
O título deste média-metragem resume a integralidade de sua premissa. O menino Jorge (Guilherme Kauan) passa os dias pela cidade de São João do Cariri (PB), ao lado da melhor amiga, Antônia (Isa Mendonça), criando reportagens imaginárias com sua câmera de papelão. Os diretores Lula Queiroga e Victor Germano jamais buscam compreender de onde surge esta vontade. Ele possui algum referencial, um repórter preferido? O que este formato representa para o garoto, que jamais vemos envolvido em nenhuma outra brincadeira típica de crianças da sua idade? Parte-se do pressuposto que as vontades são súbitas — com o diferencial da resiliência excepcional do herói nesta ambição profissional.
Trata-se de um grande elogio ao jornalismo, é claro. Por um lado, pode soar incômodo nos deparar com uma “sessão patrocinada” dentro de um festival de cinema — em especial, por conter inúmeras menções à rede Globo de televisão, desde os programas vistos pela família de Jorge, até as canoplas dos microfones e a inserção em diálogos: “Você acha que eu sou o dono da Rede Globo para gastar com fita?”. Assim, temos a impressão de encontrarmos uma matéria institucional a respeito da integridade da empresa, capaz de realizar os sonhos mais profundos dos cidadãos, mesmo aqueles que vivem longe das principais cidades paraibanas.
Os três personagens centrais são ótimos, tanto pelo texto que recebem quanto pelo desempenho dos atores mirins.
Por outro lado, o aspecto oficial se dilui através do humor e da boa construção de personagens. Os três meninos (o que inclui Miguel Venâncio) são, de fato, ótimos, tanto pelo texto que recebem quanto pelo desempenho dos atores mirins. Desenvoltos, encaram cenas longas, com falas extensas, esbanjando naturalidade e trajeto para esta espécie de humor malandro, porém, ainda lúdico o suficiente para integrar o universo infantojuvenil. Em paralelo, o roteiro confere uma subjetividade interessante à mãe e ao pai de Jorge, além da avó de Toinha e de Seu Paulino, um senhor que encoraja os pequenos a investirem na carreira jornalística. Eles se provam benevolentes, ainda que dotados das contradições habituais a qualquer adulto.
Já as provocações soam tão plausíveis quanto o senso de solidariedade construído na ideia, verbalizada pela trama, de que seria necessária uma aldeia para cuidar de um filho. O projeto acredita na coletividade, e também em certa liberdade na criação, distanciando-se do ideal de uma educação restrita e impositiva. Os realizadores tampouco escondem a necessidade de diversos personagens em deixarem o Cariri e partirem para Campina Grande, onde encontrarão melhores oportunidades de estudo e trabalho. (Pelo menos três personagens efetuam esta travessia, com o aceno a uma quarta figura se juntando ao grupo em breve).
Isso contribui a atenuar o possível aspecto turístico, e também institucional, que derivaria de um olhar idealizado a São João do Cariri. Apesar dos planos aéreos com drones, e das placas com o nome da cidade, o filme não esconde as carências de recursos na região. Talvez a direção de fotografia se mostre o departamento mais questionável neste processo: para um filme tão preocupado em valorizar a geografia e a paisagem do município, por que recorrer a profundidades de campo tão restritas? O diretor de fotografia Carlinhos Albuquerque desfoca brutalmente o fundo de suas composições, que convertem a paisagem num borrão indistinto. O espectador certamente conheceria mais do meio onde as crianças vivem caso enxergassem as casas, as ruas e os comércios.
Outros aspectos pontuais poderiam ser questionados: a suspensão bastante abrupta do encontro com um repórter profissional (apenas para revelar o conteúdo deste encontro mais tarde); o anúncio da aprovação em uma prova que o personagem ainda não aparentava ter feito, e a tentativa (mesmo que temporária) de converter o pequeno Evaldo no inimigo da dupla central. Mesmo assim, isso não retira os méritos de um feel good movie competente e doce, sem ser ingênuo — ou seja, carinhoso com todos os personagens em cena, embora ainda reconheça contingências econômicas e culturais. A amizade do trio central é digna de crença e identificação, assim como o modo de vida deles em suas casas (graças ao belo trabalho de direção de arte).


Ao final, Jorge Quer Ser Repórter acredita nestes exemplos enquanto inspiração para as futuras gerações — o texto adora fazer com que repórteres profissionais sejam convenientemente encontrados por seus adoradores mirins. Talvez se trate de uma solução fácil, que ainda reserva a função de repórter aos homens, ao passo que deixa as mulheres atrás das câmeras. Ora, vamos um passo de cada vez, como sugere o sábio guardião do museu. Para um pequeno filme, o projeto está ciente de seu porte, e não busca dar passos maiores do que poderia abarcar. Os cineastas evitam soluções milagrosas aos conflitos, e também evitam converter os jornalistas em detentores de uma verdade única. Conseguem tratar o ofício enquanto fruto de dedicação e aprendizado. Neste sentido, oferecem uma perspectiva surpreendentemente madura deste trabalho ao público familiar.




