Trial of Hein (2026)

O cinema e seus tabus

título original (ano)
Der Heimatlose (2026)
país
Alemanha
gênero
Drama
duração
122 minutos
direção
Kai Stänicke
elenco
Paul Boche, Philip Froissant, Emilia Schüle, Stephanie Amarell
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

Paira sobre Trial of Hein uma sombra pesada até demais: aquela de Dogville (2003), de Lars von Trier. O filme do cineasta dinamarquês havia utilizado uma estética e um dispositivo cênico tão originais que qualquer referência a esta estrutura desperta a aparência de plágio ou, pior ainda, uma homenagem inferior ao original. Mesmo assim, a produção alemã também utiliza as não-casas, compostas unicamente por uma parede de madeira, e vazadas — embora os personagens ajam como se estivessem no interior de domicílios comuns. Para von Trier, o pressuposto fortemente teatral se justificava graças ao uso do fundo e chão pretos, assumindo o jogo cênico emprestado à arte alheia.

Naquele caso, Grace era uma forasteira que chegava a uma cidadezinha, e exigia ser acolhida pelos moradores pouco acostumados à presença de desconhecidos. Eles utilizavam a mão de obra desta figura ambígua, que talvez não fosse de fato quem dizia ser. Chegavam a abusar da boa vontade dela, empregando métodos cruéis no intuito de testá-la. Durante um tribunal e votação dos habitantes, decidiam, à unanimidade, se aquela pessoa de fora deveria ser considerada um deles.

Trocando o protagonismo feminino pelo masculino, o parágrafo acima descreve, palavra por palavra, os acontecimentos do longa-metragem dirigido por Kai Stänicke. Até mesmo os incontáveis planos aéreos, favorecendo o aspecto irreal e metonímico da geografia, retornam ao trabalho mais recente. Ora, desta vez, a trama se passa numa planície realista, ao invés do palco teatral. Na história estrelada por Nicole Kidman, ninguém se importava se choveria ou não naquele contexto em que a natureza era colocada entre parênteses. No caso alemão, essa proximidade com paisagens possíveis incomoda — afinal, o diretor deseja abraçar o naturalismo ou a fantasia? Ou, em outras palavras, por que acredita que esta configuração alegórica da aldeia contribuiria à sua trama?

O filme a aborda a homossexualidade com receio de tocar no tema de fato, de demonstrar a atração sexual entre dois homens, assim como a violência homofóbica.

Por trás de uma mise en scène tão chamativa, nota-se a vontade de discutir a aceitação do outro. A comunidade pacífica e gentil seria capaz de acolher alguém diferente? Mesmo que Hein (Paul Boche) tenha vários indícios de ser, de fato, o garotinho que abandonou a ilha 14 anos atrás, por que se recusam a abraçá-lo como um deles? Conseguem amar o próximo como a si mesmos? O que impede o filho pródigo de revelar os reais motivos de seu retorno, e por que fazê-lo agora? Se a partida do adolescente, na época, foi testemunhada pela integralidade de moradores, o que justificaria tantas dúvidas a respeito dos fatos daquele dia?

O roteiro se delicia em manter o mistério. Durante dois terços da trama, o espectador não terá indícios suficientes para responder à questão principal: afinal, o sujeito que retorna dizendo ser Hein, realmente é o antigo morador, ou apenas um forasteiro iludindo os habitantes? Paul Boche cria um personagem opaco, cujo olhar pouco expressivo nos permite projetar a resposta de nossa predileção ao seu rosto. Ocasionalmente, a história oferece indícios de que ele estaria dizendo a verdade (a reação de Friedemann à correntinha), porém, adiante, oferece provas de uma farsa (a fotografia atestando a mentira do rapaz quanto ao ritual envolvendo peixes, aos dez anos de idade).

O público logo descobre que, naquele lugar, opera-se uma forma de recalque coletivo, um pacto tácito para desconversar a respeito de temas desagradáveis. Preferem aceitar uma mentira evidente, contanto que convenha à moral e aos bons costumes, a se confrontarem ao real. Assim, o filme situado em algum momento do passado, em tempo e localidade imprecisos, se conecta com nossa ultra contemporaneidade no sentido de abordar uma disputa de narrativas, ou seja, uma lógica do convencimento, vencendo quem apresentar a melhor versão. A verdade interessa pouco, posto que, diante da fé, cabe acreditar naquilo que lhe convém. Se estes pescadores estivessem numa grande cidade, organizariam algum vídeo de YouTube no formato 1 liberal X 20 conservadores, ou algo semelhante. O confronto, aqui, constitui o verdadeiro espetáculo.

Por isso, Stänicke não pretende encerrá-lo tão cedo. Opta por três dias de “processo” de Hein, deixando em segundo plano personagens e objetos que poderiam acelerar a determinação do veredito (a fotografia da infância, a mãe convenientemente senil). O autor prefere brincar com nosso pacto de espectatorialidade, ao oferecer flashbacks fictícios — conforme personagens narram sua lembrança de episódios passados, enxergamos a reconstituição pessoal daquele indivíduo, mesmo que, mais tarde, a leitura pessoal se prove falsa. Nem mesmo podemos acreditar em nossos próprios olhos, posto que as imagens mentem. Deste modo, a despedida do pequeno Hein ganha diversas interpretações, em paralelo às distintas versões dos maus-tratos a crianças.

Atenção: possível spoiler a seguir.

No finalzinho, e apenas então, Trial of Hein revela novos motivos para o retorno e o silenciamento do protagonista, relacionados à sua homossexualidade. São estranhos, em 2026, os filmes a respeito de personagens gays, que ocultam sua orientação sexual enquanto mistério empolgante. Compreende-se que Hein esconda isso dos demais personagens, e que seus cúmplices pretendam evitar a informação, mas por que a direção trata este tema tão natural com tamanho pesar, gravidade e senso de tabu? O que interferiria na identificação do espectador, caso soubéssemos desde o princípio que Hein é gay, e busca se reconectar com o amor da juventude?

Resta assim uma obra excessivamente pudica e controlada — psicorrígida seria um bom termo, neste caso. Utiliza cenários fantásticos que nunca permitem à trama mergulhar na fantasia de fato. Trabalha com figurinos limpos e asseados em excesso, para vestir seus pescadores estripando peixes; além de cenas de catarse tímidas, modestas. Os peixes caem da caixa já enfileirados no chão; a foto se dobra e desdobra sem marcas; as roupas guardadas se endireitam com um mínimo ajuste no ombro. Sobretudo, a homossexualidade se discute e se cala como um segredo de Estado. Ora, o mesmo Hein que permaneceu 14 anos na cidade, em busca de si próprio, nunca se libertou a tal ponto? 

Assim, o longa-metragem ainda aborda a homossexualidade com receio de tocar no tema de fato, de demonstrar a atração sexual entre dois homens, assim como a violência homofóbica. Prefere deixar o tema claríssimo, contanto que não precise materializá-lo, nem conferir protagonismo a um desejo que pede licença para contaminar a estética (sendo sumariamente recusado). Em 1961, William Wyler dirigiu Infâmia, filme a respeito de uma mulher lésbica, incapaz de pronunciar a palavra lésbica, tamanha era a vergonha dela (e dos criadores) em retratar o tema com franqueza. Em 1959, Joseph L. Mankiewicz criou De Repente, no Último Verão, um suspense inteiramente baseado no horror da homossexualidade — jamais explicada ou verbalizada enquanto tal. “Bom, eram filmes de sua época”, ponderam tantas vozes em defesa destes projetos reprimidos. “Não seria possível efetuá-los de outra forma”, acredita-se. Ora, em pleno 2026, o cinema não só pode, como deve, enfrentar seus temas com mais coragem e senso de responsabilidade do que faz este projeto alemão. 

Trial of Hein (2026)
4
Nota 4/10

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