
Para os Guardados poderia ser definido por uma espécie de cinema da gentileza. Para quem espera, da produção da quebrada, um choque de realidade brutal, ou a lógica da afronta, os diretores Desali e Rafael Rocha oferecem uma grande carta de amizade aos amigos presos. Relembram que os criminosos ricos, autores de infrações muito mais graves, jamais passam pelas penitenciárias. Pontuam, igualmente, que as condições desumanas do cárcere apenas contribuem para que as pessoas se revoltem contra a sociedade, e que cometam novas infrações, uma vez libertos. Um membro da equipe, inclusive, é creditado como “guardado” nos letreiros finais.
O próprio termo desperta empatia, neste projeto que presta atenção particular às palavras. Os colegas não se encontram “presos”, “encarcerados”, mas guardados, preservados, como aquele bem querido que se conserva numa gaveta para utilizar em dias especiais, ou a bebida mais cara da asa, esperando no armário até algum dia de comemoração. São preciosos, ao invés de meramente segregados do convívio social. Enquanto isso, os colegas se comunicam em língua concebida para não chegar facilmente aos ouvidos de indivíduos alheios à comunidade: eles jogam para o início de cada palavra a sua última sílaba, numa forma de “língua do P”, ou de verlan dos franceses.
Certo humor decorre desta forma de comunicação, mas também a certeza de que estes jovens se compreendem bem. Falam a mesma língua, precisamente, o que implica numa direção com conhecimento real do local e dos hábitos retratados. Este não é um projeto elaborado a respeito de homens e mulheres presos, mas com eles, ao lado deles. Nas paredes, enxergam-se cartazes da APN, Aliança Periférica Nacional, em sinal de organização institucional. Nos áudios, enviados pelo celular, os amigos detalham a proibição de visitas e a interdição de banho de sol por seis meses. Ameaçam, em represália, botar fogo no local.
As vozes se mostram, ao mesmo tempo, desoladas e ferozes, melancólicas e gentis. Agradecem os kits recebidos pelos amigos de fora, incluindo alimentos e itens básicos de higiene. Lamentam a distância dos filhos pequenos, a saudade dos namorados e companheiros. Com a mesma tonalidade de distanciamento e nostalgia, dois colegas relembram o caso de um funcionário, estuprado pelo detento soropositivo enquanto forma de punição. Nenhuma indignação surge no aspecto desta interação corriqueira. Esta é uma trama de violências, ainda que normalizadas, atenuadas pela repetição de histórias semelhantes. O Estado se vingaria dos homens pobres, muitos deles autores de crimes pequenos que, por sua vez, devolveriam sua ira ao sistema repressor. E assim por diante.
A estrutura se divide na forma de cartas, estampadas em intertítulos escritos a mão. Embora remetam ao imaginário do papel escrito e enviado, remetem, na verdade, aos áudios de celular. Para os Guardados gosta de mergulhar numa linguagem híbrida entre ficção e documentário. Concentra-se nas vivências reais dos indivíduos, em situações rotineiras, porém, a partir de cenas condicionadas pelas necessidades da câmera, e de temas estimulados pelos diretores. Há tanta espontaneidade, no belíssimo slam a contraluz, no final da trama, quanto controle e vontade de embelezar aquele momento, emoldurá-lo em luzes estouradas e amareladas. O afeto se encontra justamente na linguagem empregada. Desali e Rafael Rocha filmam com profunda empatia os personagens e espaços da periferia.
No entanto, esta mesma estética desperta a impressão de uma obra inacabada. Não se reclamaria maior polimento, no sentido clássico-narrativo do termo — os diretores procuram uma estética da marginalidade e da precariedade de recursos, empregados de modo coerente com seu tema. Entretanto, alguns problemas assumidos pelos diretores, durante a apresentação na Mostra de Tiradentes, chamam a atenção. Em primeiro lugar, no som: há deficiências de captação, acentuadas pela presença da legendagem. O personagem inicial se dirige aos cachorros, embora sua fala seja inaudível. Caso os autores suprimissem as legendas neste caso, despertariam a impressão de abraçar os ruídos indistintos de fundo, sem a necessidade de compreensão por parte do espectador. A ideia de conversas corriqueiras se adequaria ao formato e ao estilo da obra.
Em segundo lugar, a montagem soa indecisa quanto ao instante de encerrar suas cenas, e como articulá-las com segmentos seguintes. A apresentação, em particular, teima em encontrar ritmo ou convergência entre a busca pelas plantas e o transporte da carcaça de um carro. Chegando ao núcleo onde são montados os kits para os detentos, a edição novamente perde a fluidez, transparecendo a dificuldade de associação entre os diferentes personagens presentes. Cada vez que o sujeito de pé retorna ao foco destes encontros, o som de sua fala se perde inicialmente. Parte desse agenciamento soa consertado, remediado da melhor maneira possível.
Em terceiro lugar, há alguns cacoetes de intervencionismo, que pouco beneficiam a dinâmica. Os amigos se posicionam em frente à câmera, e depois de perfil, como se tirassem suas fotos de fichamento policial. Seguram placas invisíveis, enquanto feixes luminosos são aplicados de maneira errática sobre seus corpos. Os círculos de luz voltam a dançar no rapaz deitado no chão, a esmo. Estes cacoetes soam como meros enfeites, que jamais se desenvolvem enquanto recurso, nem se conectam com tantos outros tiques e estilos adotados: as fotos em preto e branco, de diferentes linguagens; a mudança da velocidade da fotografia de modo a obter um efeito stop motion, flicando.
Em geral, Para os Guardados se sobressai nos instantes menos ornamentados, de menor ingerência de ordem ficcional. Momentos simples como a conversa dos prisioneiros com os braços fora das grades são belíssimas, assim como a entrega do kit a um amigo cujo irmão se encontra na prisão. Já os desenhos dessa poesia indefinida, ainda tateando seu ritmo e sua fluidez, em dúvida quanto à melhor maneira de retratar o tempo e o espaço (fundamentais para uma obra a respeito do cárcere), revelam um projeto que careceria de cenas suplementares. O resultado se ressente da falta de novos cortes na montagem, para chegar à máxima expressividade de sua estética da empatia.




