
Aparentemente, na Bélgica, há políticas públicas muito específicas para acolher jovens mães de baixa renda, em vulnerabilidade social e psíquica. Elas permanecem num abrigo específico que ajuda as adolescentes com suas angústias, enquanto oferece ensinamentos no que diz respeito aos cuidados diários com os bebês. As moradoras ainda recebem verba para apartamentos cedidos pelo Estado, com aluguéis a preços reduzidos, e podem recorrer à entrega dos bebês a lares adotivos, caso assim o prefiram. Para o espectador brasileiro, o primeiro choque talvez decorra da invejável estrutura colocada à disposição destas garotas.
Em ficções de outros diretores, talvez se pensaria num caráter fabular, inventado. Ora, sob domínio dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, compreende-se se tratar de uma pesquisa própria, muito diretamente baseada no real. Os belgas têm construído uma cinematografia focada nos marginais, sejam eles imigrantes, trabalhadores precarizados, adolescentes em risco. Para isso, optam pela câmera na mão, tremendo discretamente, enquanto os atores se locomovem sob luzes naturais. A imagem os acompanha para onde forem — subindo e descendo escadas, entrando e saindo de instituições. O filme se dedica inteiramente a cada movimento destes heróis.
O filme mais recente dos irmãos Dardenne é bom, sem dúvida — assim como todos os outros. Mas os diretores não estão dispostos a tomar nenhum risco?
O procedimento se modificou pouquíssimo desde Rosetta (1999) — não o primeiro projeto da dupla, mas aquele que os lançou ao estrelato, através da Palma de Ouro em Cannes. Os personagens são diferentes, porém, aparentam viver nos mesmos bairros, na condição de vizinhos que ainda não tiveram a oportunidade de se conhecer. A cada novo filme, os cineastas se aparentam se consagrar à história por trás da casa seguinte. Conquistaram, ao longo do percurso premiado, a segurança de contarem com as maiores produtoras do mundo, além de uma visibilidade assegurada nos principais festivais e salas de cinema.
Graças a tamanho aporte, poderiam fazer de tudo, imagina-se — inclusive aumentar o escopo das produções, ou trabalhar com mais estrelas (assim como fizeram, a título de exceção, com Marion Cotillard em Dois Dias, uma Noite). Entretanto, têm preferido os atores desconhecidos, sobretudo jovens, treinados para as necessidades específicas da ficção. Jovens Mães permite trabalhar com cinco protagonistas, discutindo a maternidade por uma perspectiva de diversidade e representatividade. Ao invés de acompanharem o percurso particular de uma mãe, os autores preferem pensar a maternidade na adolescência em chave mais ampla.
Assim, algumas protagonistas estão felizes com os pais dos bebês, enquanto outras são rejeitadas pelos companheiros. Umas possuem a presença constante da mãe ou irmã mais velha, e outras foram abandonadas pelas próprias mães na infância. Há adolescentes com dependência de drogas, experimentando crises de ansiedade, pensando em abandonar o bebê, ou ainda entregá-lo a uma família rica. Os cineastas também pensam na diversidade racial (preocupação notável de seus trabalhos mais recentes), e nas distintas fases da maternidade — ao lado de quatro adolescentes com seus bebês de colo, existe aquela prestes a dar à luz.
A busca por um mosaico de situações recorrentes aproxima o resultado de um drama mais tradicional, nos quais os conflitos se acumulam, visando o engajamento sentimental junto ao espectador. Há muito choro ou grito nos encontros das protagonistas com pessoas próximas, além de desmaios, ataques de desespero e desaparecimentos. Caso se tratasse de uma única heroína, os diretores dificilmente incluiriam tantos conflitos, porém, a estrutura coral permite costurar a abundância de dilemas. Esta sobrecarga deve ter justificado o prêmio de roteiro em Cannes, ainda que seja justamente no roteiro onde se encontram as principais fragilidades do projeto. O fato de construir mais histórias não significa histórias melhores.
Isso porque, mesmo morando juntas, dividindo tarefas cotidianas, a exemplo do preparo do jantar e do cuidado com os bebês, as adolescentes interagem pouquíssimo entre si. A narrativa abraça uma estrutura episódica, alternando-se entre dilemas individuais, mas dedicando tempo surpreendentemente curto às conversas entre as cinco meninas, e ao espelhamento da dor de uma na situação da outra. A imagem do cartaz, colocando as cinco lado a lado, está longe de espelhar qualquer momento da trama. Além disso, uma das garotas (Samia Hilmi) constitui mera coadjuvante neste grupo, despertando a impressão de que talvez suas cenas específicas tenham sido cortadas na montagem.
Atenção: a partir daqui, alguns spoilers.
Em paralelo, o roteiro utiliza alguns facilitadores inesperados para dois criadores tão experientes (os Dardenne sempre escreveram as próprias histórias). Na segunda metade, as meninas passam a dizer em voz alta aquilo que sentem, apenas para informarem o público. “Eu gostaria, mas não sinto nada”, confessa a mãe à filha recém-nascida, na primeira e única vez que se comunica com o bebê. Adiante, ela lê em voz alta, mesmo estando sozinha, o conteúdo da carta destinada à filha, para quando esta chegar aos 18 anos. Trata-se de momentos ternos, porém convenientes demais para uma obra tão preocupada com a verossimilhança.
Tais cobranças se justificam pela proximidade, voluntária e reivindicada, das obras dos irmãos Dardenne em relação ao real. Os atores crus, os longos planos, a luz natural, e a aparência de improviso nos gestos revelam a imensa importância dada à impressão de verdade. Os autores desejam, de fato, que se observe este panorama enquanto retrato extremamente próximo de acontecimentos cotidianos relacionados a adolescentes grávidas, e mães de bebês pequenos. Quando se fala no “realismo social à francesa” (ou belga), costuma-se ter como referência este conjunto de obras menos preocupada em criar metáforas, ou aludir a estados mentais, do que em apreendê-los enquanto quais, in natura, no mundo à sua frente.


O resultado cumpre bem a cartilha que os Dardenne desenvolveram para si próprios. Com segurança, eles elaboraram um estilo tão facilmente reconhecido que poderiam se prestar a paródias. Caso fosse o filme de um cineasta iniciante, Jovens Mães seria aclamado enquanto indício de um novo talento, repleto de potencial. Em se tratando de cineastas que dirigem desde o fim da década de 1970, tendo desenvolvido dezenas de obras de estilo e teor semelhante, este conforto chega a preocupar.
Afinal, os Dardenne não estão dispostos a tomar nenhum risco? Não pretendem se aventurar por recursos distintos, menos naturalistas, mais poéticos, intervencionistas, alegóricos? Afinal, suas novas investidas se provam polidas, competentes, porém, incapazes de qualquer surpresa junto ao cinéfilo com mínimo conhecido do percurso dos criadores. O projeto mais recente é bom, sem dúvida — assim como todos os outros. No entanto, quando os filmes começam a se equivaler, e se intercambiar em nossa memória, toca o sinal de alerta. Os grandes autores, rigidamente idênticos a si próprios, estão perdendo a força do gesto.




