Cheiro de Diesel (2025)

Ilegalidade e desordem

título original (ano)
Cheiro de Diesel (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
84 minutos
direção
Gizele Martins, Natasha Neri
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Para denunciar as violações de direitos humanos pelas Forças Armadas nas favelas do Rio de Janeiro, entre 2014 e 2018, as diretoras Gizele Martins e Natasha Neri adotam um percurso muito particular. Em primeiro lugar, começam apresentando a versão “oficial dos fatos”. Acompanham os lemas dos militares (com cantos a respeito da “integridade e glória da pátria”), assim como o jornalismo dos próprios comandantes destas ações. Isso permite às lideranças afirmarem que estão promovendo a paz nas comunidades, combatendo o crime, e retomando as áreas conquistadas por facções.

O ponto de vista da mídia é igualmente abordado — caso de uma reportagem celebrativa da Rede Globo, festejando a “pacificação”. Michel Temer, então presidente após o golpe em Dilma Rousseff, defende às câmeras a proposta de levar intenso policiamento e militarização para as zonas, tratadas como cenários de guerra. Somente depois disso, as autoras decidem mostrar a flagrante lacuna separando o discurso institucional da prática destas ações. Começam, então, a conversar com moradores, frequentar as ruas, e coletar histórias dos incontáveis abusos cometidos em nome da paz. São histórias de moradores humilhados, agredidos, torturados e mortos pelos militares jovens e mal treinados para tal tarefa — mas que, nas palavras do comandante Braga Netto, possuíam a expertise das Forças Armadas em gestão. 

Cheiro de Diesel se encerra sem respostas fáceis, porém capaz de elaborar as perguntas corretas a respeito da legalidade destes procedimentos, e de sua manutenção ainda hoje.

Cheiro de Diesel promove um formato interessante de cinema ao vivo. Para além de coletar e expor material de arquivo de anos passados, ou mesmo filmagens caseiras dos moradores, também revela sua presença no local, durante os acontecimentos, num intervalo de quatro a cinco anos. As câmeras flagram a entrada de tanques nas ruas da Maré e outras comunidades, com milhares de soldados e cabos empunhando seus fuzis diretamente aos moradores. O dispositivo acompanha as manifestações, e também as represálias das forças armadas, com tiros e ameaças. 

Trata-se de um passo fundamental para demonstrar que o olhar das criadoras sempre esteve com estas pessoas, junto a elas. Isso traz uma horizontalidade, e também um senso de pertencimento importante na elaboração de uma obra com os moradores das comunidades, ao invés de sobre eles — contrastando, portanto, com o habitual retrato de fora, de longe, por algum diretor bem-intencionado, porém, sem real vivência do caso. Isso porque Gizele Martins nasceu e vive nas favelas do Complexo da Maré, e tem desenvolvido um longo trabalho de denúncia destas violências, em paralelo à escuta empática dos habitantes, para se contraporem à narrativa tão facilmente abraçada pela mídia e pela justiça.

Assim, as conversas se tornam familiares, corriqueiras. Os moradores não discursam para a câmera, dentro de algum estúdio com luzes preparadas. Falam de suas casas, em diálogo com Gizele, a vizinha familiarizada com as ruas e as pessoas. Teria sido mais fácil gritar palavras de ordem, entretanto, Martins e Neri preferem dar a voz a outras pessoas, capazes de fazê-lo com propriedade. Entre elas, encontram-se jovens alvejadas por balas dos militares, mães de garotos executados a esmo pelas ruas da comunidade, e mesmo Marielle Franco. O discurso jamais precisa contextualizar a importância da vereadora, nem relembrar o que lhe ocorreu depois. Basta costurar, através da montagem, uma violência tão midiatizada com outras, menos documentadas.

Em paralelo, o documentário se propõe a estabelecer belas descrições de sensações — algo incomum após tantas obras políticas centradas apenas em fatos. Comparam-se as sandálias de Gizele com os coturnos dos militares. As falas relembram os sons das botas marchando, a luz vermelha na sala de torturas, e o próprio cheiro de diesel dos tanques, que dá origem ao título. Descreve-se a sensação constante de medo e vigilância, o tratamento dos habitantes enquanto inimigos, como pessoas inferiores, perigosas, dignas de escárnio e desumanização. A câmera se dispõe a observar o mundo pelos olhos de Gizele, literalmente, filmando o olhar através das lentes dos óculos da comunicadora. 

Assim, atinge-se uma humanização do dispositivo. Os habitantes jamais se convertem em meros exemplos de uma causa: eles são mostrados no seu dia a dia, andando de moto, ou dentro de casa, se locomovendo por espaços apertados numa cadeira de rodas. Nestes instantes, o receio de uma aproximação entre reportagem e cinema se dissipa por completo, posto que as cenas se concentram tanto nos grandes momentos de guinada (a assinatura de decretos, por exemplo) quanto nas conversas de moradores junto à ONU e, sobretudo, no julgamento dos militarem que quase mataram Vitor Santiago. Escutar as vozes declarando, por unanimidade, a absolvição dos responsáveis pelos disparos, alegando “legítima defesa”, provoca um frio na espinha.

Esta é uma das principais teses da obra, a respeito da inconstitucionalidade de permitir que militares julguem a si próprios, quase sempre arquivando os casos e encerrando os litígios em favor das forças armadas. O conflito de interesses é evidente. Mesmo assim, surpreende a fala tão assertiva quanto racional do pleiteante e da própria diretora-comunicadora, ao abordarem o tema. Uma mãe, ao discursar sobre o assassinato de seu filho, pede desculpas à plateia pelas lágrimas. A perspectiva se mostra avessa a um sentimentalismo chantagista, ou à tradicional sensibilização do público por meio do espetáculo da dor alheia. As autoras discutem políticas públicas, segurança, dignidade e direito à vida.

Cheiro de Diesel se encerra sem respostas fáceis, porém capaz de elaborar as perguntas corretas a respeito da legalidade destes procedimentos, e de sua manutenção ainda hoje. As cineastas poderiam tratar o espectador com condescendência, explicando-nos o certo e errado; quem amar, e quem odiar nesta história. Em contrapartida, terminam a narrativa num ponto de suspensão, convidando o espectador ao debate a respeito dos caminhos a tomar, das respostas a oferecer para tamanhas injustiças. Seria apenas pelo voto? Pelo poder comunitário? Por protestos? Por filmes como este? Felizmente, a obra não esgota seus argumentos ao final da sessão, pelo contrário. Prefere levantar um tópico, fundamentando seu ponto de vista, para que o espectador elabore o raciocínio a partir dos fatos narrados. Assim, propõe um diálogo, ao invés de uma palestra — como cabe a qualquer bom documentário.

Cheiro de Diesel (2025)
8
Nota 8/10

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