
Não há, conflitos, propriamente ditos, em Vulkan. Nenhum problema afeta a rotina de três mulheres durante uma estadia na praia. Elas mergulham no mar, tomam banho de sol, criam arte juntas. Escrevem, compartilham vídeos encontrados no celular. O trio nem mesmo conversa entre si. Encontram-se em tal estado de simbiose que se compreendem sem palavras (e o filme nunca se ressente da ausência de conversas). A marfinense Mata Gabin narra seu estado de espírito, numa espécie de digressão compartilhada somente com o espectador.
Durante quinze minutos, deparamo-nos com um estado de maravilhamento, atrelado à suspensão espaço-temporal: ignoramos o destino onde passeiam, há quanto tempo permanecem ali, e se possuem qualquer obrigação capaz de retirá-las deste contexto. Ignoramos o passado delas, assim como o futuro. As mulheres ocupam um eterno presente, muito bem capturado pela câmera, encantada pela maneira como uma admira a outra, que observa a segunda, que se deleita com a figura da terceira. Elas bastam a si próprias, razão pela qual o mundo ao redor se torna dispensável.
Existe uma profunda beleza no filme dirigido por Julia Zakia, decorrente tanto da filmagem em película, que resgata a granulação do Super 8 e do 16 mm, quanto da crença no cinema enquanto forma de admiração — nós contemplamos as mulheres que se contemplam, em agradável cumplicidade. O amor entre elas nunca se vende enquanto algo oculto, escandaloso, muito menos sedutor para os olhos do público. Pelo contrário, transparece uma bem-vinda naturalidade nos afetos, nos carinhos e no tratamento. Não foi feito para nós — apenas nos permite observar.
A aparente simplicidade desta construção esconde sua sofisticação de linguagem. A câmera sabe exatamente para onde olhar, pela perspectiva de quem, de modo a posicioná-las numa horizontalidade exemplar. O som das gravações se inicia na condição de narração em off, passa então a um som diegético (ou seja, nós vemos a mulher efetuando os registros), e então volta a ecoar à distância, corroborando com o tom etéreo do conjunto. Podemos falar menos em atuações, no sentido clássico do termo, do que em performances, uma disposição à entrega e ao jogo cênico. A psicologia passa longe da criação enquanto presença.
Por isso, tamanha fluidez entre som, luz e atrizes; entre posicionamentos de câmera e montagem. Nenhum elemento chama mais atenção do que os demais; nenhuma atriz se destaca positiva, nem negativamente em relação às outras. O ideal de um cinema coletivo, fluido e aberto ao acaso se materializa neste filme cujas exigências de controle (afinal, filma-se em película) jamais abalam o senso de espontaneidade. Raros retratos transparecem tamanho carinho — das personagens entre si, das atrizes em relação às personagens, da direção com as atrizes e as personagens, e delas com o público. Calmamente, instaura-se uma empática democracia do olhar.
Vulkan ainda ocupa um espaço fundamental na lacuna do cinema lésbico brasileiro. Possuímos excelentes criadoras interessadas nesta temática e nesta estetica, porém, com poucas oportunidades de colocarem em prática suas narrativas e visões de mundo. Zakia demonstra a potência absurda desta forma de linguagem, num projeto, ao mesmo tempo, bastante contemporâneo e atemporal. Talvez se trate de um dos mais belos filmes vistos no 20º Fest Aruanda (o mais belo, quem sabe?), cujas imagens e sensações não se esquecem tão cedo.






