A Miss (2026)

Minha mãe ainda é uma peça

título original (ano)
A Miss (2026)
país
Brasil
gênero
Comédia
duração
105 minutos
direção
Daniel Porto
elenco
Helga Nemetik, Alexandre Lino, Maitê Padilha, Pedro David, Eduardo Martini
visto em
Cinemas

O que seria das comédias populares brasileiras sem a figura da mãe barraqueira? Aquela figura excessiva, que fala pelos cotovelos, reclama de tudo, inferniza a vida dos filhos — mas, no fundo, tem um grande coração? A Dona Hermínia de Paulo Gustavo representa o ápice desta caracterização colorida das classes D e E. No entanto, outras intérpretes seguiram passos semelhantes: Cacau Protásio, Samantha Schmütz e Ingrid Guimarães já fizeram suas versões da mater histriônica. Estas diaristas, cabeleireiras e micro influenciadoras gritam, não levam desaforo para casa, e ainda fazem os outros passarem vergonha. (Mas não se preocupe: após uma cena dramática, elas se redimem junto aos familiares, e está salvo o dia).

Agora, Helga Nemetik se junta ao grupo. Ela encarna Iêda, a dona de um salão de cabeleireiro, e obcecada com a ideia de transformar a filha Martha (Maitê Padilha) numa miss. A garota não leva jeito para a tarefa, nem almeja esta carreira. Pouco importa: a mãe berra, explode, humilha, insiste. Bate a própria cabeça no volante do carro, queima o braço do amigo Atena (Alexandre Lino) com um cigarro aceso, ameaça jogar um vaso nos filhos, coloca laxante na comida deles e impede o acesso ao segundo banheiro. A filha, desesperada, também bate a própria cabeça na porta do armário. Você não bate bem da cabeça, né?, afirma um diálogo. Percebe-se, por este exemplo, o nível das piadas e o tom do humor buscado pelo longa-metragem. 

A Miss trata a identidade queer enquanto sinônimo de enganação. A comédia nunca se preocupa com os sentimentos, desejos e com a subjetividade de Alan.

Os diálogos e, mais especificamente, as brigas, pautam o ritmo da produção, como de costume neste segmento específico de comédias. Parte considerável das cenas se encerra em provocações e acertos de contas, coroados por personagens insultando e fechando portas. Estima-se que, quanto mais exagerada for a gritaria, mais engraçado será o resultado. Pobre Iêda, dotada de variação nula neste percurso: em todos os instantes, ela reclama, cobra, dá bronca, grita. Até os filhos encontrarem uma solução conveniente: colocar o garoto Alan (Pedro David) nos concursos de miss, disfarçado de mulher. Ninguém perceberia, certo? Em dez minutos de narrativa, o dilema e sua solução estão postos ao espectador. Cabe esperar o desenvolvimento previsível do plano, além de seus revezes (a descoberta da mentira, a retratação).

Entretanto, o filme a respeito de um menino que se veste de menina e integra as disputas de miss não se interessa nem pelo menino travestido, nem pelos concursos de beleza. Há uma indefinição fundamental no tratamento da obra em relação a esta prática em particular: as disputas de miss seriam ridículas ou louváveis? Dignas de escárnio, ou uma possibilidade de autoafirmação? Ora o roteiro escrito pelo diretor Daniel Porto sugere um mundo grotesco — vide as respostas caricatas das candidatas às perguntas “culturais”, os figurinos paródicos para “trajes regionais”, e o descaso com perucas, maquiagem ou qualquer forma de preparação para se apresentarem em público. Nos demais momentos, a possível vitória surge como uma conquista emocionante.

Em nenhum instante, as disputas de misses soam minimamente verossímeis. Nunca se apresentam as tentativas iniciais de Martha nesta área e, chegada a vez de Alan tentar, a montagem encontra dificuldade em sugerir a passagem de tempo. As moças surgem no palco e, no mesmo plano, anunciam-se semifinalistas e finalistas. Qualquer tensão quanto ao resultado, a espera, as tensões nos bastidores, os olhares para as adversárias está excluído do jogo. Nem a organização do espetáculo de misses, nem a dinâmica da avaliação dos jurados demonstra qualquer apreço pelos concursos. Porto aparenta desdenhar do filão ao qual dedica um longa-metragem inteiro (afinal, os quatro protagonistas não possuem nenhum outro conflito para além da obtenção da coroa e da faixa).

Em paralelo, nota-se o desdém por questões ligadas a gênero e sexualidade — noções percebidas, aqui, enquanto mistura indistinta. A Miss nunca se preocupa com os sentimentos, desejos e com a subjetividade de Alan. Dos quatro personagens centrais, ele constitui aquele com menos diálogos, menos ações por conta própria, menos manifestação de intenções. Jamais se entende o apreço do jovem pelos concursos de miss, ou como se sente em relação à própria sexualidade e ao gênero. Sempre se percebeu assim? Já se apaixonou por alguém? Não se importa em ser tiranizado pela mãe obsessiva? Não teme a homofobia/transfobia nas ruas? Sonha em se vestir com trajes considerados femininos fora do contexto das competições? Até na hora de defini-lo, é a mãe quem assume a fala: é filho, filha, filhe, ela pergunta? Pouco importa. O filme não está do lado dele.

A verdadeira protagonista é Iêda. Quando, inevitavelmente, revela-se a farsa das misses trocadas, o roteiro corre para se posicionar junto à mãe. É ela quem ganha um extenso flashback, solicitando nossa piedade quanto à educação tirânica que também recebeu na infância. A comédia se preocupa com a dor dela, e também com a possibilidade de redenção desta mãe extrema. No dia seguinte ao choque, acorda outra pessoa. Respeita a todos, perdoa aos filhos hostilizados. A empresária se torna uma mãe melhor, ao passo que Martha escapa da obrigação de ser miss. Iêda, veja só, ainda preserva o comportamento autoritário e abusivo com o filho, que tolera os desmandos da mãe, enquanto Atena recebe a queimadura no braço na forma de uma bênção merecida: “Tá bem, eu aceito, sua doida”. É impressionante a submissão generalizada à abelha-rainha.

Pior do que isso, o longa-metragem trata a identidade queer enquanto sinônimo de enganação. Geralmente, as vozes conservadoras associam travestis, drag queens e mulheres transexuais a “homens que tentam se passar por mulheres”, ou seja, a farsantes, pessoas de má índole. Aqui, Atena representa um curioso cabeleireiro efeminado, que oculta o segredo de dormir com mulheres. Sua sexualidade é falsa, escondida — e o roteiro jamais se dedica a investigar esta singular configuração dos desejos. O hétero enrustido serve ao filme enquanto imagem de uma comicidade, um exotismo. Atena corresponde à enésima figura do gay-amigo-da-protagonista, sem vida própria, servil e submisso. Está pronto para corresponder a todos os caprichos da diva, colocando-se à disposição quando ela assim o desejar.

No caso de Alan, ele e a irmã bolam esta enganação para conseguirem a coroa no discurso. Passam-se por outra pessoa, ludibriam uma organização. A própria Martha terá sua oportunidade de prender o cabelo num boné e — milagre! — ser identificada como homem. Aqui, preservam-se as fronteiras do binarismo: homem veste boné e cabelo curto, mulher tem vestido longo e cabelos longos (ou perucas mal colocadas, no caso). Podemos nos acreditar nas comédias televisivas dos anos 1990, ou ainda numa forma de humor que parecia perdida no audiovisual norte-americano dos anos 1940 e 1950, muito disposto a rir da cara de pessoas tentando se passar por aquilo que não são. Que engraçado, Alan vestido de mulher! Que hilário, Martha se passando por homem! Que pitoresco, um sujeito afeminado que se deita com mulheres!

A Miss olha para todas essas configurações de modo a ridicularizá-las. A mãe não reconhece o filho travestido às pressas, e estima se encontrar diante da filha. Logo após o desfecho precipitado de um discurso, encontra Martha nos bastidores e, mesmo sem vê-la com os trajes do desfile, ainda confunde os irmãos gêmeos. Que mãe não reconheceria os próprios filhos? Tamanha ingenuidade fazia rir em filmes de mais de cem anos atrás, caso de A Florida Enchantment (1914), de Sidney Drew. Surpreende que ainda seja considerada uma ferramenta digna, legítima e respeitosa para dialogar com gênero e sexualidade. Afinal, reserva-se ao garoto (gay? trans? travesti?) uma identidade opaca, enquanto lhe são retirados a voz e o ponto de vista. O discurso mostra-se obcecado com as duas mulheres cis e, sobretudo, com a possibilidade de redenção desta mãe exagerada através do filho-objeto, novo alvo de seu controle. Sem problemas ter um filho vestido de mulher, contanto que acate minhas ordens e aceite ser humilhado na televisão! 

Atenção: alguns spoilers a seguir.

O desfecho, no programa sensacionalista, apenas comprova a indefinição da comédia e de seu ponto de vista. O que pretende demonstrar a narrativa, através da farsa da sexualidade patética, porque fora do seu lugar? Não se sabe como esta família atrapalhada viverá o dia seguinte ao concurso, uma vez desvendadas as verdades. A direção não parece se importar. A mãe sagaz de repente desconhece o conceito de uma transmissão ao vivo. O filho desmascarado simplesmente afirma que fez o que precisava fazer. Seguirá em concursos? Viverá um percurso de miss? Viverá como mulher? A jornada se encerra num ponto de suspensão. Triste a sensação de um filme que se dedica aos personagens somente em sua capacidade de errar — de meterem os pés pelas mãos, burlarem as regras, de serem malandros, equivocados ou ingênuos. Acabada a rocambolesca troca de personagens, não há motivo para continuar. Na verdade, o projeto nunca demonstra respeito ou interesse por nenhuma figura em cena.

A Miss (2026)
2
Nota 2/10

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