
Em seu documentário-homenagem ao maestro e arranjador Letieres Leite, as diretoras Iris de Oliveira e Day Sena enxergam o protagonista, sobretudo, como grande pensador da música brasileira. Isso significa que a vida pessoal do biografado não importa (nada de apresentá-lo como bom pai, ótimo marido, grande amigo, etc.). Em paralelo, elas evitam colocá-lo num panteão dos melhores de sua área (ele nunca será comparado a outros profissionais do mesmo ramo). O foco está bem definido no homem enquanto intelectual dos ritmos, da clave, sobretudo a partir de uma pesquisa pela música de matriz africana.
Esta perspectiva bem definida se divide em duas partes: na primeira, o artista fala por si próprio, ao longo de uma extensa entrevista concedida às autoras pouco antes de falecer, em decorrência de Covid-19. Na segunda, colaboradores e próximos relembram suas experiências junto ao músico — momento em que o documentário se rende às ferramentas dos talking heads (as “cabeças falantes”, prestando depoimento à câmera), que havia dispensado até então. Passamos da confissão em primeira pessoa à recordação em terceira pessoa; do diário ao álbum de grupo.
Um filme de aparência completa e complexa, mesmo que, deste modo, resulte um tanto exigente em sua comunicação.
“Eu tenho uma visão plástica da música. Eu não consigo ver som sem imagem”, ele confessa. Letieres demonstra impressionante autoconsciência de status profissional, sublinhando as forças e as fraquezas, as predileções e os acidentes de percurso. Confessa que se aproximou do candomblé numa perspectiva puramente rítmica, a princípio, e gosta de se apresentar enquanto arranjador, “o alfaiate” da música. Descreve a si próprio na condição de “fonte de transmissão da consciência rítmica aos instrumentistas”. Pontua a trajetória acadêmica, os concursos nos quais foi aprovado ou recusado. Ao invés de um percurso afetivo, prefere uma navegação fatual e processual.
Por estes motivos, a obra adquire um caráter sisudo, mesmo um tanto frio. A entrevista que ocupa a metade inicial se desenvolve a partir de um único instante, em mesmo ângulo e iluminação (ambos excelentes, diga-se de passagem). Mesmo assim, a montagem pena para efetuar pequenos cortes dentro do plano para atribuir certo dinamismo às conversas idênticas, em termos plásticos. (É muito importante que os documentários pensem, desde a captação, no dinamismo de cena, sem deixar à montagem a tarefa árdua de agilizar um conteúdo estático — o verdadeiro arranjo do filme, no caso, consiste na montagem da própria Iris de Oliveira).
Uma animação interessante surge de maneira pontual, no entanto, prende-se a uma função decorativa — ela jamais se desenvolve enquanto linguagem, nem surte nenhum efeito narrativo. Logo, apesar de instantes pontuais de poesia (a navegação pelas águas, em preto e branco) e outros de descontração (o colega descrevendo a surpresa dos músicos ao encontrarem um maestro que dança no palco), As Travessias de Letieres Leite se atém ao caráter de pesquisa. Estamos próximos de um terreno acadêmico, com destaque para a segunda parte, quando se permite a intromissão de diversos jargões e termos particulares à pesquisa e teoria musical, no intuito de descrever a evolução e complexidade dos arranjos elaborados pelo protagonista.
Durante a Mostra de Cinema de Gostoso, alguns espectadores abandonaram a sessão, talvez por se encontrarem diante de uma obra que exige real esforço para irmos em direção a ela, ao invés de nos tomar pelo braço e explicar tudo, como fazem a maioria dos filmes recentes. Ora, este seria um mérito das diretoras, que preferem uma abordagem investigativa, em profundidade, em detrimento de facilitar ou simplificar o discurso na ânsia de atingir um público mais amplo. O filme exige um espectador atento, porque acredita na nossa capacidade de mergulhar nos sentidos e discussões, por mais áridas que algumas delas possam soar. Existe uma forma de comunicação adulta e respeitosa neste cinema sem concessões.
A pérola da experiência se situa no final, quando as diretoras se deslocam do legado de Letieres (os alunos, as orquestras iniciadas por ele) para se concentrarem na importância e no desenvolvimento da música negra brasileira, em chave mais ampla. O filme termina por celebrar a riqueza dos ritmos, dos instrumentos, e da complexidade de cada subgênero, além de sua forte conexão com os orixás. Defende, portanto, que parte de toda a música celebrada no Brasil hoje, de Ivete Sangalo a Maria Bethânia, de orquestras sinfônicas a BaianaSystem, decorre diretamente de uma investigação da preciosidade da música de origem africana.


É possível que a experiência soe um pouco mais longa do que realmente é — a montagem se arrasta no início da segunda parte, em provável desejo de contemplar vários parceiros e colaboradores. Em se tratando de um documentário tão voltado à questão rítmica, o ritmo do próprio filme se torna essencial. Aqui, novamente, Oliveira e Sena rejeitam os recursos do cinema pop, fragmentado, ágil, pensado para um espectador distraído e de concentração reduzida, devido ao tempo condicionado pelas redes sociais. Fazem de sua experiência uma homenagem, mas também uma masterclass, sem medo de acumular conteúdo ao interlocutor.
Em conclusão, a obra ora cede a algumas convenções esperadas dos documentários biográficos musicais (a linha temporal do nascimento à morte, a concessão às cabeças falantes, os letreiros explicativos no final), ora resiste à tentação de tornar a sessão mais divertida, leve, jovem. As cineastas encaram seu personagem com a seriedade de quem precisa reverenciar um mestre, portanto, efetuam todas as pesquisas necessárias para honrar a complexidade de seu objeto de estudo. Concebem um filme de aparência completa e complexa, que mergulha em exaustão em seus temas — mesmo que, deste modo, resulte um tanto exigente em sua comunicação.




