia”.

“A gente criou uma Agatha Christie tropical brasileira. Um whodunit com as nossas cores, as nossas texturas, nossos temperos, a nossa cara”, ela brinca, em referência ao subgênero do suspense que oculta a identidade do assassino, para revelá-la somente no final, e deixar o espectador adivinhando até o desfecho.

“Ao mesmo tempo, você tem no segundo plano o romance desses dois, com uma história pregressa, além do pano de fundo da política. A história traz desde os porões da ditadura militar até a milícia, com os segredos que estão por trás”, completa.

A dupla de policiais

O foco se encontra, portanto, na relação tumultuada entre Bárbara e André, que já namoraram, e preservam algumas pendências não-resolvidas desde o término. Nenhum dos dois esperava encontrar o ex-parceiro naquela mansão — muito menos, passar tanto tempo enclausurado com o outro.

“De certa forma, eles funcionam muito bem trabalhando juntos, mesmo com as diferenças”, pondera Fabrício Boliveira. “São personagens com histórias de vida diferentes. A gente imaginou uma história pregressa, de que eles já tinham trabalhado juntos. O André tem certa experiência como policial, e agora é a Bárbara que ascende profissionalmente, então eles se reencontram depois de uma história pessoal”.

Débora Nascimento concorda: “A Bárbara foi um grande desafio. Essa trama tem várias nuances, e a gente precisava de uma partitura muito precisa para não entregar tudo de cara. Também era fundamental encontrar a liderança feminina nesse espaço bem masculino — encontrar a suavidade também, e esse olhar que mistura amor e rancor. Foi um desafio muito grande”, ela sublinha.

Para Boliveira, “André é a representação de uma polícia brasileira investigativa, que anda em falta. A gente trabalha muito com policiamento militar, de resolução, e por isso tem mil problemas, porque são muitos enganos, balas, enfim. O André pode ter alguns métodos discutíveis, mas ele representa essa polícia civil que a gente já não tem mais, disposta a ver o que está acontecendo antes de simplesmente apontar, prender, levantar a arma”.

O ator amarra a trama fictícia aos resquícios da ditadura militar:

“Aos poucos, você vai entendendo quem são estes personagens, o que aconteceu com cada um para chegarem ali, naquele instante. E você ainda vai entendendo as investigações que não foram feitas na nossa história real. Além disso, episódios como a Casa Amarela são reais. A gente sabe que isso aconteceu de fato, essa casa com torturas”.

A popularidade das séries criminais

Jaguaribe e Fonseca possuem bastante experiência em projetos do gênero: ambos trabalharam em Bom Dia, Verônica, e ele tem experiência no premiado Mandrake. Os dois comentam a fascinação crescente do público do streaming por séries de true crime e ficções a respeito de assassinatos.

É um gênero clássico. Não tem como não gostar, porque pega pela nossa curiosidade”, pontua a diretora-geral. “A investigação começa, e vai instigando o espectador, que fica realmente preso. Basta ver toda a repercussão sobre quem matou o Odete Roitman! A gente tem que tentar surfar nessa onda e propor: quem matou Rogério Lenzi?”.

Segundo José Henrique Fonseca, “Isso vale até para quem matou Marielle — todo mundo quer saber quem matou, desde sempre, entendeu? A gente não sossega enquanto não descobre”.

Fabrício Boliveira lança outra hipótese para nossa adesão ao suspense:

“Existe um senso de justiça também, que nos acompanha — a gente pode ir lá no início, para a Antígona. Tem uma questão da participação do público. Aqui o público não fica só numa comédia, rindo, recebendo as informações. Ele tem a possibilidade de pensar a respeito, intuir coisas, e dizer: ‘Adivinhei antes’. É um jeito que o público tem de participar”.

O segredo do sucesso

Mas, com tantos projetos policiais e investigativos no nosso audiovisual, como se destacar? Qual seria a chave para cativar o público?

“O roteiro é a base de tudo”, responde Izabel Jaguaribe, de imediato. “Um roteiro robusto, bem feito, bem escrito, com nuances, que faz você dar guinadas de fato. Você começa acreditando que é uma pessoa, depois pensa que é outra, e então você se perde. O roteiro bem escrito, trazendo essa brasilidade, é fundamental. É o passo inicial para dar certo”.

“E aí também entra o elenco fabuloso que a gente tem. Fabrício e Débora estão brilhantes, e todas as outras personagens são muito fortes também, muito potentes. A gente tem uma gama de artistas fenomenal”.

José Henrique Fonseca vai ainda mais longe: “Se você tiver um bom roteiro, mas atores ruins, você não vai a lugar nenhum. Mas o inverso pode funcionar. Um roteiro ruim, com atores excelentes, ainda fica palatável. Então não tem jeito: você pode ter o melhor roteiro do mundo, mas com atores ruins, você vai não vai a lugar nenhum”.

Mas quando o espectador descobrirá quem, afinal, matou Rogério Lenzi? A HBO Max pretende liberar dois episódios por semana — o que significa que a conclusão chega dentro de um mês, aproximadamente.

“É uma prática padrão da HBO”, relembra Fonseca. “Em muitas séries, eles liberam apenas um episódio por semana. Para um formato como esse, de whodunit, fica melhor ainda. Porque se você vê direto todos os episódios, todo mundo já vai saber a resposta de cara. Então é melhor criar um suspense”, conclui.

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