
Para denunciar as violações de direitos humanos pelas Forças Armadas nas favelas do Rio de Janeiro, entre 2014 e 2018, as diretoras Gizele Martins e Natasha Neri adotam um percurso muito particular. Em primeiro lugar, começam apresentando a versão “oficial dos fatos”. Acompanham os lemas dos militares (com cantos a respeito da “integridade e glória da pátria”), assim como o jornalismo dos próprios comandantes destas ações. Isso permite às lideranças afirmarem que estão promovendo a paz nas comunidades, combatendo o crime, e retomando as áreas conquistadas por facções.
O ponto de vista da mídia é igualmente abordado — caso de uma reportagem celebrativa da Rede Globo, festejando a “pacificação”. Michel Temer, então presidente após o golpe em Dilma Rousseff, defende às câmeras a proposta de levar intenso policiamento e militarização para as zonas, tratadas como cenários de guerra. Somente depois disso, as autoras decidem mostrar a flagrante lacuna separando o discurso institucional da prática destas ações. Começam, então, a conversar com moradores, frequentar as ruas, e coletar histórias dos incontáveis abusos cometidos em nome da paz. São histórias de moradores humilhados, agredidos, torturados e mortos pelos militares jovens e mal treinados para tal tarefa — mas que, nas palavras do comandante Braga Netto, possuíam a expertise das Forças Armadas em gestão.
Cheiro de Diesel se encerra sem respostas fáceis, porém capaz de elaborar as perguntas corretas a respeito da legalidade destes procedimentos, e de sua manutenção ainda hoje.
Cheiro de Diesel promove um formato interessante de cinema ao vivo. Para além de coletar e expor material de arquivo de anos passados, ou mesmo filmagens caseiras dos moradores, também revela sua presença no local, durante os acontecimentos, num intervalo de quatro a cinco anos. As câmeras flagram a entrada de tanques nas ruas da Maré e outras comunidades, com milhares de soldados e cabos empunhando seus fuzis diretamente aos moradores. O dispositivo acompanha as manifestações, e também as represálias das forças armadas, com tiros e ameaças.
Trata-se de um passo fundamental para demonstrar que o olhar das criadoras sempre esteve com estas pessoas, junto a elas. Isso traz uma horizontalidade, e também um senso de pertencimento importante na elaboração de uma obra com os moradores das comunidades, ao invés de sobre eles — contrastando, portanto, com o habitual retrato de fora, de longe, por algum diretor bem-intencionado, porém, sem real vivência do caso. Isso porque Gizele Martins nasceu e vive nas favelas do Complexo da Maré, e tem desenvolvido um longo trabalho de denúncia destas violências, em paralelo à escuta empática dos habitantes, para se contraporem à narrativa tão facilmente abraçada pela mídia e pela justiça.
Assim, as conversas se tornam familiares, corriqueiras. Os moradores não discursam para a câmera, dentro de algum estúdio com luzes preparadas. Falam de suas casas, em diálogo com Gizele, a vizinha familiarizada com as ruas e as pessoas. Teria sido mais fácil gritar palavras de ordem, entretanto, Martins e Neri preferem dar a voz a outras pessoas, capazes de fazê-lo com propriedade. Entre elas, encontram-se jovens alvejadas por balas dos militares, mães de garotos executados a esmo pelas ruas da comunidade, e mesmo Marielle Franco. O discurso jamais precisa contextualizar a importância da vereadora, nem relembrar o que lhe ocorreu depois. Basta costurar, através da montagem, uma violência tão midiatizada com outras, menos documentadas.
Em paralelo, o documentário se propõe a estabelecer belas descrições de sensações — algo incomum após tantas obras políticas centradas apenas em fatos. Comparam-se as sandálias de Gizele com os coturnos dos militares. As falas relembram os sons das botas marchando, a luz vermelha na sala de torturas, e o próprio cheiro de diesel dos tanques, que dá origem ao título. Descreve-se a sensação constante de medo e vigilância, o tratamento dos habitantes enquanto inimigos, como pessoas inferiores, perigosas, dignas de escárnio e desumanização. A câmera se dispõe a observar o mundo pelos olhos de Gizele, literalmente, filmando o olhar através das lentes dos óculos da comunicadora.
Assim, atinge-se uma humanização do dispositivo. Os habitantes jamais se convertem em meros exemplos de uma causa: eles são mostrados no seu dia a dia, andando de moto, ou dentro de casa, se locomovendo por espaços apertados numa cadeira de rodas. Nestes instantes, o receio de uma aproximação entre reportagem e cinema se dissipa por completo, posto que as cenas se concentram tanto nos grandes momentos de guinada (a assinatura de decretos, por exemplo) quanto nas conversas de moradores junto à ONU e, sobretudo, no julgamento dos militarem que quase mataram Vitor Santiago. Escutar as vozes declarando, por unanimidade, a absolvição dos responsáveis pelos disparos, alegando “legítima defesa”, provoca um frio na espinha.


Esta é uma das principais teses da obra, a respeito da inconstitucionalidade de permitir que militares julguem a si próprios, quase sempre arquivando os casos e encerrando os litígios em favor das forças armadas. O conflito de interesses é evidente. Mesmo assim, surpreende a fala tão assertiva quanto racional do pleiteante e da própria diretora-comunicadora, ao abordarem o tema. Uma mãe, ao discursar sobre o assassinato de seu filho, pede desculpas à plateia pelas lágrimas. A perspectiva se mostra avessa a um sentimentalismo chantagista, ou à tradicional sensibilização do público por meio do espetáculo da dor alheia. As autoras discutem políticas públicas, segurança, dignidade e direito à vida.
Cheiro de Diesel se encerra sem respostas fáceis, porém capaz de elaborar as perguntas corretas a respeito da legalidade destes procedimentos, e de sua manutenção ainda hoje. As cineastas poderiam tratar o espectador com condescendência, explicando-nos o certo e errado; quem amar, e quem odiar nesta história. Em contrapartida, terminam a narrativa num ponto de suspensão, convidando o espectador ao debate a respeito dos caminhos a tomar, das respostas a oferecer para tamanhas injustiças. Seria apenas pelo voto? Pelo poder comunitário? Por protestos? Por filmes como este? Felizmente, a obra não esgota seus argumentos ao final da sessão, pelo contrário. Prefere levantar um tópico, fundamentando seu ponto de vista, para que o espectador elabore o raciocínio a partir dos fatos narrados. Assim, propõe um diálogo, ao invés de uma palestra — como cabe a qualquer bom documentário.




