Vulkan (2025)

Estado de encantamento

título original (ano)
Vulkan (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
15 minutos
direção
Julia Zakia
elenco
Mata Gabin, Georgette Fadel, Bruna Linzmeyer
visto em
20º Fest Aruanda (2025)

Não há, conflitos, propriamente ditos, em Vulkan. Nenhum problema afeta a rotina de três mulheres durante uma estadia na praia. Elas mergulham no mar, tomam banho de sol, criam arte juntas. Escrevem, compartilham vídeos encontrados no celular. O trio nem mesmo conversa entre si. Encontram-se em tal estado de simbiose que se compreendem sem palavras (e o filme nunca se ressente da ausência de conversas). A marfinense Mata Gabin narra seu estado de espírito, numa espécie de digressão compartilhada somente com o espectador.

Durante quinze minutos, deparamo-nos com um estado de maravilhamento, atrelado à suspensão espaço-temporal: ignoramos o destino onde passeiam, há quanto tempo permanecem ali, e se possuem qualquer obrigação capaz de retirá-las deste contexto. Ignoramos o passado delas, assim como o futuro. As mulheres ocupam um eterno presente, muito bem capturado pela câmera, encantada pela maneira como uma admira a outra, que observa a segunda, que se deleita com a figura da terceira. Elas bastam a si próprias, razão pela qual o mundo ao redor se torna dispensável.

Existe uma profunda beleza no filme dirigido por Julia Zakia, decorrente tanto da filmagem em película, que resgata a granulação do Super 8 e do 16 mm, quanto da crença no cinema enquanto forma de admiração — nós contemplamos as mulheres que se contemplam, em agradável cumplicidade. O amor entre elas nunca se vende enquanto algo oculto, escandaloso, muito menos sedutor para os olhos do público. Pelo contrário, transparece uma bem-vinda naturalidade nos afetos, nos carinhos e no tratamento. Não foi feito para nós — apenas nos permite observar. 

A aparente simplicidade desta construção esconde sua sofisticação de linguagem. A câmera sabe exatamente para onde olhar, pela perspectiva de quem, de modo a posicioná-las numa horizontalidade exemplar. O som das gravações se inicia na condição de narração em off, passa então a um som diegético (ou seja, nós vemos a mulher efetuando os registros), e então volta a ecoar à distância, corroborando com o tom etéreo do conjunto. Podemos falar menos em atuações, no sentido clássico do termo, do que em performances, uma disposição à entrega e ao jogo cênico. A psicologia passa longe da criação enquanto presença.

Por isso, tamanha fluidez entre som, luz e atrizes; entre posicionamentos de câmera e montagem. Nenhum elemento chama mais atenção do que os demais; nenhuma atriz se destaca positiva, nem negativamente em relação às outras. O ideal de um cinema coletivo, fluido e aberto ao acaso se materializa neste filme cujas exigências de controle (afinal, filma-se em película) jamais abalam o senso de espontaneidade. Raros retratos transparecem tamanho carinho — das personagens entre si, das atrizes em relação às personagens, da direção com as atrizes e as personagens, e delas com o público. Calmamente, instaura-se uma empática democracia do olhar.

Vulkan ainda ocupa um espaço fundamental na lacuna do cinema lésbico brasileiro. Possuímos excelentes criadoras interessadas nesta temática e nesta estetica, porém, com poucas oportunidades de colocarem em prática suas narrativas e visões de mundo. Zakia demonstra a potência absurda desta forma de linguagem, num projeto, ao mesmo tempo, bastante contemporâneo e atemporal. Talvez se trate de um dos mais belos filmes vistos no 20º Fest Aruanda (o mais belo, quem sabe?), cujas imagens e sensações não se esquecem tão cedo.

Vulkan (2025)
10
Nota 10/10

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