
A premissa de O Primata é simplíssima: um chimpanzé contrai raiva e passa a atacar uma família inteira. Esta é a única ação desenvolvida, da primeira à última cena, ao longo de aproximadamente 90 minutos. Logo, somem da equação a busca para encontrar antídotos, a chegada de salvadores ou especialistas em primatas, o confronto com algum outro animal, e ainda a descoberta de pontos fracos ou esconderijos na casa. O primata Ben ataca, enquanto os adolescentes se esquivam (ou morrem). Ponto final.
Como se o dispositivo não fosse evidente o bastante, o diretor Johannes Roberts trata de esclarecê-lo: os letreiros iniciais nos alertam a respeito da hidrofobia (“Animais infectados ficam literalmente loucos ao ver água”), e mencionam a existência da Raiva — assim mesmo, em letras grandes, tingidas em vermelho para acentuar sua gravidade. Nem mesmo a causa do ataque é sujeita a especulação: durante o período inicial, em que observamos o animal enquanto gentil bicho de estimação, o roteiro já estima necessário antecipar o mal do qual ele sofrerá. Assim, avisado de antemão, o espectador pode apenas esperar que a profecia se concretize. Poucos minutos após o início, está instaurado o terror do animal sanguinário.
O cinema comercial tem oferecido projetos bastante complexos de terror. Mas este não é um destes filmes.
O uso da linguagem cinematográfica efetua um caminho parecido, oferecendo generosamente as respostas para perguntas ainda não formuladas. Antes que cogitemos uma fuga da casa, um grande plano aéreo insiste que os protagonistas se encontram num local isolado, no topo de uma colina — em outras palavras, não há vizinhos a quem pedir socorro. Antes que se pergunte a respeito dos limites geográficos da mansão, um plano nos revela a piscina à beira do precipício. Obviamente, a queda sugerida pelo enquadramento se reproduzirá a seguir. Antes que se descubra a possibilidade da violência do chimpanzé, a cena inicial compartilha apenas conosco, espectadores voyeurs, do que ele é capaz.
Assim, não resta absolutamente nada para o espectador fazer, em termos de adivinhação, suposição, associação de ideias. O cinema comercial tem oferecido projetos bastante complexos de terror, abraçando causas sociais e proporcionando metáforas aos dilemas da contemporaneidade. Mas este não é um destes filmes. A única tensão deriva do ataque e da defesa; do enfrentamento ou escapatória ao bicho. A própria trama se desenvolve ao longo de pouco mais de um dia, impedindo um desenrolar de subtramas num tempo estendido. As personalidades das heroínas/vítimas tampouco são particularmente bem desenvolvidas: quando uma delas é subtraída da equação, não faz nenhuma falta aos conflitos seguintes.
Isso se justifica pelo fato que O Primata manifesta pouco apreço por seus personagens. Os rapazes são imbecis e pretensamente heróicos, já as garotas são tolas e ineficazes no combate ao inimigo. Nick, Drew e Brad correspondem unicamente ao imaginário do frat boy, buscando se divertir a qualquer custo e demonstrar sua força às meninas. O destino reservado a eles transparece o respeito limitado da direção por estas figuras. Ora, Lucy, Hannah, Kate e Erin se mostram igualmente ingênuas. Elas saem correndo para dentro da casa, mas se esquecem de pegar qualquer faca, bastão de beisebol ou objetos similares que as ajudem no combate ao agressor. Tropeçam com alguma frequência; deixam cair livros quando estão escondidas; pisam no controle remoto e ligam a televisão, revelando seu paradeiro. A poucos metros de um ente querido à beira da morte, preferem gritar de pavor a socorrê-lo.
Neste contexto, em oposição aos humanos pouco astutos, o chimpanzé é inteligentíssimo. Mais do que isso, ele se prova perverso, dotado de estratégias sofisticadas, além de poderes praticamente sobre-humanos. A exemplo dos vilões dos slashers, Ben desaparece diante dos olhos das vítimas, apenas para ressurgir em outro local segundos depois. Aparenta pular de uma borda à outra da piscina, como se voasse. Maneja o alarme de um carro tal qual um psicopata de Pânico, e utiliza os recursos de áudio num tablet para comemorar as mortes de sua autoria. A suspensão da descrença solicitada nesta trama envolvendo primatas assassinos vai muito além da agressividade repentina do animal. Ela reside na transformação de Ben no vilão intencionado e sádico de um terror de invasão doméstica.
Em determinados momentos, O Primata flerta com discussões mais interessantes, da ordem da comunicação. O pai surdo (Troy Kotsur) das protagonistas implica na instauração de diálogo em libras, além da ausência momentânea de som, quando se observa o mundo pela perspectiva de Adam. O animal também entende libras, o que poderia tornar o jogo ainda mais curioso. A falecida mãe, que trabalhava como linguista, talvez apontasse para alguma solução da ordem da despistagem ou do convencimento verbal junto a Ben. Ora, o roteiro faz uso modesto destes recursos de linguística, preferindo os estímulos mais óbvios do tablet contendo nomes e sentimentos.


Nem mesmo a matança se prova particularmente convincente. Chegada a hora dos ataques, sempre bastante sangrentos e explícitos, a montagem fragmenta ao máximo as ações. Enquanto isso, a câmera tremida sugere a violência enquanto borra o processo das agressões e minimiza a verossimilhança (vide a péssima edição da queda no penhasco). Por mais que algumas cenas caprichem na mise en scène (o garoto deitado na cama vermelha e sedutora, prevista por ele para o sexo, mas sendo subjugado pelo chimpanzé), a maioria das mortes ocorre em cenários e ângulos que prejudicam a compreensão do que ocorre, de fato, diante de nossos olhos (caso da cena da escada).
O longa-metragem se encerra na condição de um prazer regressivo: um filme assumidamente B, avesso à intelectualização crescente do horror, aos comentários sociais, à necessidade de complexificar a trama ou surpreender o espectador com os rumos da narrativa. Os criadores preferem um dispositivo comum aos anos 1990, envolvendo jovens atraentes sendo atacados por uma força inesperada durante o descanso numa cabana isolada (enquanto penalidade por sua frivolidade e sexualidade ativa). Em diversos momentos, lembra-se bastante das amizades interessadas e trágicas de Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, por exemplo. Com o diferencial, é claro, de que a doença de Ben não é culpa de ninguém. Desastres apenas acontecem.




