Em 2 de abril, um poderoso documentário chega às salas de cinema: Cheiro de Diesel, dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins. A primeira é jornalista, ativista, mestre em antropologia e pesquisadora sobre as ações policiais no Rio de Janeiro há mais de dez anos. Já a segunda é moradora da Maré, comunicadora social e doutora em comunicação.
Juntas, elas acompanharam o período dos grandes eventos no Rio de Janeiro — as Olimpíadas e a Copa do Mundo — quando milhares de policiais militares ocuparam a favela da Maré durante mais de um ano. O resultado foi a vigilância e a violência diárias, resultando em inúmeros casos de agressão, tortura e mortes. No entanto, na versão do Estado e da mídia, a operação foi um sucesso.
O filme contrapõe estas duas versões, entre a mídia hegemônica e os relatos e gravações dos próprios moradores da comunidade. O resultado, tão belo quanto impactante, venceu o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio. Nesta entrevista, as cineastas comentam o projeto:

Por que acharam importante apresentar a versão oficial dos militares?
Natasha Neri: A gente quis começar com aquele momento da invasão das Forças Armadas na Maré, na noite de 1º de abril de 2014, trazendo um pouco da cobertura da mídia hegemônica, assim como a própria cobertura da TV do Comando Militar do Leste. O intuito era mostrar o contraste entre a fala dos moradores sobre aquele momento da invasão e o que se falava na mídia ao vivo, em tom de comemoração.
A gente viu ao vivo, na Rede Globo, a descrição de uma “retomada histórica do território pelo Estado”, embora a gente saiba que é uma invasão militarizada, com um conceito muito controverso e violento desta suposta pacificação. O Comando Militar do Leste foi responsável pela Operação São Francisco, a partir de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem que determinou o envio de 2.500 militares para ocuparem a Maré por tempo indeterminado. Eles ficaram por um ano e três meses.
Existe uma narrativa muito militarizada, como se fosse um cenário de guerra.
Então existe uma narrativa muito militarizada, como se fosse um cenário de guerra, visando a ocupação e a tomada de pontos. Este belicismo contrasta com a ocupação “bem-sucedida” apresentada por eles. O que a Gizele e os outros comunicadores e moradores da Maré relatam no filme é uma rotina de revistas, de invasões de casas, de checkpoints, de tanques de guerras e barricadas no caminho da escola e do trabalho.

Como vocês descreveriam o objetivo real das GLOS?
Gizele Martins: Olha, eu vivo na favela há 40 anos. Nesses 40 anos, eu nunca vivi um período tão ruim, tão traumatizante quanto o período do exército na Maré em 2014 e 2015. Ali era colocada uma ideia de poder, de autoridade, de força, com os tanques de guerra circulando nas nossas ruas e passando até por cima de gente. Passavam por cima de barracas, e do saneamento básico, que já é precário. Mas o tanque de guerra demonstrava autoridade.
O filme até aborda isso: eu tenho um amigo que foi revistado 18 vezes num dia só, porque entrava numa rua era revistado, na outra rua, era revistado de novo. Todos os carros são revistados, todas as crianças, adolescentes, adultos, senhores e senhores de idade. As 44 escolas da Maré tinham tanques de guerra na porta, e fecharam desde os bailes funk e forró até bares e igrejas. Isso foi no normalizado durante 1 ano e 4 meses. Então, a GLO vem com uma ideia de que aquela favela tinha que ser militarizada e paralisada.
As favelas continuam vivenciando uma ditadura militar na dita democracia brasileira.
Para a comunicação comunitária, que é um grande foco de produção e de auto-organização da nossa favela, esta era uma forma de nos impedir de falar. Você não pode ser jornalista, você não pode ser pesquisadora, você não pode comunicar, você não pode denunciar. Você não tem lugar. Então, sim, a autoridade, a força e a Garantia de Lei e Ordem fizeram com que a gente vivesse sob tanques de guerra, sob vigilantismo, o que é diferente do comportamento da polícia. Por isso, a gente diz que as favelas continuam vivenciando uma ditadura militar na dita democracia brasileira. A ditadura continua na favela.

Vocês acompanharam as ações policiais durante muito tempo, e o filme relata acontecimentos de mais de dez anos atrás. Como comparam o período retratado com a situação atual nas comunidades?
Natasha Neri: Com muito pessimismo, por conta do agravamento da narrativa oficial do Estado de que a letalidade policial é supostamente aceitável. Afirmam alguma espécie de eficácia em se assassinar pessoas nas favelas. Eu não consigo nem falar sobre isso, porque depois de um massacre de 122 pessoas, cinco policiais e 117 civis nas favelas da Penha e do Alemão, dia 28 de outubro de 2025, a gente tem o governador, chefe de polícia civil, chefe de polícia militar indo para TV para dizer que foi uma operação planejada e bem-sucedida.
Assim como no nosso filme, a gente tem o Comando Militar do Leste dizendo que é uma ocupação bem-sucedida, quando as pessoas têm tanques na porta de casa e sofrem inúmeras violências. Como o documentário mostra, houve assassinatos, torturas, pessoas que sofreram tiros, prisões arbitrárias, censura. A gente teve em 2018 uma altíssima taxa de letalidade durante a intervenção federal. Foram mais de 1.500 pessoas assassinadas por agentes do Estado. A gente chegou a ter, em 2019, o ápice de cinco pessoas assassinadas por dia, com 1.814 mortos — eu estava olhando os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em 10 anos, de 2014 a 2024, no Brasil, foram 60.300 pessoas assassinadas por agentes do estado.
A narrativa da extrema-direita pede mais militarização, apoiando o uso excessivo da força e as altíssimas taxas de letalidade policial nas favelas.
Então existe um agravamento de lá para cá; uma construção da narrativa de que as operações policiais são uma metodologia baseada em investigação, visando a prisão daqueles estão querendo considerar como narcoterroristas. Existe agora o PL anti-facção, sancionado pelo presidente, que vem criminalizar ainda mais as pessoas acusadas de participarem do varejo de drogas. Esta narrativa internacional tenta associar o varejo de drogas ao terrorismo, algo que é completamente inaceitável.
O que vem sendo denunciado pelos moradores de favelas e mães e familiares de vítimas de violência do Estado (tanto das polícias quanto das Forças Armadas), é que o terror vem do Estado. Por isso, existe uma rede nacional de mães e familiares de vítimas do terrorismo do Estado. A gente vê operações que, num dia, em 15 horas, assassinam 122 pessoas. Uma quantia de R$ 1,5 milhão por dia é gasta na Maré, com 2.500 homens. Para quê? Para trazer segurança para quem? Só produzem traumas irreparáveis.
As GLOs promoveram chacinas, como no Salgueiro em 2017, quando oito pessoas foram assassinadas — inclusive o personagem do nosso filme, o Loran, assassinado aos 17 anos, com tiros pelas costas, por soldados das Forças Armadas. Eram os “soldados fantasmas” das Forças Armadas, uma espécie de BOPE do exército.
É muito grave o que a gente está assistindo. De lá para cá, a gente teve um governo de extrema-direita, e o interventor federal que comandou a intervenção em 2018 virou ministro de Bolsonaro. Ele foi candidato à vice-presidência, e está preso por participar da tentativa de golpe. Mas a narrativa da extrema-direita pede mais militarização, apoiando o uso excessivo da força e as altíssimas taxas de letalidade policial nas favelas.

Embora vocês tenham a experiência do jornalismo, este filme se afasta bastante da reportagem. Existe uma bela preocupação estética, mergulhando no dia a dia dos moradores, e nos sentimentos destas pessoas. Como pensaram a linguagem do filme?
Gizele Martins: Inúmeros filmes falam sobre essa favela e as violações, mas de forma muito sensacionalista — no caso dos filmes famosos que ganharam o mundo. No Cheiro de Diesel, a gente quis trazer uma abordagem de respeito, de ética. Toda a narrativa foi construída com os nossos protagonistas, para saber se eles gostavam da imagem ou não, e o que era prioritário para eles. Isso trouxe o aspecto de subjetividade, porque além da violência física, existe uma violência psíquica, sobre a qual não se fala. A gente vive com isso desde 2014, ou desde as experiências das favelas vivendo sob operações policiais, com assassinatos, chacinas todos os dias, helicópteros atirando nas escolas. Isso ainda é um não-dito.
Então a gente precisava trazer o som. Queria que as pessoas na sala de cinema sentissem um pouquinho do que é ouvir o barulho do tanque. Ele me persegue até hoje quando eu tento dormir. O barulho do tanque me acompanha aqui, nesse momento. Ele me acompanha quando eu estou andando na rua. Eu tenho pesadelos com o tanque 24 horas, não não só dormindo, mas acordada também. Essa é a experiência de viver num território militarizado, violado.
Eu queria fazer com que as pessoas sentissem o que a gente sente todos os dias.
Então a gente queria incomodar um pouquinho as pessoas que estivessem assistindo. No meu imaginário, eu queria fazer com que as pessoas sentissem o que a gente sente todos os dias. É o Vitor na cadeira de rodas, é a Drica que perdeu um filho, é a Sala Vermelha, é a tortura, são todos os comunicadores e comunicadoras censurados e autocensurados. O próprio nome Cheiro de Diesel vem do depoimento do Vitor, a partir da ideia de sentir o cheiro do tanque de guerra. Isso só foi possível por ser um filme em que a gente respeitou esse lugar de ser favelado, de ser negro, de ser violado, mas numa postura de escuta. Foram sete anos de produção e pesquisa, mas preservando este momento de escuta.

É interessante ouvir isso, porque o Cheiro de Diesel vai além da constatação dos fatos, e da denúncia dos agressores. Como pensam a relação com o espectador? Que efeitos desejam produzir no público?
Natasha Neri: Eu e Gizele temos trajetórias como jornalistas e defensoras de direitos humanos. Somos militantes, e denunciamos a violência de Estado há muitos anos. A gente chega no cinema com a mesma vontade de fazer um cinema político. A intenção é usar o cinema como ferramenta de luta, para apoiar e reforçar as vozes das favelas, as vozes de mães e familiares de vítimas da violência de estado, e dos coletivos de favelas que já vêm gritando há muito tempo contra essa permanência das práticas violentas, ditatoriais, na democracia e nas favelas.
Eu fiz o Auto de Resistência depois de ter pesquisado bastante os homicídios praticados pelas polícias do Estado do Rio, e de ter publicado o livro Quando a Polícia Mata (2013). A Gizele chega nesse filme depois de ter publicado um livro sobre a censura aos comunicadores na Maré. Quando eu apresentei o Auto de Resistência num festival internacional, descobri que existia o chamado “cinema de impacto”, que é esse nome, esse nicho do cinema.
A gente quer trazer para o cinema essa capacidade de mobilização política, e fazer um cinema coletivo.
A gente já começa a fazer o cinema a partir do advocacy fora do cinema. Nós somos campaigners, somos ativistas. A gente faz campanha de impacto, e trabalha na litigância dos casos, construindo mobilizações na porta do Tribunal de Justiça, na porta do Ministério Público, nas ruas. A gente quer trazer para o cinema essa capacidade de mobilização política e, além disso, fazer um cinema coletivo, assim como é a luta dos moradores da Maré, dos moradores de favela.
A gente tentou construir um cinema que vem dos movimentos sociais. A nossa sala de roteiro era composta pelos personagens do filme, pelas vítimas diretas. Os nossos fotógrafos e diversos assistentes de produção são moradores dos territórios diretamente afetados. Além disso, a gente compartilha a direção e o olhar, fazendo a construção coletiva de um cinema político no qual a gente acredita, que é um cinema de luta.



