
Neste curta-metragem, o diretor Carlos Mosca parte de uma curiosa tentativa de imaginar Valéria Messalina nos dias de hoje. Como seria, no século XXI, a imperatriz romana, terceira esposa de Cláudio, conhecida quase exclusivamente nos livros de História por seu apetite sexual? De que maneira o olhar machista e moralista a esta mulher (morta por assassinato) encontraria equivalência nos nossos dias?
A resposta vem através de uma artista transexual. Danny Barbosa, uma das atrizes mais instigantes do cinema recente, encarna esta figura. Ao pesquisar a origem de sua família num site da Internet, é obrigada a inserir o nome masculino — sinal de que importa ao texto, de fato, sua identidade de gênero. Adiante, ela se apresenta em bares, vestida como a figura nobre de séculos atrás, diante de clientes que comem uvas, tal qual ocorreria aos banquetes daquela época.
Os melhores instantes de Valéria di Roma decorrem precisamente das cenas inicial e final. A narrativa começa muito bem, com o rosto da protagonista atrás de uma cortina, em modo misterioso, antes de nos revelar, de imediato, o caráter performático da trama (ela se apresenta nos palcos). Logo, somos convidados a ler a proposta inteira pela perspectiva alegórica. No final, a trilha sonora e a arte empregada para os letreiros finais nos colocam numa espécie de abstração reflexiva, ideal para absorver o conteúdo proposto até então.
Entretanto, algumas escolhas prejudicam o resultado. A montagem aparenta suspender as cenas antes da revelação de seu propósito dramático, além de demonstrar dificuldade em sugerir passagem de tempo (a heroína marca um compromisso — corte simples — já se encontra na casa do homem). Há desníveis evidentes de som, tanto nos diálogos quanto no tratamento dos ruídos, enquanto o trabalho de câmera se prova um pouco desajeitado no bar, conforme efetua um travelling para trás, revelando mais elementos do espaço cenográfico.
De modo geral, a obra parece buscar constantemente seu tom, entre o naturalismo e a fantasia; entre o farsesco, o satírico e o drama solene a respeito destas duas mulheres. Alguns diálogos opacos dificultam a tarefa de mergulhar num filme ora lúdico, ora profundamente sóbrio em sua evocação da Roma Antiga. O filme nem explora a fundo o imaginário kitsch que parece se desenhar sobre o palco, nem mergulha nos conflitos que levam esta mulher a buscar as suas origens. Por fim, o espelhamento entre a imperatriz “devassa” e a cantora solitária soa mais tímido do que instigante.




