
O Nordeste Sob a Caravana Farkas constitui um documentário bastante ambicioso. Por meio de uma rápida descrição de abertura, somos lembrados da iniciativa dos anos 1960, comandada por Thomaz Farkas, que visava registrar rostos e tradições de diferente estados nordestinos. Entretanto, os diretores André Moura Lopes e Arthur Lins não se atêm à mera recordação do projeto artístico de décadas atrás. Passada esta apresentação sucinta, lançam-se em sua próxima travessia, visando “tecer novos elos narrativos”, conforme expõem os letreiros. Em outras palavras, os objetivos e métodos são expostos ao espectador tal qual fariam pesquisadores apresentando sua tese à banca avaliadora.
A narrativa é estruturada em quatro capítulos, acerca dos vaqueiros atuais, dos repentistas, do cangaço e do artesanato em barro. Cada um destes segmentos ofereceria material de sobra para o seu próprio longa-metragem, caso os autores o desejassem. No entanto, a dupla possui um olhar extensivo, buscando representar o povo, a cultura e as tradições no escopo mais amplo possível. Ao contrário da ultra especialização em um tema específico, eles visam contemplar diversos interesses, oferecendo um olhar plural e abrangente ao sertão contemporâneo.
O filme apresenta imagens deslumbrantes. Em contrapartida, a jornada se torna pouco equilibrada, e um tanto exaustiva.
As principais qualidades e defeitos da obra decorrem precisamente desta escolha. Por um lado, o filme apresenta imagens deslumbrantes, fruto do trabalho excepcional de Breno César. O diretor de fotografia demonstra um verdadeiro prazer e cuidado em suas composições fixas, sabendo exatamente para onde olhar, com qual luz e profundidade de campo. As paisagens e casas dos moradores são impecavelmente iluminadas, sem embelezamentos artificiais, porém, valorizando a luz natural.
Logo, constata-se um raro deleite em registrar rostos e expressões dos habitantes, transparecendo o humanismo da empreitada; em associação às composições de paisagens, dignas das artes plásticas. Quando um cantor dirige seu carro, no fim da tarde, a captação de baixas luzes através do vidro transparece um grau ímpar de controle da fotografia. Sem chamar atenção excessiva a si própria (ou seja, sem movimentos vaidosos de câmera), este departamento valoriza os espaços e mostra-se à altura do riquíssimo material de arquivo de Farkas, com o qual as captações contemporâneas são articuladas.
A propósito da montagem, Jaime Guimarães se mostra bastante confortável na articulação fluida entre fontes distintas. Ele torna quase imperceptível a passagem das cenas atuais àquelas do século XX, enquanto os editores de som Bruno Alves e Rafael Travassos costuram os depoimentos contemporâneos às falas da década de 1960. É certo que, chegado o quarto ato narrativo (a respeito da arte do barro), o caminho soa excessivamente longo, e desigual em duração e aprofundamento. Um questionamento comum a olhares tão panorâmicos reside precisamente na dificuldade de se tornar sucinto face a tantos objetos de estudo. Os criadores preferem, neste caso, o mergulho em profundidade ao dinamismo da experiência.
Por esta razão, a jornada se torna pouco equilibrada. Ela atinge um ápice de informalidade no segundo segmento, a respeito da cantoria. Neste momento, estabelece conversas informais, além de instantes de profundo lirismo na troca espontânea com os artistas. Para a nossa surpresa, vem de um garoto a frase “A inspiração é algo divino, algo sublime, difícil de explicar”, somando-se à melancólica tirada por parte do homem que “não confiou na arte” e abandonou a carreira musical. Em paralelo, menciona-se o repentista como “único artista do mundo que aprendeu sem professor”, conforme se investiga a configuração de uma cultura fundamentalmente popular.
O capítulo seguinte, em contrapartida, adota um tom mais sóbrio ao questionar a herança do cangaço. A famosa filmagem do bando de Lampião retorna sem um olhar propriamente novo ao material, nem questionamentos que outros longas-metragens inteiramente dedicados ao tema (caso de Lampião, Governador do Sertão, de Wolney Oliveira) já não tenham oferecido. A discussão ética acerca do cangaceiro, entre herói e bandido, preserva sua importância em 2025, quando se pensa em nossa complexa relação com a criminalidade. No entanto, a obra não possui tempo, e nem se dispõe a analisar o tema em suas contradições (o que envolveria o sequestro e estupro de mulheres, os acordos escusos dos cangaceiros com fazendeiros e políticos, etc.).


Terminado este trecho, um inabitual letreiro de meio de percurso surpreende: “Eu queria fazer uma história exata, mas como se sabe, nem tudo se relata”. O mea culpa, quase um pedido de desculpas dos diretores, prejudica a imersão na obra e retira do espectador da diegese. Afinal, o que seria uma “história exata”? Devemos, então, culpar as pessoas que não nos relatam tudo? É possível que dois diretores tão maduros em seu olhar ao Nordeste, de ontem e de hoje, acreditem na falácia desta idealização, além da responsabilização a terceiros pela ausência de informações mais esclarecedoras? Compreende-se que pensem e se sintam desta maneira, mas por que estimaram importante introduzir tal conversa diretamente com o público, no meio do caminho? Que garantia ou resguardo estimavam ganhar com tal procedimento?
O último segmento, neste sentido, soa apressado — seria o mais curto de todos? —, como se tivesse sido embutido in extremis devido à evidente importância do tema. O trabalho manual proporciona aos diretores uma bela metáfora de conclusão (a ideia de que viemos do barro, e ao barro voltaremos), embora resulte numa sensação um tanto exaustiva. De qualquer maneira, o saldo da obra é bastante positivo, graças à disposição de Lopes e Lins a nunca permanecerem reféns da caravana anterior, traçando seu próprio caminho, e compreendendo que cultura, política e economia precisam ser entendidas de modo entrelaçado. Eles partem da noção fundamental de que as condições geográficas e históricas são essenciais para se produzir esta arte e esta cultura específicas da região. Neste sentido, elaboram uma reflexão de rara complexidade.




