No Good Men (2026)

Feminismos possíveis

título original (ano)
No Good Men (2026)
país
Alemanha, França, Noruega, Dinamarca, Afeganistão
gênero
Drama, Romance
duração
103 minutos
direção
Shahrbanoo Sadat
elenco
Shahrbanoo Sadat, Anwar Hashimi, Liam Hussaini, Yasin Negah, Torkan Omari, Fatima Hassani
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

“O seu casamento foi combinado, ou por amor?”. A pergunta da repórter Naru (a diretora Shahrbanoo Sadat) não choca o jornalista Quodrat (Anwar Hashimi), nem soa como uma intromissão. Pelo contrário, possui o tom de uma pergunta qualquer a respeito da idade do colega, ou do bairro de sua residência. Ele responde que não, e se arrepende disso. Era jovem, e casou-se com quem a família escolheu. Já ela se casou com um desconhecido, e hoje busca oficializar o divórcio com o sujeito infiel e abusivo. Nenhum dos dois está feliz com sua vida conjugal, embora cumpram com as regras esperadas pela conservadora sociedade afegã de 2021.

Este é o ponto de partida de No Good Men: o questionamento das transformações no Afeganistão pela perspectiva das mulheres. No caso, não exatamente pelo olhar daquelas mais afeitas ao governo totalitário, mas das figuras que se opõem aos ditames religiosos, tanto do presidente quanto dos Talibãs. Assim, Naru não pretende reatar com o marido, apesar das pressões. Em paralelo, as colegas dela também enfrentam as convenções, seja por trabalharem como jornalistas, entre a maioria esmagadora de colegas homens, seja por se mudarem aos Estados Unidos, e discutirem abertamente sua sexualidade. Enquanto um representante dos Talibãs se enfurece com o véu escorregando da cabeça de uma mulher no recinto, elas brincam com vibradores importados, que se movimentam em diferentes velocidades. Não pertencem ao mesmo mundo.

No Good Men questiona as transformações no Afeganistão pela perspectiva das mulheres, enxergando o futuro do país com certo otimismo.

Neste contexto, a cineasta busca confrontar o privado ao público, a experiência particular da protagonista àquela do país. De certo modo, a fase de instabilidade no Afeganistão (acentuada pela retirada repentina de tropas norte-americanas do território) se reflete na inconstância da própria mulher. Conforme uma bomba explode durante uma festa, visando membros da imprensa nacional, Naru enfrenta a tentativa de sequestro do filho pequeno por parte do marido. Apesar de constituir uma mulher comum (de classe média, em contexto equivalente àquela de tantas outras pelo território), ela transparece a crise da subjetividade em meio ao caos nacional: quem seria louco de buscar o amor enquanto as bombas explodem aqui e acolá?

Logo, a possibilidade de um feel good movie durante ataques terroristas resulta numa ousadia em si própria. Sadat jamais minimiza a gravidade da situação ao longo do roteiro (também de sua autoria), mas permite que certos absurdos do cotidiano ofereçam algum distanciamento cômico face aos horrores do confronto armado. Assim, na televisão, a ligação de uma espectadora resulta num grave relato de violência conjugal. Sem problema: o médico convidado sugere que a esposa agredida “use mais maquiagem” para reconquistá-lo. Durante algumas perguntas políticas no telejornal, contradizendo a versão oficial do governo, o convidado se irrita e parte para a briga física com o âncora. As interações causam espanto, e também humor, devido à sua improbabilidade. 

Neste sentido, Naru exige aos policiais da empresa que a revistem também. Por que fariam isso apenas com homens? Mulheres não poderiam carregar bombas? A demanda soa exagerada — por que ela simplesmente não se felicita com o passe-livre por parte dos mal-humorados agentes? Ora, No Good Men gosta de estudar equivalências de gênero, e também suas possíveis subversões. O que aconteceria se uma mulher cobrisse reportagens de guerra? Por que as entrevistadas mulheres se sentem mais confiantes em conversar com repórteres do mesmo sexo? O texto expande a simples guerra dos sexos para uma configuração mais completa de machismo, misoginia e concentração de poder na mão dos homens.

Para isso, o longa-metragem adota um ritmo ágil, graças à câmera na mão, tremendo discretamente (sem chamar atenção para si própria), em conjunto com a montagem, que rapidamente interrompe as cenas e salta para o dia ou hora seguinte, com uma fluidez exemplar. Espertamente, o filme evita transformar a protagonista em heroína de alguma causa nobre (ela apenas reivindica melhorias para si mesma), ou mártir da desigualdade sistêmica na totalidade. Um dos fatores que nos permitem a identificação com ela reside neste caráter comum, seja fisicamente, seja psicologicamente. Ela implica, erra, fala demais, muda de ideia. Há certo grau de inconsistência (moral, inclusive) nesta figura, que felizmente a afasta da idealização.

O mesmo não pode ser dito, infelizmente, do personagem de Qodrat. Aos poucos, o sujeito inicialmente machista se torna um aliado, em seguida, um defensor das mulheres e, rumo à conclusão, um típico herói hollywoodiano — no sentido de sacrificar a própria segurança e integridade em nome da mocinha e de seu filho pequeno. O projeto que encontrava fissuras interessantes na redenção masculina (afinal, o sujeito tão amável com Naru representava, ao mesmo tempo, o marido ausente e traidor de outra família) termina por ceder à expectativa de reconciliação através do romance. Caso a repórter de fato tenha uma vida melhor neste cenário, sua sorte se deverá à boa vontade de um homem bom, e somente a ele — posto que a própria Naru havia desistido de lutar. Anteriormente, o emprego na emissora de televisão se devia ao marido violento.

Por fim, o roteiro enxerga o futuro do Afeganistão com certo otimismo. Há espaço, ainda que pequeno, para a imprensa livre e questionadora; para as mudanças de regime; para as mulheres que exigem direitos iguais; para os meninos crescerem e não se tornarem novos companheiros agressores ou pais irresponsáveis. Ao final, este filme feminino a respeito das masculinidades acredita que os homens (tanto os maridos quanto os presidentes) ainda podem se redimir — e isso dependerá, por esta perspectiva, sobretudo da mudança de perspectiva deles mesmos. O projeto feminista diminui o valor da iniciativa das próprias mulheres no Afeganistão, numa perspectiva meio realista, meio fatalista — como o espectador preferir. De qualquer modo, enxerga transformações no horizonte. 

No Good Men (2026)
7
Nota 7/10

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