
Um dos primeiros sons escutados neste curta-metragem diz respeito ao rosnado de um cachorro, seguido do narrador que nos explica sua fobia pelos cães grandes. Ele apresenta a si mesmo, aos seus pavores, enquanto questiona a origem de nossos receios específicos, e confessa: “Às vezes, é difícil admitir quando você está com medo”. Trata-se, portanto, de uma autoanálise, a partir de um momento futuro — a narrativa inteira se constrói em função deste flashback da infância, culminando ao instante em que o medo é superado.
Em outras palavras, ao invés de oferecer ao espectador uma situação cotidiana, o diretor Ítalo Tapajós prefere analisar a fagulha que leva às pazes consigo próprio. Medo de Cachorro soa como uma experiência terapêutica, seja pela exposição do trauma, seja pela análise da angústia psíquica, e ainda pelo valor de exteriorizar e verbalizar tais sentimentos. O que não vira palavra, vira sintoma, diriam alguns psicólogos. O fato de compartilhar tal intimidade com o espectador-parceiro também consiste num gesto de confiança — afinal, escutamos a confissão de um anônimo que se abre generosamente para nós.
Os traços da animação se prestam muito bem à representação de sentimentos tão confusos. O criador efetua belo uso dos traços simples, permitindo, por exemplo, que o horror aos cães se converta numa sequência de diminuição das cores e intromissão de traços mais rústicos, revelando os rabiscos do desenho — ou seja, uma perda dos sentidos, um descontrole. A projeção da imagem de heroína na amiga, graças à sua habilidade de cuidar de dois cachorros enormes, também resulta num belo instante de ludicidade. A linguagem animada constrói mundos internalizados muito melhor do que faria o live action, dependente da representação de uma realidade.
Em paralelo, impressiona a capacidade de fazer com que traços tão simplificados (dos personagens e cenários) representem emoções genuínas, através de minúsculas alterações no desenho. O clímax, promovendo o entendimento entre o homem e o animal, resulta num precioso instante de encantamento, que levou parte da plateia na Mostra de Cinema de Gostoso às lágrimas, em curtos minutos. A identificação com a paixão e medo pelos cachorros, além da vontade de entendê-los apesar da falta de palavras, se traduz de maneira bem eficaz neste segmento.
Infelizmente, o curta termina por se explicar demais, privando o espectador de efetuar o processo de elaboração de significados por conta própria. (O filme efetua muito bem sua autoanálise, mas precisaria nos deixar efetuar a nossa). “Algumas coisas ficam, mesmo depois que se vão”, afirma o enorme letreiro. Talvez o público pudesse chegar a esta (e outras) conclusões sozinhos, caso nos fosse dado o tempo (e a lacuna) para projetar nossos medos, afetos e superações. Ressalvas à parte, Medo de Cachorro transparece o forte potencial da animação, assim como o alcance popular desta linguagem. É gratificante nos deparar com um projeto tão complexo, apesar do pequeno escopo de produção.






