
A História do Som é um filme bastante curioso, quando visto pela perspectiva do cinema queer. Por um lado, ele é inteiramente centrado no amor entre dois homens: Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor). Eles se conhecem no conservatório de música, no início da trama. Apaixonam-se de imediato e, 127 minutos depois, ainda constituem o único interesse do longa-metragem. Os amantes fazem planos, viajam juntos, trabalham juntos. Mesmo quando estão distantes, a montagem e o roteiro insistem em esclarecer que pensam somente no outro. Os afetos jamais são escondidos do companheiro, nem da câmera. Pode-se falar em um romance no sentido mais clássico do termo, sendo o afeto o motor narrativo exclusivo.
Por outro lado, a obviedade do laço homoafetivo não significa que a homossexualidade seja verbalizada, muito menos problematizada. Jamais se menciona o termo “gay”, “homossexual” ou semelhantes. Ninguém descobre os vínculos que aproximam os protagonistas, razão pela qual as preocupações habituais, da ordem do preconceito, ou da pressão familiar e religiosa, estão ausentes. Mesmo assim, os estudantes nunca precisam esconder de fato sua proximidade, posto que transitam sobretudo por locais isolados: a trilha pela floresta, o apartamento de David. Fora destes espaços, eles não se tocam, nem parecem sentir falta disso.
Uma narrativa onde a homossexualidade é tão evidente (aos nossos olhos cúmplices) que estima não precisar mostrar nada daquilo que a maioria dos romances mostraria. Como pode um longa-metragem ser, ao mesmo tempo, tão gay e tão pouco gay?
Aqui, o fato de ser gay na sociedade de 1917 a 1924 está longe de representar um motivo de preocupação. Nenhum dos dois é prejudicado por sua orientação sexual. Pode-se inclusive questionar se seriam gays, de fato, ao invés de bissexuais — ambos se relacionam com mulheres, em vínculos afetivos genuínos e, conforme a montagem faz questão de mostrar, sexualmente prazerosos. Em suma, o espectador constitui a única testemunha do que realmente ocorreu entre ambos (com a exceção de uma personagem secundária, que opta por manter sua descoberta em segredo). Para o resto da sociedade (os familiares, colegas, professores), Lionel e David foram grandes amigos, que partiram juntos em pesquisa para a universidade.
Em consequência, diversos espectadores consideraram o projeto acanhado, ou mesmo envergonhado do amor que domina a integralidade das imagens e sons. Por que isolar o relacionamento do resto da sociedade? Por que mantê-lo preso a uma bolha hermética, através de países e anos? O fato de os rapazes manterem sua orientação em segredo, e estarem satisfeitos com o sigilo, não representaria um retrocesso para uma produção de 2025 — embora se refira à sociedade de cem anos atrás? Por que tamanha candura na cena de sexo, concentrada meramente nos beijos, e ocultando os corpos nus, enquanto a única relação com garotas ganha uma interação muito mais carnal?
A História do Som tem sido taxado de excessivamente polido, frio — um filme gay no armário. A percepção pode ser questionada: após uma tradição de dramas LGBT trágicos, pesados, nos quais o amor precisaria ser punido com o sofrimento, a humilhação e a morte, não seria benéfico encontrarmos, enfim, uma narrativa onde os sentimentos entre dois rapazes constituem simplesmente um gesto de amor — ao invés de “amor gay”? Uma obra na qual a adoração constitui uma obviedade, e por meio da qual duas pessoas podem se apaixonar sem nem mesmo questionarmos o fato de serem ambos homens? A naturalização dos laços queer, a ponto de nem precisarmos mais tocar no assunto, não constituiria uma evolução em relação aos dramas no qual o fato de ser gay representa necessariamente o conflito da trama?
É certo que o projeto passa longe de incorporar uma pesquisa estética queer. Não há propostas de rupturas com o cinema clássico. O diretor Oliver Hermanus emprega exatamente a mesma linguagem de um cinema polido, contemplativo, que se usaria para qualquer romance heterossexual da indústria hollywoodiana. Cabe, então, avaliar esta escolha por tamanha polidez, com suas paisagens exuberantes, reconstrução fiel de época, e canções melódicas para acompanhar as saudades. Significaria um avanço, por parte do audiovisual LGBTQIA+, incorporar a linguagem hegemônica, provando que funciona igualmente quando colada às homoafetividades ou, em oposição, representaria um retrocesso, por ignorar a necessidade de oferecer uma estética capaz de romper com padrões heteronormativos?
O aspecto no qual a obra possui maior êxito não possui nenhuma relação direta com gênero ou sexualidade. Trata-se, precisamente, da construção do som, e da trilha sonora. O cineasta traça um caminho belíssimo para que as canções, encontradas pelos pesquisadores ao longo das viagens, evoquem suas aproximações e distanciamentos. O casal se conhece quando David, por acaso, canta uma cantiga folk da infância de Lionel, durante uma festa da universidade. A música os aproxima e, na conclusão, a música amarrará as feridas. Ao invés da tradicional carta entre amantes, comunicam-se por gravação sonora, inscrita num cilindro de cera.
A elaboração do som enquanto elemento narrativo se aprofunda de modo excepcional. O luto pelo pai se traduz numa sobreposição de vozes e canções simultâneas, até que o personagem precise tapar os ouvidos para se refugiar de tantos estímulos. Quando finalmente se reúnem, David e Lionel entoam seu único dueto. Este último, mais humanista e preocupado com as famílias encontradas no caminho, se revela disposto a cantar com as pessoas entrevistadas, em oposição ao companheiro. Mais tarde, segue a proposta do canto enquanto ato coletivo, participando de corais. Já David cantará, quase unicamente, sozinho. Quando se afastam, a música deixa de contar a história da dupla, como se a melodia e ritmo fosse possível unicamente quando estão juntos. Se isso não significa uma materialização estética do amor recíproco, o que mais seria?
Os atores estão muito dedicados aos seus papéis. Existe certo encantamento em encontrar dois dos nomes mais importantes da nova geração, juntos, no ápice de sua forma, em composições avessas ao sentimentalismo fácil. Nenhum dos dois se entrega a “cenas de Oscar”: apesar de inúmeros motivos para chorarem, e se fervilharem de amor, eles mantêm uma aparência serena ao longo desta jornada transformadora. (Este foi mais um motivo, aliás, para se alegar indiferença por parte da direção). No único choro digno deste nome, a câmera se afasta, deixando o ator se expressar de maneira quase imperceptível ao espectador. Nunca somos convidados a temer por eles, ou nos apiedar sobre eles. A História do Som constitui praticamente o anti-O Segredo de Brokeback Mountain dos amores campestres entre sujeitos enrustidos. Onde o filme de Ang Lee era pura catarse, Hermanus deixa o grito preso na garganta.


Atenção: a partir daqui, alguns spoilers.
É possível argumentar, igualmente, que o projeto constitui uma rara representação da homofobia internalizada. Nesta trama, dois homens gays (ou bissexuais) que podem estar juntos, e não sofrem nenhuma represália por seu amor, sentem-se desconfortáveis com os próprios sentimentos. Sabotam-se. Provocam a ruína de um relacionamento que tinha todos os ingredientes para o sucesso. Ora, podendo enfim vingar as inúmeras dissoluções de laços entre homens, garantindo a perenidade do afeto, por que separá-los, afastá-los, diluindo o amor até sua quase inexistência? Por que imputar aos próprios homens o motivo de sua solidão?
Partindo dos contos de Ben Shattuck, Hermanus oferece a si mesmo o caminho mais difícil: uma história de amor triste, cuja ruína decorre da própria consciência dos indivíduos envolvidos. O cineasta oferece uma jornada pouco entusiasmada de amores e separações. Uma narrativa onde a homossexualidade é tão evidente (aos nossos olhos cúmplices, enquanto espectadores) que estima não precisar mostrar nada daquilo que a vasta maioria dos romances mostraria. Deduz-se, portanto, que fizeram sexo várias vezes, que Lionel se relacionou com o colega mais novo na Itália, que tenham se aquecido nas barracas durante as noites frias. Compreende-se que cantaram mais vezes juntos. No entanto, o filme prefere deixar que o espectador projete tais acontecimentos nas lacunas da narrativa.
Isso implicaria em vergonha, frieza, polidez excessiva, pudor? Como pode um longa-metragem ser, ao mesmo tempo, tão gay e tão pouco gay? Tão voltado aos afetos queer históricos, e tão pouco queer em sua essência de linguagem? Casos como estes, intrigantes por suas contradições, representam um passo relevante à pesquisa das homoafetividades no cinema. Entre tantos filmes claramente retrógrados, e tantos ostensivamente progressistas e ousados, encontra-se esta parcela de obras que ousam navegar pelo meio do caminho, enquanto proposta de produção, ponto de vista, estética. Seja como bons exemplos ou maus exemplos, casos como A História do Som merecem um amplo debate em sua singularidade.




