
“Eu nasci de novo, e a luz é tão clara que eu não consigo abrir os olhos”. Esta é uma frase real de At the Sea, drama que acredita transmitir algo bastante profundo a respeito da natureza humana a partir de uma mulher traumatizada. Laura (Amy Adams) provocou um acidente de carro devido à dependência de álcool. Felizmente, o filho pequeno saiu ileso, e ela se safou com uma cicatriz na perna. Após seis meses numa clínica de reabilitação caríssima, está pronta para encarar amigos e familiares — que não mais acreditam nela enquanto esposa, mãe ou dirigente de uma prestigiosa companhia de dança.
A heroína precisa, então, provar a si mesma e aos demais que está bem melhor. No entanto, no primeiro reencontro a sós com o filho pequeno, o garoto se acidenta de novo. Ela falha em protegê-lo, falha em avisar ao marido, falha inclusive em chegar ao hospital sã e salva uma segunda vez — sendo quase atropelada por um carro novamente. No caminho, encontra um belo homem musculoso, disposto a ajudá-la, e ostentando seu próprio histórico de dependência química. Quem diria, não? O roteiro escrito por Kata Wéber está repleto de obviedades e conveniências, ao limite do humor involuntário. Dentro da sala de cinema, alguns risos nervosos eram escutados aqui e acolá, em cenas seríssimas, previstas para forte impacto emocional.
Os criadores nunca percebem o quão próximos se encontram da autoparódia. Para uma narrativa tão dedicada à dança, as cenas coreografadas beiram o constrangimento.
Isso porque o projeto utiliza ferramentas muito frágeis para sugerir a complexidade de um estado psíquico. Em primeiro lugar, repete ad nauseum os flashbacks de Laura na infância. Ali, a criança pura, casta e sorridente, de olhos profundamente azuis (filmados com obsessão publicitária pelo diretor de fotografia Yorick Le Saux) é agredida e negligenciada pelo pai tirânico. Logo, a tese determinista do diretor Kornél Mundruczó repousa na ideia de que uma criança que recebeu pouco afeto não saberia dar carinho aos próprios filhos. Por isso, torna-se uma mãe alcoólatra, irresponsável, perigosa. Trata-se de uma associação simplória de causa e consequência, no entanto, o drama sustenta sua tese como quem revela uma descoberta milagrosa ao espectador.
A própria função dos flashbacks da infância pode ser contestada no cinema recente, de vocação psicanalítica. A Cronologia da Água, Four Minus Three, Nina Roza e Trial of Hein (estes três últimos, exibidos na 76ª Berlinale) são alguns dos projetos que recorrem a frequentes inserts dos personagens quando crianças, apenas para sugerir que já foram mais felizes — ou sofreram demais e, por isso, tornaram-se adultos problemáticos. São inserts edulcorados, mal pensados e desenvolvidos cinematograficamente, posto que excessivamente demonstrativos. Existe uma literalidade, uma funcionalidade a estes segmentos, destinados a significar pureza ou dor. Em consequência, destituem-se os pequenos de uma psique própria para se converterem em símbolos morais e exemplos de uma causa. Os incansáveis flashbacks de At the Sea favorecem a impressão próxima de uma chantagem emocional.
Em segundo lugar, aposta-se numa série de diálogos inverossímeis, beirando o teor de autoajuda. “Você não tem a menor ideia de quem eu sou, porque você passou a vida inteira tentando descobrir quem você é”, ataca a filha adolescente, revoltada. “Um brinde à beleza temporária e aos recomeços!”, festejam os amigos. As tentativas de humor serão igualmente deslocadas, improváveis — caso da crise de riso de Laura e do marido Martin (Murray Bartlett) após a fuga de Josie (Chloe East) com o namorado. O momento em que a jovem tem o aparelho dentário preso na braguilha do rapaz, durante a festa, não faria feio no universo de American Pie. Mas tudo bem: o instante paspalhão será desculpado por uma tentativa de suicídio imediatamente após. Os criadores nunca percebem o quão próximos se encontram da autoparódia.
Em terceiro lugar, para uma narrativa tão dedicada à dança contemporânea, as cenas coreografadas, envolvendo bailarinos profissionais ou os atores principais, beiram o constrangimento. Josie — uma atriz com claro domínio da dança — improvisa uma coreografia sexual e violenta, no intuito de ofender a mãe. (“Eu só queria te machucar!”, ela explica). Adiante, as duas desenvolvem uma dança de libertação e recomeço, com contornos dignos de algum ritual religioso. Amy Adams soa desconfortável nestes instantes, assim como na sequência de abertura (ela está batendo tambor numa atividade terapêutica, embora sustente a intensidade no olhar de quem está prestes a saltar num precipício). Já os inserts “artísticos” de dançarinos sofrendo ao som de uma versão indie de I Follow Rivers possuem tamanha carga dramática que, uma vez mais, resvalam na caricatura.
É impressionante a dificuldade do cineasta e de sua roteirista em trabalharem alguma simbologia original e orgânica para o trauma. A montagem insistente de Dávid Jancsó e Ilka Janka Nagy retorna à cena do carro revirado sobre a avenida, porém, com um brinde: a dado momento, garrafas de álcool começam a deslizar do automóvel destruído — afinal, ela estava embriagada. Entendeu? Na necessidade de explicar de onde Laura vem, e qual trabalho ocupava antes da tragédia, ela simplesmente assiste a um DVD cuja narradora em off explica exatamente o percurso da empresária e o papel castrador de seu pai “genial”. Para representar a necessidade de libertação, utilizam-se pipas flutuando no céu. Há ícone mais desgastado do que esse?
At the Sea ainda tenta inserir discussões a respeito da mastectomia de Debbie (Jenny Slate), da possibilidade de demissão dos funcionários, caso a companhia de dança perca fundos, e da amizade fiel e levemente abusiva da heroína com o melhor amigo gay (Dan Levy). Tudo isso à beira-mar, embora os personagens reencontrem a praia unicamente para se matar, se queimar com águas-vivas ou se humilharem durante caminhadas com os amigos. Nenhum destes elementos se aprofunda a contento, soando como passagens introduzidas a fórceps para sobrecarregar este imaginário contraditório de dor e de delicadeza.
Nem mesmo os atores se mostram particularmente bem dirigidos: Amy Adams está mal calibrada em termos emocionais, exagerando em algumas cenas simples, ou mostrando-se apática quando se buscaria maior intensidade. Ora ela aposta numa malícia irônica (a provocação com o funcionário, na saída da clínica), ora se vê zumbificada, inerte. Mundruczó tem a certeza de traçar o retrato profundo de uma artista em crise — uma pobre vítima dos males do mundo, tal qual a protagonista de Pedaços de uma Mulher. Entretanto, limita-se a um espetáculo do sofrimento composto por metáforas óbvias.




